27 janeiro 2020

17/01.

Numa sexta-feira fria e nublada eu olhei para as nuvens, e longe da gravidade, caí em direção ao céu. Olhando de cima enquanto caía, me vi lá embaixo, no chão. O cigarro na mão, o olhar vazio, eu acenava um até logo pra mim. Eu continuei a cair e a queda para cima nunca parou, enquanto lá embaixo as raízes do centro da terra descritas por madeira e fogo quebravam o cimento e entravam em minhas pernas, atravessando a carne, me fundindo ao chão. Na queda para o infinito eu perdi a noção do tempo, deixei de me preocupar com unidades de medida. Lá embaixo eu ainda fumava e queria que me vissem sem me torturar. Lá em cima eu continuava caindo rumo ao infinito, e tudo que eu desejava era algo que somente eu pudesse ver. Eu estava nos dois lugares ao mesmo tempo, dentro e fora, e ainda assim cada um de mim era um e somente um. Eu era um breve instante lá embaixo e lá em cima também. E por ser um breve instante, eu era eterno.