07 novembro 2020

Das coisas que desaprendi com o tempo.

Acho que nunca mais entendi o que é realmente relaxar. Ter espaço pra caminhar sem destino aparente, sem um roteiro, um plano. Na verdade nem me lembro exatamente a última vez que isso me aconteceu, tenho mais um resquício de sensação, uma vaga memória de um dia ensolarado, sem me preocupar ou visitar lugares extremamente revisitados, um tipo de tempo meu sem mais ninguém.
Não pensar em nada me parece cada vez mais impossível, mais fora de prática, era algo muito mais natural um tempo atrás, quase instintivo. Era bom. Ouvir minha música comigo mesmo, beber minha cerveja, fumar o meu cigarro, não mexer tanto no celular, nem conversar com ninguém, somente eu andando por aí e olhando o que me cerca de longe, ouvindo o som do céu, sentindo o meu silêncio.
Isso nunca mais aconteceu, acho que eu nem sei mais aproveitar algo tão pacífico assim. Sinto saudade de estar só, longe de todos que sabem quem eu sou, sem as vozes ecoando na minha cabeça, sem horários apertados, sem prazos, sem dores pelo corpo, sem eu.
Eu sem mim e sem ninguém nunca mais aconteceu. Não sei nem se volta a acontecer. Realmente eu não sou o lugar certo pra mim, e o cansaço me adormece. Será que um dia eu volto a relaxar?

10 setembro 2020

Nothing but sea.

É curioso pensar na ascenção de alguns ídolos que eu tenho. A ascenção meteórica, jovem, cheia de urgência e vontade de abraçar o mundo inteiro, ou mesmo aquela mais contida, porém tão avassaladora quanto a primeira no sentido de extensão. Sempre com uma precocidade altamente procurada, valorizada. Eu não sei... eu olho pra alguns dos ídolos que eu tenho na música ou no esporte, e eu valorizo tanto a sensibilidade e a maneira única que cada um deles tem de se comunicar. É realmente muito além do que eu jamais alcancei em termos de... bom, de praticamente tudo, e às vezes tudo que eu queria era ser igual, tão grande e relevante quanto, inspirando pessoas. Mas certas vezes eu vejo que isso realmente não é o que eu quero, mesmo que eu esteja longe de qualquer pretensão, inclusive às vezes sinto que tanta gente me conhece que eu queria ser mais anônimo ainda. Algumas vezes não sinto que tenho uma vida ordinária e em paz, sinto como se eu já conhecesse tantas pessoas, e pensar nisso pode ser exaustivo por si só. O passar dos anos faz isso, eu acho. O acumulo de anos pode se tornar algo bastante claustrofóbico, ou mesmo hipocondríaco. Eu tenho o equilíbrio necessário pra isso? Acho que não. Muitos dos meus ídolos não são famosos por isso, mas isso lhes servia como a sede por mais conhecimento, serenidade, sensibilidade, questionamento, demonstração. Não sei, existem tantas coisas boas neles e em quem eu sou e nas pessoas que conheci e conheço, mas às vezes eu só quero fugir disso tudo e ser apenas um rosto, um cara caminhando pela rua ouvindo Mac Miller nos fones de ouvido. Às vezes eu queria sumir como a fumaça de um cigarro, dançar no ar e me misturar, deixando rastros que vão enfraquecendo conforme o vento sopra, e finalmente conseguir fugir de tudo que eu amo e odeio ao mesmo tempo, como um pássaro visível, mas alto demais, livre até mesmo de meus pensamentos. Deve ser algo impressionante e comovente em essência. Um dia talvez eu me aproxime disso. Um dia talvez...

02 setembro 2020

Das coisas que me dão enfermidade.

Estou num momento muito complicado da minha vida pessoal. Meu pensamentos ou a falta deles tem me destruído. Meu corpo tem me dado sinais que não consigo compreender direito. Não sei nunca se estou doente ou não, e minha psicóloga não parece saber dizer também, ou pelo menos parece se preocupar menos que eu em relação a isso. Eu não sei bem quando complicou desse jeito, mas é horrível, eu não durmo e quando durmo, durmo muito mal. Nunca fui de ganhar peso, o que me preocupa caso eu perca algum, e eu tenho essa neura gigante dentro do peito ou da mente de que eu estou muito doente ou adoecendo de algo sério que vai me matar logo. Às vezes eu apenas não consigo controlar a maneira que isso me derruba. Crise de ansiedade, hipocondria, hiperatividade, insônia, gripe forte, covid 19, câncer, falta de cálcio, tosse com sangue, insuficiência renal, luxação nos ossos dos dedos dos pés, calvície, glaucoma, diarreia, garganta inflamada... eu tenho medos muito estranhos de se ter e todas essas coisas me assustam num nível absurdo, mesmo que eu não tenha a maioria delas. São dias muito difíceis onde caio numa espiral de desespero existencial, eu tenho medo de morrer, mas tenho muito mais medo de adoecer. Não quero ficar doente, mas ninguém é perfeitamente saudável o tempo todo. Isso está acabando comigo e ao menos por enquanto eu apenas não sei resolver.

07 agosto 2020

Dante Spinetta - Soltar

Soltar, soltarte de las manos y confiar

Que sólo el tiempo sabe la verdad
Que lo que pudo ser, ya no será
Al menos esta vez

Y así, tu color se borra
Con la lluvia
Al menos esta vez, pon tu alma
Si me vas a matar, tendrás que gatillar

Creer, abrirse como un gajo y entender
Que la distancia es parte de crecer
Que todo esto es por algo, ¿No lo ves?
Dime, ¿No lo ves?

Sin sol
Nuestra flor se marchita bajo la luna
Al menos esta vez, pon tu alma
Si me vas a matar, hazlo con la verdad

Nunca me olvidé de ti, te amo hasta enloquecer
Y siento que te hice mal, debo desaparecer
Soltarte me cuesta la vida, soltarte

Y así, el dolor
Se alimenta de la luna
Al menos esta vez, muéstrame tu alma
Y si me vas a matar, tendrás que gatillar

Nunca me olvidé de ti, te amo hasta enloquecer
Y siento que te hice mal, debo desaparecer
Soltarte me cuesta la vida, soltarte

03 agosto 2020

Antenor.

"Eu gosto de acordar cedo. Acordei cedo durante toda a minha vida, desde garoto. Quando era jovem, acordar cedo era uma obrigação, e depois de alguns anos virou uma necessidade. A gente precisava trabalhar, trazer o pão de cada dia pra casa. Eram tempos difíceis, mas também eram mais simples, eu sinto que naquela época a gente tinha mais orgulho de ser anônimo, de ter só o reconhecimento pelo nosso trabalho e o respeito de quem a gente ama.
Eu trabalhei muito tempo da minha vida pra conseguir me mudar, ter uma vida melhor que a do interior, e nesse tempo eu namorei, me casei, tive meus três filhos, mudei pra São Paulo com eles e fui atrás de moradia. A gente morou um tempo de aluguel, num apartamento pequeno demais pra cinco pessoas, ainda mais sendo três crianças, você entende, criança tem energia, gosta de correr, de aprontar, de rir alto sem perceber que tá tarde, mas graças ao bom Deus, eu e a Nadir sempre conseguimos dar pra eles o amor e a bronca na medida certa, nunca faltou nada pra eles, a infância deles foi boa.
Depois de uns anos de aperto guardando um dinheirinho, a gente conseguiu dar entrada numa casa. Foi difícil, mas deu certo. Eu acordava cedo e fazia dois turnos no trabalho pra conseguir uma renda extra, e a Nadir se esforçava pra administrar a casa, e assim levamos por anos. Tiveram anos mais complicados, outros mais tranquilos, mas nunca faltou amor, todo mundo era bastante unido e eu me orgulhava disso. Meus filhos conseguiram estudar, formar, e ir atrás dos seus sonhos.
Depois de um tempo eles foram indo embora de casa, mas é da vida. A minha mais velha casou, o caçula também, o do meio é solteiro ainda, trabalha bastante, mora num apartamento bonito num bairro chique, mas eu acho que ele é feliz assim. No fim das contas é isso que importa pra quem é pai ou mãe, não é verdade? Pelo menos eu penso assim.
Hoje em dia eu ainda vivo na mesma casa, é minha, graças a Deus. Faz quatro anos que a Nadir morreu, e há quatro anos eu vou visitar no cemitério uma vez por mês. O Ricardo, meu filho do meio, diz que já é hora de parar de ir lá, mas eu ainda sinto vontade de ir, então eu vou. Eu moro sozinho, mas eles vivem me visitando, o meu caçula sempre quer saber como eu estou, se está tudo bem, eles se preocupam comigo. Minha mais velha me deu um celular desses modernos e tá me ensinando a mexer pra gente se falar mais fácil.
Eu continuo acordando cedo, mas agora não é mais obrigação, nem necessidade, eu sinto que gosto de acordar bem cedo e dormir cedo também. De manhã ainda é quieto na minha rua, e eu gosto de passar o café e sentar no meu quintal, depois assisto o telejornal e vejo a previsão do tempo. Quando faz sol de manhã eu lembro da Nadir. Eu sempre acordei cedo, mas acho que foi vivendo com ela que eu aprendi a gostar, sabe? E ela aprendeu a gostar do café mais fraco porque eu preferia assim. A gente passou muito aperto, mas viveu bem. E eu continuo gostando de acordar cedo, acho que sempre vou gostar."

01 agosto 2020

2020.

Ultimamente tenho sentido falta de coisas que nunca achei que sentiria dessa maneira. Saudade de sair de casa. Sair, caminhar por aí, ir em uma exposição ou ao parque, ir até algum barzinho. Sinto falta de andar pela rua em manhãs frias, fumando meu cigarro e ouvindo música, e também das tardes quentes, sentado nos degraus de uma calçada, com uma long neck gelada na mão. Sinto falta de vestir minha roupa social e gastar as solas dos sapatos indo encontrar amigos em algum bar, pra conversar até de noite e dar risada, e também de rever os lugares que eu ia e via com frequência, e das fotos que eu tirava sem pretensão alguma. Sinto saudade de não me preocupar com qualquer tosse ou espirro, e de como eu não precisava enxergar o quão valioso é isso. Minha vida já foi muito mais simples e prazerosa, eu já fui muito mais feliz num contexto geral quando tinha meus 19 anos, mas atualmente realmente é um dos anos mais difíceis que já me deparei. Acho que a vida é naturalmente difícil mesmo, sei lá. Queria que não fosse. Não tanto, não assim.

06 julho 2020

Nem Mais Nem Menos.

Existe um momento da vida em que as coisas param de fazer ou não fazer sentido. Você olha pra trás ou pra frente e se dá conta de que as coisas são como são. As pessoas são como as pessoas são, a vida é o que é, e às vezes isso significa não ter controle sobre direção ou intensidade. Às vezes isso significa aceitação, outras vezes resistência, mas isso já parou de fazer ou não fazer sentido, porque as coisas são como são.
Chega um momento em que a gente para de sofrer ou de se felicitar com a sensibilidade de uma cicatriz recém fechada, que dói ao toque, que coça no tecido da roupa. A gente ama, chora, se revolta e se entristece com intensidade, mas não é bem o fim do mundo como era cinco ou dez anos atrás. A gente não sabe bem, mas sente que de repente pensar que não temos um plano de saúde faz mais sentido, que a gente quer aquele emprego, aquele diploma, aquela consulta no psicólogo.
As coisas não são mais tão preto no branco, e quando a gente nota isso e sente dúvida, às vezes vem uma voz interior pra lembrar que tudo bem não saber se vamos ver o arco-íris no horizonte, porque no fim das contas importante mesmo é fazer as contas da compra do mês. Será que sobra dinheiro pra ter o premium do Spotify outra vez? Como será que eu estarei amanhã se dormir somente quatro horas? Investir em procurar um estágio ou ir naquela entrevista para vaga de carteira assinada?
Nessa fase a gente perde muito da inocência, da sensibilidade desmedida, ou só muda o foco dela pra outros caminhos recém explorados. Não sei, de repente passar a semana com torcicolo te entristece mais do que não saber tocar violão direito, e lembrar de tomar seus remédios na hora certa é mais valioso do que ser incluído naquela rodinha legal de gente descolada no ensino médio.
É claro que isso faz parte do amadurecimento de qualquer pessoa, e é normal constatar que a gente perdeu um pouco ou muito da nossa inocência, que a vida adulta é meio dormente e que as prioridades são outras. Você fica triste e fica feliz, as coisas são como são, e procurar estar em paz com essa percepção não te faz mais ou menos especial, só te faz humano.

27 janeiro 2020

17/01.

Numa sexta-feira fria e nublada eu olhei para as nuvens, e longe da gravidade, caí em direção ao céu. Olhando de cima enquanto caía, me vi lá embaixo, no chão. O cigarro na mão, o olhar vazio, eu acenava um até logo pra mim. Eu continuei a cair e a queda para cima nunca parou, enquanto lá embaixo as raízes do centro da terra descritas por madeira e fogo quebravam o cimento e entravam em minhas pernas, atravessando a carne, me fundindo ao chão. Na queda para o infinito eu perdi a noção do tempo, deixei de me preocupar com unidades de medida. Lá embaixo eu ainda fumava e queria que me vissem sem me torturar. Lá em cima eu continuava caindo rumo ao infinito, e tudo que eu desejava era algo que somente eu pudesse ver. Eu estava nos dois lugares ao mesmo tempo, dentro e fora, e ainda assim cada um de mim era um e somente um. Eu era um breve instante lá embaixo e lá em cima também. E por ser um breve instante, eu era eterno.