Num dia só
Com um cigarro aceso
Entre meus dedos frios
No traço de um gole amargo
Que me cumprimentava os lábios
Como um doce beijo não faria
Nem fará
Acompanhado do ar
Que me enchia o peito de suspiros
No frio de um maio chuvoso
De gola alta e sapatos
Olhando a vida passar
Por outros e também por mim
Eu entendi minha solidão
E assim me permiti sorrir
E ali devo ter envelhecido dez ou doze anos
Ou menos ou mais
Eu buscava tanta companhia
E vivia tão repleto
Que era vazio o que me pulsava o peito
Que me escapava pelos olhos a nobreza
E não voltava e não voltaria
Não importava o quanto eu fumasse
Muito além do quanto eu bebesse
Num dia só
Com um cigarro aceso
Eu era finalmente comunicado
Com carimbo e papel timbrado
Como carta de aviso prévio
Da minha própria instituição
Eu era sozinho e ponto
Sem muitos floreios
Sem condolências ou meios termos
Eu era sozinho e só