Fumei um cigarro pela manhã fria e ligeiramente chuvosa. Esperei pelos momentos de dizer bom dia aos rostos vagamente conhecidos do meu trabalho. Sorri, acenei, abracei, gargalhei, assinei, entreguei, recebi, liguei, ajudei, arquivei, imprimi, caminhei, almocei, escrevi, relatei, anotei, resolvi, transpirei. Um dia tão comum quanto qualquer outro, nem o melhor, nem o pior, apenas um dia com as mesmas situações e conclusões que me fizeram rir e aborrecer e calar e trabalhar. As roupas me protegiam do frio e eu me senti confortável e bem arrumado dentro delas, e sorri com vaidade em frente ao espelho. Me perfumei e aceitei os elogios que me fizeram, vi algumas das pessoas que gosto e as fiz sentir bem com meus atos de carinho e gentileza. Saí do trabalho e fiz o caminho habitual, fumei, parei em algum bar, bebi algumas cervejas, assisti o jogo na tevê, olhei as luzes da cidade e muitas pessoas passaram por mim e eu por elas, o salto do sapato batendo despreocupadamente no asfalto a cada passo. Um dia normal, sem exageros, sem maiores imprevistos, um dia satisfatório.
Naquela noite eu ouvi música pra não pular da janela.
28 janeiro 2024
Sessão gritos inaudíveis #05
Linhas imaginárias que me prendem.
Memórias misturadas, sentimentos desalinhados, costumes deturpados, vicíos e goles e tragos dados. Eu tive muitos momentos de letargia, de solidão e de apatia, mas também tive alguns que me tiraram da monotonia, já quis te arrancar do peito e te fazer minha única alegria. Difícil conseguir me decidir porque minha rotina é banal sem você, como obrigações na tela da tevê, como linhas de autoridade no cinza da cidade, como a idade que traz o cansaço e o lado ruim da saciedade.
Ainda assim, sentir você sem te ter plenamente é algo que não consigo mensurar, é como ver o horizonte sem chegar, pular e não cair, não experienciar o azul do céu ou a luz do luar. É sentir e procurar racionalizar o que não é nobre, tentar ser forte mas depender exclusivamente da sorte, é como ter conhecido a vida mas querer a morte. Queria dizer que não, mas me quebra por dentro, e eu fico à flor da pele quando queria viver desatento, pois a distração constante seria um alento, porém meus dias são resumidos em horas de paz e tormento.