30 novembro 2022
Ma belle.
Ei... tem um tempo que a gente não se fala, você está bem?
Acho que essa tem sido muito da nossa premissa em todos os nossos reencontros via redes e fibra ótica, e eu sei que isso não é o ideal, mas sinto o calor do seu abraço cada vez que nos falamos, e sempre procuro estender todo o meu carinho, como se de alguma forma ele pudesse atravessar a distância e te fazer um cafuné. É curioso que eu tenha te conhecido na família de um dos melhores amigos da minha vida, isso porque eu não imaginava que havia alguém mais pra conhecer, o círculo me parecia bem completo e satisfatório, mas eu te conheci numa festa de ano novo e de lá pra cá abriu-se um novo lugar no meu coração, aonde guardei a fração mais singela de você e da sua amizade por mim.
Me senti acolhido pela garota mais gentil que tive a sorte de conhecer em muito tempo, em cada vez que me deixava falar do meu jeito, quando me ouvia mesmo que eu estivesse bêbado, quando não tentava me moldar às suas necessidades e quando demonstrava interesse no que eu tinha a oferecer. É importante pra mim que você saiba o quanto me fez bem em um momento no qual eu me sentia distante de algumas amizades que eu considerava importantes. Com você eu não precisava tentar me encaixar.
Essas são algumas das razões que me fizeram te olhar com mais atenção e oferecer minha amizade irrestritamente. Passei a me importar muito com você e com a maneira como você se sente frente ao mundo, comecei a querer te apoiar e retribuir tudo que você tão generosamente me ofereceu sem cobrar nada em troca. Muitas vezes me sinto como um tipo de irmão mais velho, me orgulho de todas as suas conquistas e tenho uma vontade de te proteger do mundo, e mesmo sabendo que temos nossas rotinas, prazos e horários eu acredito que vamos conseguir nos ver mais e compartilhar muitos outros momentos simples e preciosos como cada vez que nos vimos e nos falamos até hoje.
Lembro do convite que me fez para sua formatura e de como me senti especial. Aquele foi um dos meus dias preferidos do ano, eu amei poder estar presente em algo tão importante, poder dançar, beber, conversar e dar risada com você, te acompanhar pra lá e pra cá, tirar fotos e te ouvir falar sobre pessoas que eu ainda não conheço, te dar um abraço e perceber cada vez mais que você é uma garota preciosa pra mim. Te agradeço muito por tudo isso. Hoje em dia eu sei que nem sempre você tem tido bons momentos tão frequentemente, e que isso te faz estremecer num calafrio de dentro pra fora, mas espero que apesar de todo esse cansaço turbulento você compreenda que eu te amo, que me orgulho de quem você é, que estou aqui pra te ouvir e pra lamentar e comemorar o que vier, que estou aqui pra te ajudar no que eu puder porque gosto de você de graça e porque hoje você é tão parte da minha vida quanto uma irmã mais nova de sorriso lindo e estilo próprio. A detentora do nome mais lindo de todo esse mundo.
Seja lá quantos anos ambos ainda tenhamos, daqui até lá você tem minha lealdade e coração, e nem sempre eu vou saber transpor em palavras, mas sempre vou tentar o meu melhor pra que você tenha mais um motivo pra sorrir.
De alguém que te ama e te admira muito,
Régis.
Tweet que não foi pro Twitter.
Eu não sei o que fazer. Me sinto péssimo, não me sinto um bom filho, um bom namorado, um bom amigo. A impressão que me dá é que nada que eu faça agrada ninguém, nada que eu faça eu faço certo. Tô cansado dos outros e de mim.
O último dia.
Acordou como acordava todas as manhãs. Preguiça, o calor da cama, tudo familiar, mas ao se levantar sentiu um tipo de arrepio, não como mau agouro, mas uma constatação, um tipo de aviso natural que alguns deviam sentir já aos 80 ou 90, mas ele sentiu aos 35, e de uma forma muito particular. Foi ao banheiro e olhou no espelho mas não notou nada diferente. Checou o corpo da melhor maneira possível, nada diferente. Fechou os olhos e prestou atenção aos sentidos, tentou ouvir o funcionamento das próprias engrenagens, nenhuma dor, pontada, coceira, nada anormal. Ainda assim sabia. Não sabia como sabia, mas sabia. Por um breve momento se desesperou andando pela casa. Não podia ser, pensava, logo ele, logo agora, ainda parecia ter tanta areia a rolar pela ampulheta, mas sentia que sabia, e essa percepção tão certeira e imutável o fez pular os estágios do luto e aceitar. É isso, morreria. Aquele era seu último dia. Sentou na cama e pensou em tudo que fizera na vida e da vida, imaginou quantas pessoas agora não desejariam estar em seu lugar, e concluiu que sem dúvida seriam incontáveis. Assim, tomado de determinação abandonou a agenda da rotina. Ligou o som e começou a ouvir suas músicas favoritas, todas elas, as tristes, as felizes, as bobas e as sérias, e enquanto ouvia tomou o melhor banho de sua vida, comeu o melhor café da manhã de sua vida e vestiu a melhor roupa que tinha. Olhou as notificações do celular e foi tomado de um pensamento inquietante. Resolveu que ia fazer o que nunca tinha feito, da forma que nunca tinha feito. Saiu de casa e na rua respirou profundamente o ar da manhã, como era bom estar vivo, aquele último dia seria o dia mais marcante de sua vida. Sorriu aos transeuntes ocasionais enquanto caminhava, enquanto tomava um caminho igual para uma finalidade diferente. Entrou na firma, se demitiu respeitosamente e se despediu carinhosamente dos amigos que tinha feito.
- Mas cara, como assim?
- É que eu vou viajar pra longe, mano.
- Mas vai pra onde?
- Não sei bem, mas sei que é longe, e queria me despedir de você e dos outros.
- Bom, então boa sorte, mas não some, viu?
- Não vou sumir, cê vai ouvir falar de mim, mas não quero choro, viu?
- Que papo estranho, tu entrou numa seita? Hahaha
- Longe disso, amigo. Mas é, já vou indo, viu? Dá um abração na sua mulher, diz que vou ter que cancelar aquele rolê que nós três tínhamos combinado. E vê se te cuida.
Abraçou o amigo, abraçou todos os amigos e foi embora. Ali tinha muita gente boa, desejou do fundo do coração o melhor a todos. Seguiu contornando os caminhos que sempre tomava até tomar outros menos corriqueiros e depois de um tempo parou numa porta conhecida. Bateu e esperou. Ela abriu e ficou surpresa, mas em seguida se mostrou fria.
- Que que cê quer?
- Posso entrar?
- Pra quê? Eu tenho muito que fazer.
- Não vou tomar muito do seu tempo, só quero conversar rapidinho.
Ela não entendeu muito bem, mas parecia sério.
- Tá, entra, mas você tem só meia hora, eu tenho mais o que fazer.
Entrou, sentou e observou a sala. Nada tinha mudado muito fora um detalhe ou dois. Ainda era a mesma pessoa afinal.
- Olha, eu queria me desculpar.
- Pelo quê?
- Por mim, por nós, por como tudo terminou.
- Olha, você não precisa fazer isso, eu nem sei se quero que você faça isso, já passou, eu não ligo mais.
- Eu sei, mas quero fazer mesmo assim.
- Tá... então fala de uma vez.
- Olha, eu não queria mesmo que as coisas terminassem como terminaram. A verdade é que eu tive muito medo de não ser suficiente, ou de tudo ser demais. Tive medo de me sufocar e no processo te sufocar também. Tive medo de querer ter uma casa, dois filhos e um cachorro, tive medo de ser o maior acerto da minha vida porque na real eu ainda não tava pronto pra acertar, acho que ainda queria errar de porta um pouco mais antes de entrar pela mesma todos os dias pelo resto da minha vida. Eu tive medo de ser feliz, porque tinha medo dessa felicidade acabar e eu me tornar um miserável rancoroso e triste. Então em vez de te explicar eu só fui embora, mas não foi direito, você não merecia isso. A realidade é que você foi a melhor coisa que me aconteceu e eu me arrependi amargamente por uns dois anos até seguir em frente, mas queria que soubesse que nunca foi você e que eu espero que você seja o mais feliz possível sozinha ou com um novo alguém, se é que já não tem alguém.
- Bom... não tem. Mas mesmo que tivesse eu não te diria.
- Imagino que não, mas não é esse o ponto. Não foi você, e eu me arrependo de como deixei pensar que talvez fosse. Fui eu. Desculpa.
- O que te levou a vir aqui me falar tudo isso depois de quatro anos? Por que agora?
- Porque sim. Eu percebi que às vezes o melhor motivo é saber que não há exatamente um motivo lógico, porque a vida acontece todos os dias e a graça da coisa é viver. É o que eu tô fazendo agora, tô vivendo, e parte disso é vir te dizer o que eu devia ter dito há muito tempo. Não foi você, fui eu, desculpa, siga feliz se for possível, tá? Você merece.
- Tá bom. Não sei o que te dizer mas tá bom. Obrigado por ter dito o que disse e por não esperar uma resposta de mim.
- Não se preocupa, não espero mais do que tudo que você já me deu. Obrigado por tudo. Agora eu vou indo, obrigado por me deixar entrar e encarar isso tudo de frente, era o mínimo da minha parte. Se cuida, tá? Você é maravilhosa. Tchau.
- Tchau.
Saiu mais leve, não exatamente feliz, mas com uma sensação de entendimento e conclusão. Conclusão era uma sensação boa. De lá foi visitar mais amigos, aqui e ali, colocou papos em dia, abraçou apertado, gargalhou, lembrou dos tempos de escola. Tomou uma boa parte do dia. Já pelo fim da tarde passou num apartamento e tocou o interfone.
- Oi!
- Oi mãe, sou eu!
- Ué, do nada? Sobe.
Ouviu o estalar do portão automático e entrou no prédio. Subiu no apartamento e a porta já estava aberta.
- E aí, que houve que veio me visitar do nada? Aconteceu alguma coisa?
- Nada aconteceu, hoje eu tava com tempo e senti saudade. Só isso.
Não precisou explicar muito mais. Conversou com a mãe sobre tudo que era corriqueiro, soube das novidades, assistiram tevê juntos, jantou na mesa com ela e e quando ela foi tomar um banho ele escreveu num papel. "Você fez tudo ser mais fácil e mais carinhoso. É parte de mim pra sempre e eu nunca escolheria outra pessoa pra ser minha mãe. Não se preocupa e vê se não se sabota, você pode tudo que quiser quando quiser. Te amo pra sempre."
Foi embora e ligou pra um amigo, já era noite. Encontrou com ele num bar e tomaram algumas. Deu risada, falou da vida, de esportes, das antigas namoradas e amigos, ouviram algumas músicas, curtiram. Saiu do bar bem o suficiente pra entender o que fazia e voltou pra casa. Chegou cansado mas satisfeito. Ligou pra muita gente, falou, ouviu, riu e se compadeceu. Perdoou e foi perdoado também. Pra quem não atendeu mandou mensagens e áudios. Falou com todos. Naquela noite tinha jogo do seu time. Assistiu pela tevê e vibrou, comemorou e xingou também. Tomou um banho e depois fumou um cigarro. Pediu sua comida favorita e comeu lendo antigos poemas que já escrevera. Mais de meia noite deitou na cama, os olhos já pesados. Pegou papel e caneta.
"Não foi culpa de ninguém, não fiz isso a mim mesmo e nem faria, mas hoje, não sei como mas eu sei, é meu último dia. Obrigado a todos que amei e que me amaram. De alguma forma eu sei que quando dormir não vou mais acordar. Seja lá por onde for, a aventura continua. Amo todos vocês."
Recostou a cabeça no travesseiro e sorriu. No final das contas tinha tido sorte, mesmo com todos os percalços. Estava feliz. Chorou silenciosamente, fechou os olhos e dormiu. E não acordou mais.