Querem seres humanos, mas estimulam máquinas. Querem que deixemos de viver, de adoecer, de ter dias ruins, querem que entreguemos tudo que existe de melhor dentro de nós, mas nos tratam como números, com frieza e indiferença, e mesmo nesse caso, com dois pesos e duas medidas. Falam brevemente sobre saúde mental e física, sobre termos a coragem de falar como nos sentimos e o que pensamos, mas quando falamos nos silenciam com descaso, soberba e regulamentos. Querem que entendamos o lado deles, mas nunca entendem o nosso, e seguimos respaldados por nada além de nossa própria bravura diária, independentemente das batalhas que estejamos enfrentando. Não se importam com nossa mente, com nosso corpo ou nossas emoções, importam-se apenas com pontualidade, datas, relatórios e métricas. São incapazes, inclusive, de notar que o sistema irredutível que nos oprime sem pensar duas vezes contribui pra nossa derrocada, incentiva nossas falhas, acentua nossas doenças, esmorece nossa vontade. Nenhum deles jamais irá verdadeiramente se perguntar qual é o papel deles nos atrasos, nos atestados, no cansaço, no colapso. Não existe nem remotamente o conceito de pensar ao menos uma vez no que é bom para nós além do que nos é garantido por lei, afinal, sabemos que se pudessem, nos pagariam com tapinhas nas costas e pão embolorado, e ainda nos diriam que é mais do merecemos, e que deveríamos agradecer de joelhos a benevolência de ter como sobreviver pra entregar mais um dia de nossas vidas pra eles. Daqui, não espero nada que não seja unilateral em benefício deles, nunca terei voz, seguirei cada vez mais ciente de que quando eu grito não faz barulho, como se minha cabeça estivesse mergulhada na água desse lago vítreo e podre cheia dos cadáveres de cada um que lentamente teve a luz sugada de si. Seguiremos reféns eternos do sadismo e das telas e cabos de fibra ótica, nos apagando em agonia pra que nossos chefes possam viver ótimos momentos com seus amigos nas belas praias desse país a cada feriado e em cada recesso que nunca nos serão ofertados. Pra eles não tem problema, desde que batamos o ponto na hora.