22 outubro 2024

Acho que eu não existi este mês.

Dias iguais, impressos em papel A4 com fonte de documento, noites mal dormidas de pavor e tosses não curadas. Não é como se eu procurasse, mas também nada me procurou fora o acaso do tédio e do desinteresse que em alguns momentos chegam a ser irrestritos. Dias ensolarados e chuvosos que refletem e castigam, pontos agradáveis num tecido grande demais pra ser coberto. Os mesmos lugares, risos e pessoas, os mesmos andares no botão do elevador, dores de cabeça e contas bancárias resumidas em mensagens, os mesmos tragos, goles e bares, as mesmas linhas e caminhos, transeuntes e paisagens, comprimidos ingeridos numa tentativa infértil de voltar a ser presente dentro de mim. Vez em quando algumas cores se revelam nas linhas que escrevo, nos olhares que se trocam, nas palavras que se dizem, mas do tempo dos dias fica pouco o tempo que não é do relógio biológico da vida, fica pouco do lúdico, da fantasia. Sobra muita busca por contratos que eu não queria assinar, céus nublados e conversas com ruído, sobra muita anestesia, frames congelados que eu revivo sem querer, torcendo pra que depois daquele venha um quadro um pouco melhor na história arrastada da minha vida. Ninguém aplaude a peça, só aguardam pelo intervalo que nunca chega. Não sei nem se sou protagonista. Talvez apenas viver esteja de bom tamanho, mas é estranho pensar nisso outra vez. Seja lá como for, mais uma vez, acho que eu não existi este mês.