Querem seres humanos, mas estimulam máquinas. Querem que deixemos de viver, de adoecer, de ter dias ruins, querem que entreguemos tudo que existe de melhor dentro de nós, mas nos tratam como números, com frieza e indiferença, e mesmo nesse caso, com dois pesos e duas medidas. Falam brevemente sobre saúde mental e física, sobre termos a coragem de falar como nos sentimos e o que pensamos, mas quando falamos nos silenciam com descaso, soberba e regulamentos. Querem que entendamos o lado deles, mas nunca entendem o nosso, e seguimos respaldados por nada além de nossa própria bravura diária, independentemente das batalhas que estejamos enfrentando. Não se importam com nossa mente, com nosso corpo ou nossas emoções, importam-se apenas com pontualidade, datas, relatórios e métricas. São incapazes, inclusive, de notar que o sistema irredutível que nos oprime sem pensar duas vezes contribui pra nossa derrocada, incentiva nossas falhas, acentua nossas doenças, esmorece nossa vontade. Nenhum deles jamais irá verdadeiramente se perguntar qual é o papel deles nos atrasos, nos atestados, no cansaço, no colapso. Não existe nem remotamente o conceito de pensar ao menos uma vez no que é bom para nós além do que nos é garantido por lei, afinal, sabemos que se pudessem, nos pagariam com tapinhas nas costas e pão embolorado, e ainda nos diriam que é mais do merecemos, e que deveríamos agradecer de joelhos a benevolência de ter como sobreviver pra entregar mais um dia de nossas vidas pra eles. Daqui, não espero nada que não seja unilateral em benefício deles, nunca terei voz, seguirei cada vez mais ciente de que quando eu grito não faz barulho, como se minha cabeça estivesse mergulhada na água desse lago vítreo e podre cheia dos cadáveres de cada um que lentamente teve a luz sugada de si. Seguiremos reféns eternos do sadismo e das telas e cabos de fibra ótica, nos apagando em agonia pra que nossos chefes possam viver ótimos momentos com seus amigos nas belas praias desse país a cada feriado e em cada recesso que nunca nos serão ofertados. Pra eles não tem problema, desde que batamos o ponto na hora.
Fim de Tarde...
O que o homem vê no céu falso é o brilho de uma vida já extinta.
06 janeiro 2026
14 dezembro 2025
Recortes
Cada vez que a lembrança
Deixa o pesar no peito
E o amargor na garganta
Eu te mando um vídeo bobo
Que não tem nada errado ou novo
E que nada mais existe
É o que posso fazer pra te ajudar
Pra te deixar focar no que precisa
Pra você continuar a sua vida
Sem lamentar o que não volta
Mas acho que de nós dois
Você já foi bem mais longe
E o que busca no horizonte
Novamente é só amor
Eu, por outro lado
Sou alguém mais complicado
Tenho cisma com o passado
Vivo de me arrepender
E lamentavelmente não aprender
A seguir sem precisar sofrer
09 dezembro 2025
Sessão gritos inaudíveis #16
Tenho muito mais do que os distúrbios, o descontrole, a exaustão pra dizer. Muito mais do que apenas a revolta, as crises e a depressão pra mostrar. Tenho mais que os vícios, as cicatrizes e as dores mal curadas pra viver, mas é difícil pois o mundo sempre quer me derrubar, e ele é pesado, muito pesado. Nunca alcançarei o que considero ideal, mas apenas gostaria que fosse um pouco mais fácil sobreviver e viver. A gente não deveria pagar tanto por um sorriso tão breve, por um riso tão pontuado. Não é possível que eu mereça isso desse jeito, não é possível que eu seja tão ruim assim. Ou será que sou? Eu não saberia dizer com certeza, mas custo a crer em ares de justiça divina pairando sobre mim. Eu não quero ser canonizado, não quero ser demonizado, só quero ter paz. Eu não mereço isso? Nem sequer me lembro como é ter paz, porque nunca mais senti isso. São problemas sucessivos, no trabalho, na rua, com amigos, com família, na minha casa, no meu corpo, na minha mente. Ou então é rotina, dormir, me distrair com redes, séries, pessoas e coisas, mas veja bem, rotina não é paz. É sempre submissão e revolta, embate ou fuga, euforia e depressão. Não sou o mártir desse mundo, apenas queria ter um pouco de paz sem precisar sangrar por cada momento. Estou exausto, eu já sangrei demais. Me deixem sozinho. Me deixem em paz.