31 maio 2016
Das Coisas Que Falei Pelo Acalento.
Não sei dizer quantas vezes me senti assim, mas esse sou eu. O barulho da chuva lá fora transborda aqui dentro, enche o vazio, mas o eco continua alto, ensurdecedor. Eu vejo meus detalhes em cada uma das palavras que se formam, elas me acompanham junto com toda a tristeza que eu puder levar, e dessa eu encho os bolsos e a alma sem sequer piscar. A escuridão se faz necessária sem querer, eu descobri que não sei andar sob o sol. Talvez o excesso de claridade me incomode. Talvez eu apenas tenha medo de encarar a realidade que essa luz vai me mostrar. Na escuridão reina o frio, e esse dói. Se infiltra nos ossos, causa as pontadas e os tremores, insiste na crueldade e nos temores, mas permanecendo em trevas eu dou cada passo com a ilusão de algo que provavelmente não existe, e essa ilusão me carrega quando as pernas estão cansadas. Não sei se quero a claridade pra mostrar que fracassei, pra me cegar entre os amores que enterrei. Esses, aliás, eu devia ter aprendido que não sei lidar. Sou indefinido, imperfeito, disforme e ainda assim gigantesco em meus trejeitos invisíveis. Esse sou eu, um andarilho solitário, e aprendiz da madrugada, compreendo mais uma vez que minha capacidade padece no saber, pois notei que diferente da chuva, meu coração é sólido. De certa forma, não possui a simplicidade de caber.
30 maio 2016
Inevitável.
Hoje usei a palavra inevitabilidade numa conversa. À partir do segundo em que a proferi senti uma inquietação no cérebro. Como uma coceira, um formigamento. Pareceu um tipo de aviso do meu próprio ser para as coisas que digo. Hipocrisia. Depois de algumas horas, ainda com um gosto amargo na boca, quase como um efeito colateral, eu percebi que alertei quanto a algo que teimo a ignorar dia após dia. A inevitabilidade. Continuo teimando em negar meus instintos, e assim a inevitabilidade me atinge sempre. De novo e de novo, um maldito círculo onde eu sou devorado por minhas próprias negligências. Eis me aqui, tão confuso quanto alguns, mais perdido que muitos, tão longe de alcançar a superfície quanto qualquer outro. Ainda assim ousei falar de inevitabilidade como se eu entendesse de alguma fagulha que seja dessa fogueira viva. Me queimei e vou continuar me queimando. Isso sim é o conceito da inevitabilidade. Que me sirva de lição.
24 maio 2016
Horas De Uma Noite Qualquer.
Faz frio aqui dentro. Posso sentir cada uma das rachaduras no assoalho me observando com olhos secretos, pesados e inexistentes. Faz anos que me sinto assim, devo estar ficando paranóico. Sentado de modo a parecer confortável, vejo a foto de uma mulher em um dos quadros na parede. A lembrança dela é uma farpa sangrenta no meu cérebro, deve ser essa a causa das dores de cabeça tão frequentes. Droga, eu estou velho demais pra agir desse jeito. Sou um desajustado.
Estou cansado disso. Apago as luzes, visto a roupa mais quente, pego cigarros, meu isqueiro, todos os meus arrependimentos e saio. Não sei pra onde ir, só quero caminhar. Eu sou um idiota. Acendo um cigarro na noite densa, a culpa se acumulando sobre meus ombros. Diabos, esqueci das luvas. Tudo bem, por algum motivo o corpo não parece reclamar tanto, talvez não esteja tão frio assim, talvez minha temperatura esteja mais baixa, igual minha pressão, não sei, mas o frio é suportável. A cada trago vejo a fumaça dançar de forma imprevisível no ar. Ela odiava o cheiro do cigarro, me lembro. Céus, quando foi que fiquei assim? Acho que nunca me decepcionara tanto comigo mesmo quanto agora. Eu afundava cada dia mais, sem nenhuma perspectiva de melhora, de salvação. Conforme meus passos avançam a escuridão aumenta. Mais um cigarro, só a brasa me ilumina mais do que a luz morta das estrelas agora. Percebo uma mudança no relevo do chão. O som a cada passo mudou. Estou na ponte. Que diabos vim fazer na ponte? Tanto faz, só quero caminhar. Acendo mais um cigarro e continuo atravessando vagarosamente, ouvindo o ranger agourento sob meus pés. Lá pelo meio da travessia ouço um estalo mais alto, o chão some e eu sou sugado, tateando as cegas na fração de um segundo inevitável. Um silêncio curto de queda livre e um baque no rio macabro. Abro os olhos embaixo da água gélida e sombria, mas não vejo nada. Agora o frio perfura meu corpo como facas. Tento me debater e chegar a superfície, sem sucesso. O coração bate rápido. Passaram os anos e eu não aprendi a nadar, sou um inútil mesmo. A cada movimento fico mais lento, ou o rio estaria ficando mais denso? Eu não sabia dizer, tudo que sabia é que o ar estava quase extinto nos pulmões. Talvez eu morra aqui. Droga, o maço no meu bolso já deve ter sido inutilizado. Ao menos disso ela poderia sorrir, sempre odiou que eu fumasse, pensei, isso teria de bastar pra me tornar alguém melhor.
E de repente uma calma me atingiu. Parei de me debater, parei de sentir frio. Deixei a correnteza escura me levar. Deixei a água entrar pelo nariz. Tossi, senti a visão turvar. Diabos, estava doendo. Pelo menos eu não sentia mais frio. Não havia do que reclamar agora. Nem haveria mais.
Estou cansado disso. Apago as luzes, visto a roupa mais quente, pego cigarros, meu isqueiro, todos os meus arrependimentos e saio. Não sei pra onde ir, só quero caminhar. Eu sou um idiota. Acendo um cigarro na noite densa, a culpa se acumulando sobre meus ombros. Diabos, esqueci das luvas. Tudo bem, por algum motivo o corpo não parece reclamar tanto, talvez não esteja tão frio assim, talvez minha temperatura esteja mais baixa, igual minha pressão, não sei, mas o frio é suportável. A cada trago vejo a fumaça dançar de forma imprevisível no ar. Ela odiava o cheiro do cigarro, me lembro. Céus, quando foi que fiquei assim? Acho que nunca me decepcionara tanto comigo mesmo quanto agora. Eu afundava cada dia mais, sem nenhuma perspectiva de melhora, de salvação. Conforme meus passos avançam a escuridão aumenta. Mais um cigarro, só a brasa me ilumina mais do que a luz morta das estrelas agora. Percebo uma mudança no relevo do chão. O som a cada passo mudou. Estou na ponte. Que diabos vim fazer na ponte? Tanto faz, só quero caminhar. Acendo mais um cigarro e continuo atravessando vagarosamente, ouvindo o ranger agourento sob meus pés. Lá pelo meio da travessia ouço um estalo mais alto, o chão some e eu sou sugado, tateando as cegas na fração de um segundo inevitável. Um silêncio curto de queda livre e um baque no rio macabro. Abro os olhos embaixo da água gélida e sombria, mas não vejo nada. Agora o frio perfura meu corpo como facas. Tento me debater e chegar a superfície, sem sucesso. O coração bate rápido. Passaram os anos e eu não aprendi a nadar, sou um inútil mesmo. A cada movimento fico mais lento, ou o rio estaria ficando mais denso? Eu não sabia dizer, tudo que sabia é que o ar estava quase extinto nos pulmões. Talvez eu morra aqui. Droga, o maço no meu bolso já deve ter sido inutilizado. Ao menos disso ela poderia sorrir, sempre odiou que eu fumasse, pensei, isso teria de bastar pra me tornar alguém melhor.
E de repente uma calma me atingiu. Parei de me debater, parei de sentir frio. Deixei a correnteza escura me levar. Deixei a água entrar pelo nariz. Tossi, senti a visão turvar. Diabos, estava doendo. Pelo menos eu não sentia mais frio. Não havia do que reclamar agora. Nem haveria mais.
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