E então, qual é a sensação? De estar a centímetros do prêmio, com os dedos esticados, e não conseguir tocá-lo, de olhar o cais e saber que são algumas braçadas de distância mas não saber nadar? Qual é a sensação de olhar por cima do ombro e sentir que sua sombra te persegue com más intenções, de ser engolido pelo chão, como a presa na boca de um lobo sanguinário, e sentir sua pele ser transpassada, arranhada e empalada por todos os espinhos desse mundo? Qual a sensação de compreender que sua cabeça é sua prisão, que seu coração é seu refém, e que você só obedece aos seus impulsos mais vis e autodestrutivos? De caminhar entre pedaços de corpos e detritos em chamas no solo infrutífero que é seu próprio resultado? Qual a sensação de ter o nome de um rei e involuntariamente ser seu próprio regicida, sorrindo com a carnificina do seu próprio corpo? De se machucar até ver sangue escorrer simplesmente porque sabe que pode fazê-lo? De ser impiedoso e cruel quando tudo que você precisa é abraçar o reflexo no espelho, mas se odiar tanto que sempre o quebra com o silêncio dos seus próprios gritos internos? De ser um monstro e tremer de medo da sua própria voz? E então, qual é a sensação?
13 dezembro 2024
12 dezembro 2024
Sessão gritos inaudíveis #14
Queria voltar pra minha infância, nem que fosse por apenas um dia. Eu sei o que dizem, é culpa da nostalgia, não era tão bom assim, entendo isso. Mas seria. Seria porque quando eu era criança eu não sabia o conceito do que significava ser feliz, eu apenas sentia. Eu era inocente e brincava e sorria sem nenhum peso no meu coração jovem, e eu queria voltar pra isso nem que fosse por um momento.
Hoje as coisas mudaram. Na verdade mudaram há muito tempo. Minha vida é um retalho maltrapilho de alguém que um dia já fui, vivo parado, estagnado, não faço nada nem tenho nada. Eu apenas trabalho, bebo e fumo. A verdade é que conforme os anos passam eu vou ficando cada vez mais triste e desesperançoso, me sentindo deslocado e vazio de momentos que me preencham positivamente, e me sentindo mais repleto de conflitos, paranóias, tristezas e angústias. Até quando tento fazer as coisas do jeito certo acaba saindo tudo errado, se eu bebo, tenho ressaca, se eu fico em casa, não durmo, e é mais ou menos por essa linha praticamente sempre. Infelizmente também acredito que não acho mais ninguém pra estar ao meu lado. Eu não me arrependo, principalmente porque sei que ela foi ou será em algum momento a maior beneficiada disso tudo, mas sei que a última pessoa que achei foi uma sorte minha que eu não darei de novo. Inclusive ela estava, está e continuará melhor do que eu, porque sempre foi melhor do que eu, e no fundo eu sei que eu sou só numa grande tempestade, um eterno dia nublado de chuva. E tudo bem. Sério, sobre isso tá tudo bem. O lance é que eu não acho mais ninguém não, eu esgotei isso. Na realidade eu sinto que esgotei muitas coisas, e por isso mesmo fico com a sensação de que não devo me aproximar demais dos outros.
As duas únicas pessoas que eu quis conhecer esse ano pareciam tão legais, tão bem e centradas, que eu simplesmente me afastei. De alguma forma eu sei que estou ajudando ao fazer isso, porque tudo dentro de mim é tão cheio de coisas ruins que nem seria justo trazer alguém aqui pra dentro. Ninguém tem nada a ver com isso, e se eu me sinto opaco e solitário, se eu me sinto sem amor e irremediável, isso é um problema unicamente meu. Azar o meu. No fim das contas, tô percebendo que daqui ao fim da minha vida eu serei um adulto triste, solitário e depressivo, que não terá ninguém pra dar a mão e tentar sorrir nos dias mais difíceis, acho sinceramente que isso acabou pra mim, e que no máximo vou ficar preenchendo espaços de terra morta com lampejos de momentos vazios e transitórios, com pessoas que nunca vão ligar de fato pra quem sou eu. Me resta trabalhar, beber e fumar. Guardar algum dinheiro pra poder morrer com dignidade um dia, e sorrir quando me perguntarem como estou. Não sobrou muito pra salvar. A vida é uma série de portas se fechando, não é mesmo?
30 novembro 2024
Palavras.
Palavras, palavras, palavras, pessoas, abraços, cumprimentos, palavras, horários, metas, notícias, palavras, palavras, palavras, imprevistos e pessoas, noites, dias, imprevistos e tragédias, palavras, mais de cem palavras, mais de mil, mais de um milhão, infindáveis palavras de pessoas com abraços e cumprimentos de horários e metas com notícias de palavras, palavras, palavras e morais e ética, responsabilidades e dores de cabeça repentinas de ressacas inexistentes das palavras que eu bebo, palavras, palavras e palavras, sentimentos que não me obrigam, que batem na porta por dias e semanas e meses de palavras, infindáveis palavras.
Madrugada insône.
- E aí.
- Ah, oi, e aí. Senta aí.
- Como estão as coisas?
- Você sabe, o de sempre.
- Ainda se sentindo assim?
- É, ainda.
- Sei lá, você não tinha...
- Eu achava que sim.
- Mas não?
- Mas não.
- E quanto a...
- Não, cara. Só não.
- Tá bom, culpa minha, perdão.
- Tudo bem.
- Mas você tava legal e tudo. Não tava conhecendo aquela moça?
- Me afastei.
- Ué, mas por quê?
- Senti que era melhor.
- E quanto aquela vez que você mandou mensagem pra...
- Eu apaguei e não mandei mais nada.
- Por quê???
- Olha, eu realmente não acho que é o ideal.
- Explica isso direito.
- Ah... É um lance meio... sei lá, eu tô todo fodido emocionalmente, minha cabeça tá cheia demais, aconteceu muita coisa na minha vida e tudo. Você acha realmente que é o melhor momento pra eu sair conhecendo gente nova?
- Não sei, quer dizer, eu entendo racionalmente o seu ponto, mas ficar só sentado sentindo pena de si mesmo vai ajudar?
- Ninguém disse que vai ajudar, mas no momento é só o que consigo fazer. Ninguém tem nada a ver com isso, acho até que já pedi demais dos outros, imagina uma pessoa nova entrando no meio disso tudo sem ter a mínima ideia do que tá acontecendo aqui. É mais irresponsável do que apenas ficar no meu canto.
- Tá bem, entendi. É seu jeito de lidar com as coisas, né?
- Não é o melhor jeito, mas é o único que eu tenho no momento.
- Só procure não se afundar demais, tá? Eu me preocupo e os outros também.
- Eu sei, eu tô tentando. Juro que tô.
- Eu acredito em você, só tô te falando pra não se esquecer.
- Eu sei, te agradeço por isso.
- De qualquer forma, você é um cara bom, vai superar isso tudo e vai ficar bem de novo.
- Como é que você sabe?
- Bom, principalmente porque você tá sentado falando sozinho sobre isso. Se isso não significa que existe algo bom dentro de você tentando te reerguer, não sei o que significa.
- É... você pode ter razão. Aliás, eu posso ter razão.
- Às vezes a gente tem. Só vê se não fica até de manhã, amanhã tem trabalho.
- Tá bom.
- Nós vamos sair dessa, mais cedo ou mais tarde.
- Vamos sim. Eu vou sim.
29 novembro 2024
A garota dos sonhos.
Fazia sol, era um dia de calor agradável. Sentado na escada de madeira próximo ao cais, ele encarava a praia sem preocupações. O vento era cadenciado, o mar era de um azul cintilante e estava numa calmaria impossível de ser quebrada. Ele olhava a pintura da vida real quando de repente notou uma garota mais ao longe. Era bela, esguia, de pele alva e aparência delicada. Usava um short e uma camiseta mais curta, que mostrava o umbigo. Os cabelos eram louros, cheios e longos, tão dourados que rivalizavam com o próprio sol, como fios do ouro mais raro e valioso do mundo, e dançavam ao sabor do vento enquanto ela caminhava segurando um par de chinelos, com olhos mais azuis que o mar ou o céu sem nuvens daquela tarde. Espantado, ele observou com mais atenção e teve a certeza que já havia visto essa garota antes, que já tinha vivido uma vida inteira e mais outras duas com ela, que tinha crescido com ela, se apaixonado, casado e envelhecido com ela, que tinha tido filhos e netos, que sorriram e choraram juntos na união mais cheia de amor que poderia haver. Teve a certeza que ela era a mulher mais linda desse mundo, a mais incrível, gentil e perfeita que poderia existir entre todas as pessoas, que seus olhos azuis olhavam sua alma, e estar de mãos dadas com ela era o presente mais maravilhoso da vida. Ela sorria calmamente e caminhava sem um real propósito, simplesmente aproveitando aquele momento. Estava perto da escada quando notou o rapaz sentado, olhando-a de maneira fantasiosa, como se estivesse enxergando outra paisagem. Optando por ser gentil, acenou brevemente e sorriu.
- Bom dia!
O rapaz estava absorto em seus pensamentos de que a conhecia, e se sentiu meio perdido quando notou que ela falava com ele. Meio sem jeito e achando aquela a voz mais angelical que já tinha ouvido em sua vida, ele acenou em resposta.
- Oh, bom dia. Desculpe, eu fiquei distraído.
- Ah, eu percebi. - Ela riu. - Alguma razão pra ter se distraído olhando pra mim?
- Desculpe, eu não quis parecer estranho. - Ele ficou tímido, o que pareceu divertí-la. - É que às vezes eu sou um pouco distraído mesmo, mas na verdade tive uma impressão...
Ele parou de falar. Ficou sem graça. De repente lhe ocorreu que seria a coisa mais estranha simplesmente dizer a uma mulher desconhecida que sentia que já a conhecia. Ele próprio não sabia dizer o que pensaria se alguém dissesse algo semelhante pra ele. Mas para sua surpresa, ela pareceu genuinamente despreocupada e curiosa.
- Uma impressão? Uma impressão de quê?
- Não sei bem como dizer.
- Pode começar usando as palavras. - Ela riu com descontração.
- Bem... sei que vai parecer estranho, mas... você parece com a garota que eu vi nos meus sonhos.
- Nos seus sonhos?
- Bom... sim, nos meus sonhos.
- Você me viu nos seus sonhos?
- Sei que parece só uma cantada ruim, mas eu juro que sim, te vi nos meus sonhos.
- Acho que consigo entender, eu te vi nos meus sonhos também. Fomos feitos um pro outro.
- Hã?!
Ele teve um estalo e voltou a realidade. Estava encarando a mulher ao pé da escada, que fazia uma expressão mista de gentileza e um pouco de preocupação.
- Oi? Bom dia? Tudo bem com você?
- Ah, sim, sim, bom dia, sinto muito por isso, eu fiquei muito distraído, perdão se te assustei, não fiz por intenção.
Ela pareceu mais despreocupada depois dessa resposta.
- Ah, então está bem. Quem não se distrai num dia lindo desses, não é mesmo?
- Sim, com certeza.
- Bom, então vou indo, até!
Ela começou a seguir seu caminho.
- Você parece com a garota que eu vi nos meus sonhos.
- O quê? Desculpe, disse alguma coisa?
- ...nada, nada mesmo. É realmente um belo dia, né?
- Ah sim, um belo dia.
Ela começou a se afastar, voltando a ser apenas ela e os próprios pensamentos. Ele ficou observando ela partir. Tinha certeza que a tinha visto em seus sonhos, que era o amor da sua vida, que era seu destino. Mas não fez nada além de sorrir enquanto ela seguia pra longe.
- Na vida real ela vai embora... É, faz mais sentido.
27 novembro 2024
O problema sou eu.
No fim das contas não é culpa de ninguém. Pessoas e pessoas passaram por mim, e me fizeram bem, me fizeram mal, me colocaram num pedestal e me feriram sem misericórdia. Teve quem me machucou sem querer, teve quem quase me matou sem saber, e também quem me deu a mão sem perceber, quem me tirou do fundo sem esforço. Mas a verdade é que nada disso nunca foi culpa de ninguém. Eu ainda vou compartilhar todo esse peso, toda essa solidão. Mas infelizmente eu sei que o problema sou eu. O problema sempre fui eu.
25 novembro 2024
Carta de um contratante.
Eu nunca mais vou viver isso de novo
Nada disso estará no meu norte outra vez
E eu serei interessante somente
Aos caprichos da solidão
E dos vícios aos quais me atrelei
Pra não observar com franqueza cruel
A natureza insuportável que me guia
Rumo a caminhos já conhecidos
Num charme inexplicável
Sempre tão elogiado ao sol poente
E ainda assim incapaz de prover algo novo
Que não sejam devaneios miseráveis
Que me impedirão de saltar em queda livre
Mas me manterão em correntes firmes
De desilusão e sobrevivência
Em goles e tragos e risos fingidos
Doente como infecção incurável
Na aparência mais gentil e bela possível
22 novembro 2024
Sessão gritos inaudíveis #13
Não consigo dormir. Não consigo parar de me sentir apenas vazio e mal. Minha coluna tá doendo, e tenho tido muita paralisia do sono. Queria conseguir me esvaziar desses sentimentos e pensamentos tão ruins e tão absurdamente ocos. Queria não querer tanto assim ter um amor pra chamar de meu. Queria me fechar e nunca precisar me aproximar de mais ninguém nesse sentido. Queria que parasse de doer o pensamento. Queria que fosse embora esse lamento. Queria ser melhor, mas não consigo. Não é como se eu não tentasse, eu tento, eu juro que eu tento, às vezes acho até que eu tento com força demais. Eu simplesmente não consigo. Não consigo melhorar. Não consigo sentir as coisas com mais leveza. Não consigo parar de querer esse amor que nunca veio alinhado comigo, seja a curto ou longo prazo. Não veio aos meus 10 anos, nem aos 18, nem aos 24, nem agora e nem amanhã. Queria me acostumar com essa percepção e conseguir ficar em paz. Queria trabalhar, dormir e acordar, sair de casa e viver me sentindo bem de verdade, mas pelo jeito é algo impossível pra mim. Meu coração sente demais, minha cabeça pensa demais, minha consciência me incomoda demais, a vida me entedia demais, e eu sou melancólico demais. Viver me deprime demais, me machuca demais, sinto dores demais, caio vezes demais. É tão difícil ter que me levantar tantas vezes, é tão doloroso sentir tanto e nada ao mesmo tempo. Queria gritar até meus olhos saltarem das órbitas, até minha garganta sangrar e meus pulmões explodirem, até o mundo todo ouvir e sentir o maremoto e a tempestade que existem dentro de mim. Queria devastar o mundo com essa força descomunal de destruir que tento de tempos em tempos adormecer. Meu Deus, eu não aguento mais viver dentro de mim, eu não sou o lugar certo pra mim, alguém me tire daqui. Por que isso faz tanta falta pra mim? Porque importa tanto? Porque sou tão incapaz de me amar? Que desespero, que peso, que insuficiência. Torço pra que um dia as coisas melhorem de verdade, pra que um dia eu possa finalmente me sentir em paz mesmo sem as coisas que desejo com tanto sofrimento. Eu morreria feliz entre os destroços. Um dia quem sabe, mas tenho a impressão que nem isso conseguirei. Passam os anos e segue a máxima: quando eu grito não faz barulho. E algo me diz que nunca fará.
...but not for me.
Dias calorosos de primavera. Flores vivas e belas cumprimentando o caminho. A felicidade de entender pra onde vai. A certeza de querer e ser querido, de amar e ser amado. O sorriso pelas pétalas caindo, o olhar entusiasmado com mais um dia de paz. Encontrar com os amigos sem esforço, entender cada um deles com gentileza. O riso compartilhado da intimidade mais bela e aconchegante com a família, os amigos, o amor. A serenidade de andar de bicicleta a dois no parque, compartilhar o mesmo sorvete, entrelaçar os dedos no cinema, e num beijo sentir que só há duas pessoas no mundo. A confiança de um amanhã melhor. A esperança renovada por uma manhã de ar puro. Os detalhes, as cartas trocadas, as viagens compartilhadas. A calmaria de ser bom, de ter todos perto e bem, de viver tranquilamente, e de amar, de trocar olhares apaixonados, de saber que ali está seu coração. O saber de que a vida é o presente mais apaixonante e gentil do mundo. Tudo isso...
...mas não pra mim.
21 novembro 2024
Das coisas que admito entre soluços e cansaço.
Meu coração é um retalho marcado, manchado e ferido por vidas passadas e erros que nunca vou me perdoar por ter cometido. Sou alguém que se entregou demais e que negou demais o fato de que nunca serei a escolha certa de ninguém, de passos polidos e cansados, do sorriso cativante e tristeza tangível, que vive num eterno tédio, num vazio existencial que não consegue ser alimentado por nada a não ser as fantasias que crio de momentos que nunca viverei com pessoas que nunca alcançarei. Os retratos desbotam, a tinta escurece, o sangue apodrece lentamente pelos vícios já tão inerentes, eu caminho por aí fingindo não ser um grande erro da realidade. Meus olhos enxergam cada vez menos, afetados pela passagem do tempo e pela percepção de que ninguém nunca vai adentrar meu perímetro novamente. Com defesas cada vez mais rachadas e em ruínas, eu tento lavar minha solidão e meus pecados, e me aproximar pra procurar mais uma vez viver e ser feliz, mas é cada vez mais nítido que não fui feito pra ter essa redenção, e o coração amargurado me aconselha a parar, pois não há mais propósito. Eu fecho a porta, me tranco no cubículo sufocante da minha existência deplorável, valorizando a solidão e o ser sozinho que tanto me ferem. As vozes conversam comigo e nenhuma delas tem nada bondoso pra dizer, é como se eu nunca mais fosse conseguir estar repleto de boas emoções e perspectivas promissoras novamente, de alguma maneira eu simplesmente esgotei isso. Eu me obrigo a seguir em frente, e por outra vez fingir que tenho algo belo em meu interior, mas estou cada dia mais cansado, exaurido e terrivelmente entediado. No vazio existencial que me assola, sinto que começo meu processo de desistência. Eu não aguento mais tentar, eu não aguento mais cair, me machucar, eu não consigo mais ferir involuntariamente os poucos que me dão a mão nos espamos do meu sono perturbado e doente. Me olho no espelho e preciso admitir: meu fardo é esse, e sempre será minha sina. Talvez seja melhor desistir.
20 novembro 2024
Amores invejáveis inalcançáveis.
Existem alguns amores que eu, de certa forma, invejo. Amores dos quais experimentei pouco e por pouco tempo, dos quais nunca arranhei mais que superfície, dos quais não entendo verdadeiramente. Amores que hoje, cada vez mais creio, nunca terei, serei ou viverei. Só posso admirar. Os meus, que nunca se concretizaram, ou que vivi mas afastei, mesmo com a intensidade de minhas chamas, arrefeceram, deixaram apenas cinzas ao redor de mim, e feridas abertas por flechas que me transpassaram a carne trêmula. De alguma maneira, entretanto, sou dotado da proeza de vê-los, de me aproximar deles, os amores tão melhores do que os invejados por mim. Eu posso observá-los e percebê-los, posso prever o futuro de cada um deles comigo, e sentir o conforto de cada beijo, de cada perfume que tanto desejei e desejo. Sou capaz de chegar tão perto de seus corações, que as batidas compassam, que tornamo-nos um, que entrelaço meus dedos nos dedos, que puxo pela cintura, que encaro nos olhos, sinto nos lábios e nos cabelos. Mas não sou capaz de mantê-los. Não sou capaz de ir além, de vivê-los além do tempo, nem mesmo posso chegar à plenitude. Sigo amaldiçoado, numa sina que após desabrochar as rosas, termina por incendiá-las ao toque, uma por uma, todas as vezes sem exceção. E em troca sou igualmente ferido, condenado a ter memórias sufocantes, a lembrar de perfumes e detalhes inebriantes, como uma grande ironia do caminho que tenho de trilhar, num espasmo esquálido incessante. Portanto sigo, e sigo sozinho. Mas existem amores que eu, de certa forma, invejo. E mesmo que nenhum deles me pertença, mesmo que eu não seja de nenhum deles, continuarei a invejar, a contemplar com olhos marejados do querer desta vida tão bela, tão gentil, e ao meu ser tão inalcançável.
11 novembro 2024
XXXIV.
34 anos. Eu tenho 34 anos de vida. Isso é assustador de certa forma, quando eu tinha 15 anos parecia que eu nem chegaria nessa idade, era algo tão impossível, tão distante. Parece clichê, mas realmente, passou quase num piscar de olhos. De repente estou aqui, 34 anos, um rascunho mal acabado do que achava que seria, já bastante sulcado de experiências, dias, vícios e sorrisos, e mesmo assim sem ter a mínima ideia do que serei lá na frente. Lembro que certa vez escrevi que não imaginava que cresceria e me tornaria um adulto triste. Era verdade. Dessa vez, entretanto, o que me surpreende é a relação em si tão particularmente ruim que tive e ainda tenho com o período dos 30. Coincidiu com a pandemia, e ambos me quebraram profundamente, me mudaram drasticamente em vários aspectos e percepções. Nem mesmo meu paladar é igual ao que era, nunca mais fui o mesmo. Parece que fiquei muito mais velho, cansado, medroso, insensível e solitário dos 30 pra cá, tudo que tenho certeza é que essa data mexe comigo de uma maneira ruim. A impressão que eu tenho é que ela vem cheia de peso, um peso totalmente desproporcional que me oprime, que me espreme e me sufoca, um tipo de corrida que nunca serei capaz de vencer, mas que tenho de correr pra não morrer. A realidade é que sei lidar cada vez menos com meu envelhecimento. Um pouco pela percepção das rugas, da ressaca mais longa, do fôlego mais curto, mas também por conta do fato de perceber com mais clareza minha mazelas existenciais, meu lugar tão impreciso nesse mundo cada vez mais feio e esquisito que vivo. Já não sei se valorizo algumas das minhas conquistas, mesmo tentando pensar positivo. Talvez seja por isso que a cada ano nessa data eu me isole de maneira mais profunda, e sinta cada vez menos vontade de ver outras pessoas. A passagem do tempo em mim me deprime. É normal, mas me deprime, e eu queria ter a capacidade de simplesmente sorrir e não pensar nisso tudo. Mas esse sou eu, desse jeito, e pensar nisso tudo é um dos meus defeitos. Seja lá como for, pra onde for, do jeito que for, uma coisa permanecerá sempiterna no alicerce da minha construção defeituosa, no âmago prejudicado do meu parco coração: existir é e sempre será exaustivo.
06 novembro 2024
Efeito borboleta.
Fazia sol naquela tarde. Geralmente os momentos com você me aqueciam igualmente, me lembro que eu não precisava de ensaios ao seu lado, você sorria e de repente se dava jeito pra tudo, de repente tudo era fácil. Eu caminhava pelos meus próprios motivos, que àquela altura nada tinham a ver com você ou com suas pegadas, passos mais de um milhão de vezes dados nas ruas e calçadas que eu atravessava e percorria, refazendo de cabeça os detalhes daquele ambiente. De uma maneira muito natural eu não me lembrava dos nomes, das placas, nem de nada dessa mapa, mas meus pés e minha intuição lembravam o que fazer, pra onde andar, virar, quase uma memória muscular de um movimento que repeti milhares de vezes durante 6 ou 7 anos desse esporte profissional que havia se tornado ir até você. Independentemente das minhas razões, era curioso passar por todos aqueles prédios, casas, postes e árvores, era como um episódio do meu próprio seriado, aonde eu, protagonista da minha própria vida e rodeado de transeuntes convidados, rememorava alguns dos melhores momentos de antigos episódios. Eu observava lados, cantos e traços, detalhes e fatos daquele caminho, num agridoce que até então era mais doce e nostálgico, tudo aquilo me era muito familiar, tudo aquilo era meu, e sem nem perceber eu sorri.
Não sei dizer quanto tempo esse devaneio particular durou, mas em dado momento olhei pra frente e me deparei com um par de olhos tão belamente escuros que eu não poderia descrever. Um rosto tão familiar, tão dono de trejeitos tão próprios que eu jamais poderia me esquecer. Naquela tarde de sol, sem mais nem menos ali estava você, na minha frente, no que me pareceu a eternidade de um segundo congelado no tempo. Estranho perceber que mesmo não pensando em você, mesmo não havendo mais a centelha da chama que antes me bombeava o sangue, sem mais nem menos eu me lembrava de todos os seus detalhes, do sorriso levemente enviesado, dos seus dedos finos e delicados, do cabelo curto ligeiramente bagunçado, e até mesmo do seu cheiro e a sensação do seu abraço, sem mais nem menos eu revivi por um instante o nosso laço. O que mudou foi que dessa vez não sorrimos e nos aproximamos, e na verdade seu olhar tão caloroso transmitia medo, apreensão e imprevisto, e os meus provavelmente alguma dor e frustração. Ainda assim você continuava igual. Passeando com o cachorro, as mesmas roupas de antes, o mesmo jeito de andar, a mesma maneira de mexer no cabelo daquela forma despreocupada que eu achava tão marcante. Nesse relato mudo que trocamos, enquanto eu lembrava do nosso primeiro e do nosso último beijo a ponto de reviver a sensação e o gosto dos teus lábios nos meus, o tempo voltou ao normal. Você atravessou a rua pra longe de mim e eu olhei pro chão e segui em frente. Sei que você olhou pra mim enquanto eu me afastava, senti seus olhos em mim, mas não me atrevi a olhar pra trás, não teria essa coragem. Se eu tivesse olhado, talvez eu tivesse parado, talvez eu tivesse ficado, e infelizmente não posso mais correr esse risco, pelo bem do nosso bem.
Conforme eu me afastava de você já não sabia exatamente pra onde ia, meus passos me levavam em piloto automático, me guiando pra longe de você até o portão da sua casa, o qual fingi que não reparei enquanto seguia pra longe dali. Depois de um tempo naquela mesma tarde eu já me encontrava geograficamente distante de você, já tinha fumado, bebido e pensado, já tinha sorrido e me emocionado, já tinha sentido e já tinha xingado, já tinha admitido e também te esnobado. Não sabia direito o que sentir com tudo que havia ocorrido, não era mais tão fácil estabelecer sentimentos por você, fossem eles bons ou ruins. Mesmo igual, também notei que você era só um rosto conhecido, um arquivo de memória revisitado por espasmo, um simples sinal de que minha memória ainda estava em bom estado. E ao fim daquela tarde, dentro de um ônibus e lidando com todos meus demônios, eu vi a chuva cair lá fora sem aviso e totalmente impiedosa, numa torrente feroz e inesperada. E mesmo sem doer dentro do peito, eu encostei a cabeça na janela e chorei em silêncio. Ali, do meu jeito, no meu momento, eu chovi junto com a chuva. Uma mistura de ardência e dormência, que agora eu sabia, era sim muito possível de sentir exatamente dessa forma.
22 outubro 2024
Acho que eu não existi este mês.
Dias iguais, impressos em papel A4 com fonte de documento, noites mal dormidas de pavor e tosses não curadas. Não é como se eu procurasse, mas também nada me procurou fora o acaso do tédio e do desinteresse que em alguns momentos chegam a ser irrestritos. Dias ensolarados e chuvosos que refletem e castigam, pontos agradáveis num tecido grande demais pra ser coberto. Os mesmos lugares, risos e pessoas, os mesmos andares no botão do elevador, dores de cabeça e contas bancárias resumidas em mensagens, os mesmos tragos, goles e bares, as mesmas linhas e caminhos, transeuntes e paisagens, comprimidos ingeridos numa tentativa infértil de voltar a ser presente dentro de mim. Vez em quando algumas cores se revelam nas linhas que escrevo, nos olhares que se trocam, nas palavras que se dizem, mas do tempo dos dias fica pouco o tempo que não é do relógio biológico da vida, fica pouco do lúdico, da fantasia. Sobra muita busca por contratos que eu não queria assinar, céus nublados e conversas com ruído, sobra muita anestesia, frames congelados que eu revivo sem querer, torcendo pra que depois daquele venha um quadro um pouco melhor na história arrastada da minha vida. Ninguém aplaude a peça, só aguardam pelo intervalo que nunca chega. Não sei nem se sou protagonista. Talvez apenas viver esteja de bom tamanho, mas é estranho pensar nisso outra vez. Seja lá como for, mais uma vez, acho que eu não existi este mês.
20 setembro 2024
Pesadelo vivo.
Eu tenho esse lado turbulento dentro de mim, cheio de rachaduras e ondas gigantescas, mais escuras que o preto. Um lado adoecido, esquálido e faminto, que não sabe demonstrar amor nem conhece a felicidade que existe num suspiro de paz. Atormentado, ele vaga sem destino, correntes enferrujadas cortando a pele cheia de feridas infeccionadas e cicatrizes. Seu hálito é podre, sua pele fede, lhe faltam dentes, e só lhe são familiares a depressão, o ódio e o medo. O mais inquietante é que ele não morre, pois vez ou outra ganha forças ao se alimentar de mim. Sim, de mim. E dói. Dói muito. Sou um fugitivo miserável, um perseguidor implacável. Sou a presa e o caçador. Sou o tormento da minha existência, a carne que não me deixa morrer. Eu sou meu pesadelo vivo. Eu sou meu monstro.
19 setembro 2024
The great tragedy.
I don't have to be the best, but I'd like to be best than I'm actually am. And even if I know that it's a process day by day, everyday is a painful reminder that I'm not my best version, and that even with the passage of time and all the growing up in my life, I was my best version in the past. My present is a series of disappointments and senseless feelings. I wish I could love myself.
Sessão gritos inaudíveis #12
Eu procurei de todas as formas fazer o que era correto. Perceber o que acontecia dentro, fora e em torno de mim, admitir fraquezas e derrotas, tomar os passos da maturidade. Eu fiz o que era possível, mas estou começando a ficar sem forças de seguir em frente. Parece que nunca vai passar, que nunca vai sarar, que nunca vou melhorar, que nunca vou superar, ter um novo amanhecer pra acreditar. Parece que quanto mais tento mais afundo, como em areia movediça, lentamente cedendo aos meus impulsos mais desesperados, num choro existencial que parece infinito. Quando é que vai passar? Quando eu finalmente vou parar de sangrar? Quando vou encontrar o que preciso durante esse caminho? Quando terei ao menos uma coisa que realmente desejo? Eu tento de verdade não entrar em uma crise total de sistema, tento não fundir minha funções e me autodestruir, tento não desistir. Mas não posso mentir, é cada dia mais difícil, e com um grande desânimo eu começo a perceber que talvez isso nunca vá embora de mim. Acho que eu sou assim, e isso é muito triste.
Sessão gritos inaudíveis #11
Às vezes dá uma vontade relativamente alta de morrer logo. É tudo tão difícil, triste, burocrático, deprimente, compulsivo, repetitivo e doente. Eu sou tão tudo isso também. Às vezes eu me sinto extremamente cansado de tentar ser um homem bom e falhar pura e simplesmente por ser quem sou. Nessas horas me dá uma vontade de morrer, de só dormir e não acordar mais. Não chega a ser algo que me traz impulsos suicidas de fato, mas nesses momentos eu só queria dormir e não acordar, só não ter mais que lidar com a vida e com as pessoas. A impressão é que poucas pessoas vão sentir minha falta de verdade de qualquer forma. Mas até o presente momento isso não aconteceu, então eu finjo que está tudo bem e tento não falhar até eu falhar novamente e o ciclo se repetir. Minha vida é uma piada de mau gosto.
Sessão gritos inaudíveis #10
Eu queria que eu conseguisse ser igual todo mundo, ou que pelo menos eu fosse mais equilibrado. Acho que tenho uma tendência muito autodestrutiva em quase tudo que faço. E as coisas não me deixam mais feliz. Na realidade são realmente poucas coisas que me satisfazem de verdade, geralmente numa pessoa, numa amizade, mas a vida em si é só uma série de desapontamentos e situações que me deprimem. Não dá pra fugir de mim, não dá pra me implodir também. Tudo que eu faço afeta outras pessoas e magoa, e fere. Nesse ponto realmente acredito que eu sou muito difícil de lidar. Queria que pelo menos uma vez na minha vida eu não sentisse esse desinteresse tão grande. Ou pelo menos não queria afetar outras pessoas, mas já percebi que isso é impossível. Terei que me impor limites pra conseguir viver fingindo que sou uma pessoa normal que consegue equilibrar os próprios pensamentos e emoções.
12 setembro 2024
Peaceful.
I think you should stop
I think that's enough
And you should just stop thinking
And should stop running
And then you should go
Same life, different path
Just go outside
Go live your interlude
I guess you had enough intro
11 setembro 2024
(Im)previsto.
Um dia quando eu me levantar
Pela manhã de um dia qualquer
Um desses bem rotineiros
Onde nada diferente acontece
Num desses dias
Eu vou cair no chão
E não vou mais conseguir levantar
E só quem vai notar
Provavelmente é alguém do meu trabalho
Que não tem meu contato
Alguém que só me vê todos os dias porque senta ao meu lado
Mas será só uma observação curiosa
"Nossa, fulano não veio hoje, que estranho"
E o dia vai seguir normalmente
Pessoas vão passar em frente minha casa
Estarão na frente da minha porta
E ninguém vai me ouvir ou lembrar
Ninguém vai sequer pensar em mim
E eu vou enfraquecer e engasgar com minha tosse
Vou ficar sem fôlego, e em algum momento
Eu vou morrer
Sem nenhum glamour
E só vão notar depois de vários dias
Por causa de um cheiro muito forte saindo pela porta
01 agosto 2024
Eterno primeiro de Agosto.
Enjaulado.
Enclausurado pelos sussurros
Me escondo por brechas e sombras
Rastejando com cautela
Tentando unir-me ao piso de madeira
A névoa paira acima de mim
Como dentes-de-leão soltos pelo ar
E as paredes me enclausuram
Como reflexos de chuva na calçada
Como uma jaula pintada de lar
Eu não quero lutar ou ficar de pé
Quero apenas continuar respirando
Sem engasgar com minha saliva
Me comprimo e com olhos fechados
Apenas me encolho e tento caber
Com humildade e muito medo
Apenas me encolho e tento caber
31 julho 2024
Um breve instante.
Sentar no sofá e conversar
Te ouvir falar e dar risada
Jantar ouvindo música
Tomar um banho quente
Deitar juntos e assistir algo
A vida tem seus momentos
Cores com sabor.
Se um dia eu pudesse te emprestar meus olhos
Se um dia eu pudesse te emprestar meu tato
Se um dia eu pudesse te emprestar meu olfato
E meus sentidos mais profundos e aguçados
Você entenderia como te vejo de fato
Como me traz paz o seu trato
Como pareço não viver sem teu abraço
Como sua beleza é tranquila e divina
Como seu riso e sua conversa me trazem alegria
Como sermos o que somos me faz melhor
Como você me faz manter a fé no que está ao meu redor
Se eu pudesse te emprestar meu coração
Você sentiria meia batida por segundo
E veria um pouco mais além dessa união
Porque é parte do seu que completa meu mundo
Não me entenda mal, sei aonde estamos
Mas é à partir dessa base
Que completo cada frase
E apesar de não precisarmos fazer planos
É dessa visão que sei pra onde vamos
Same Sky.
My soul is the moon
Your soul is the sun
And sometimes we look to each other
At the same moment
In the very same sky
And when it happens
My silver light and your golden light
Can reach at us and touch
Just like lingering fingers
Just like friends do with hugs
Or like lovers do with passion
And I know for a fact
We can save each other
For just a moment and for eternity
We are the nights of tormenta
We are the halcyon days
26 julho 2024
Queda inevitável.
Ela cai rapidamente, o vento zunindo em seus ouvidos, as roupas farfalhando com ferocidade. Cada vez mais rápido, mais impetuosa, cair é realmente meteórico. Perdendo o senso de direção, por um momento já não sabe mais se está caindo para baixo ou para cima. Uma bala rasgando o espaço ao seu redor. Não há espaço para emoções prolongadas, o coração não se faz sentir, a velocidade é soberana e a gravidade aproxima o fim da queda pelo ar. Com um estrondo muito mais alto do que imaginava suas costas batem em uma parede azul de água, abrem o concreto imaginário a força, seus olhos se arregalam com surpresa e de repente tudo muda. O som nos ouvidos abafa, o coração se faz ouvir e sentir por todo o corpo. De repente o mundo está em câmera lenta, letárgico, quase estático. Há luz do céu, mas conforme ela afunda a luz se distancia. É difícil se mexer com leveza ou exatidão e um frio sobrenatural se apossa de seu corpo. Lentamente ela continua caindo, afundando enquanto tenta alcançar o ar que este ambiente lhe nega. A boca se abre, mas o som da voz não propaga. Tudo ali é silencioso e devagar. Aos poucos os olhos se fecham, ainda que os braços permaneçam erguidos, os dedos tentando alcançar a superfície. Por um momento ela pode jurar que sente dedos de outra mão segurando a sua, procurando por seu pulso, mas a consciência se esvai. Seu último pensamento é que gostaria de ser salva, ou ao menos que essa outra mão fosse daquele alguém especial. Seja por se recusar a deixá-la ir ou por aceitar ir com ela, que fosse a mão que conhecia. Se assim fosse, viveria ou morreria em paz.
Paralisia.
Se vocês pudessem me ver agora
Provavelmente se assustariam
Ou talvez nem me reconheceriam
Eu mesmo não me reconheço
No reflexo vejo apenas pedaços
Trapos chamuscados
Ferido e carbonizado
Tremendo involuntariamente
E algo esburacado
Dolorido e flagelado
Num escuro traumatizado
Onde antes estava um rosto
E no peito algo doente
Ressecado e amaldiçoado
Onde deveria estar um coração
Sessão gritos inaudíveis #09
Às vezes eu me pergunto se nos meus terrores noturnos eu vejo realmente coisas que não existem. Conheço a sensação. Não conseguir se mexer, a pressão imensa no peito, como um peso enorme que me impede de respirar, o sufocar da própria voz, as dores pelo corpo, a rigidez, nos piores casos a náusea e o pânico fora de controle. Meus olhos sempre estão vidrados em algo, e é quando vejo meus pesadelos, cenários de inferno inacabável, preto e vermelho como chamas, sombras e sangue, seres antropomórficos, deformados, lacerados, demoníacos e bestiais que me assombram e sorriem de maneira desvairada. Olhos gigantes que sangram, amputações putrefadas, garras que me perseguem e bestas que querem tirar minha vida da maneira mais sanguinolenta possível. Passo por isso há mais tempo do que consigo me lembrar com exatidão, de certa forma até aprendi a lidar um pouco melhor, mas... será que meus terrores noturnos realmente não existem? Não me entenda mal, eu sei o que acontece comigo, digo, cientificamente falando. Mas e se... e se eles forem reais? De onde surgiram? Como criei cada um deles? Às vezes eu tenho esse medo. E se no fundo eu sou cada um deles por dentro? E se eles vieram de dentro de mim? Surgindo pra de alguma forma me dizer que eu os vejo e os temo e que eles me aterrorizam porque são a parte real mais íntima das entranhas do meu desespero e da minha falência existencial. Às vezes tenho medo que seja isso. É um pensamento, no mínimo, inquietante.
14 junho 2024
Beau tem medo de ouvir jazz e está pensando em acabar com tudo.
Não sei dizer quantas vezes senti estranheza do mundo que me cerca, e também quantas e quantas mais me senti vaidoso e culpado depois dessa estranheza. Aquele pensamento de que não nasci pra estar onde estou, e logo depois o pensamento de censura, que me condena e diz que eu devia agradecer de poder varrer o chão que piso. Vivo nessa disrritmia há tempo demais pra simplesmente aceitar ou apenas mudar. Faz parte de mim, é uma das capacidades intelectualmente profundas da natureza humana, uma daquelas coisas incríveis que apenas nós conseguimos, mas que exaure e que nos leva mais a comportamentos autodestrutivos do que a momentos de nirvana ou autoconhecimento. De alguma maneira sinto que se eu soubesse nadar, nadaria em círculos longos e perfeitos, cíclicos, um trajeto de tudo que fiz até agora de maneira instintiva, e talvez por isso eu tenha tanto medo de água e não queira aprender a nadar. Ao não lidar com um cenário em que me falta um elemento crucial para a sobrevivência, acredito exercitar sabedoria, mas ao mesmo tempo evito lidar com o que pode não me dar a resposta definitiva, mas que me daria mais elementos pra desenvolver novos cenários e trazer outros resultados. Isso é inquietante como ouvir jazz pela primeira vez, mas depois conforme nos adaptamos, aprendemos a entender o que ali se passa, tiramos algo bom ou minimamente interessante da experiência. Porém antes de tudo, foi necessário deliberadamente trazer esse novo sabor ao paladar, correr o risco de descobrir um novo desprazer, ou até mesmo descobrí-lo, mas aprender vagarosamente quais são os elementos que o tornam apreciável. Desse ponto de vista me vejo como um tipo de ser antiquado, leve demais pra se sustentar na base das fracas convicções que jurava serem tão entalhadas em pedras ancestrais. Eu não pertenço aqui e ao mesmo tempo tenho sorte de ser até permitido estar aqui. Sou muito frágil, megalomaníaco e humilde, deve ser por isso que meu corpo me deu de presente a miopia. Os ajustes que precisei fazer e dos quais sou refém pra ter o que muitos outros possuem tão naturalmente que sequer valorizam como talvez devessem me fizeram mais consciente. Ao mesmo passo, me tornaram mais capaz de entender como um ajuste nem sempre precisa ser profundo e traumatizante até a fundação do osso. Meu Deus, quanta presunção de minha parte, mas estou no meu direito, estou até melhor que muita gente por aí. Fale a verdade, nós somos, no mínimo, curiosos. Só não sei se perceber e abordar isso é o bastante pra nos salvar. Eu pelo menos tenho uma sensação cada vez mais vívida de que individualmente já estou condenado, e aí volto lá pro início do texto. Nadando em círculos, mas sem nunca me atrever a entrar no mar.
13 junho 2024
Sintoma.
Eu sou um traço de arritmia
Eu fico no espaço entre batidas
Esperando pra acelerar
Ou pra parar de bater um coração
Sou um sintoma
Venho pra dar início
Ou pra ser um ponto final
Mas eu não morro
Não importa o quanto eu tente
Eu nunca morro
Acho que é uma condição
Uma regra do meu sintoma
Quem morre geralmente
Não é quem eu desejo
Mas acredite, alguém sempre morre
11 junho 2024
Pura simplicidade de um sonho.
Num dia de sol ameno e céu aberto você caminhava despreocupada em passos felinos, tão precisos quanto silenciosos. Cabelos como um véu acariciado por uma leve brisa, e eu sentia seu perfume e o notava no ar como um rastro rosado que formava delicadamente um caminho até você. Num cenário em linhas de Van Gogh você se sentou na beira de um lago. Pétalas caindo vagarosamente. Não dizia uma palavra, mas parecia estar totalmente em paz. Talvez pela primeira vez desde muito tempo respirava devagar e sem ansiedade, serena como o movimento do lago que não lhe pagava com justiça a beleza de seu rosto e suas mãos que ajeitavam os óculos e mechas do cabelo. Eu te observava de perto, não podia dizer se dali eu fazia parte, se de mim estava ciente, mas não me atrevi a te erguer o tom de voz no som do teu nome, permaneci como estava. Você parecia feliz, lábios de morango num sorriso delicado, olhos de amêndoa encarando a miragem daquela tarde perfeita, sentada sem pressa de ir ou sair. Era como te observar dormir, como compartilhar um momento que não era realmente meu, mas do qual de alguma forma eu fazia parte. Se eu pudesse ficaria apenas ali... e assim acordei devagarinho.
Sessão gritos inaudíveis #08
Tenho sempre que ir além do mundo?
26 maio 2024
De frente a uma casa pacata.
Num dia só
Com um cigarro aceso
Entre meus dedos frios
No traço de um gole amargo
Que me cumprimentava os lábios
Como um doce beijo não faria
Nem fará
Acompanhado do ar
Que me enchia o peito de suspiros
No frio de um maio chuvoso
De gola alta e sapatos
Olhando a vida passar
Por outros e também por mim
Eu entendi minha solidão
E assim me permiti sorrir
E ali devo ter envelhecido dez ou doze anos
Ou menos ou mais
Eu buscava tanta companhia
E vivia tão repleto
Que era vazio o que me pulsava o peito
Que me escapava pelos olhos a nobreza
E não voltava e não voltaria
Não importava o quanto eu fumasse
Muito além do quanto eu bebesse
Num dia só
Com um cigarro aceso
Eu era finalmente comunicado
Com carimbo e papel timbrado
Como carta de aviso prévio
Da minha própria instituição
Eu era sozinho e ponto
Sem muitos floreios
Sem condolências ou meios termos
Eu era sozinho e só
10 maio 2024
Sessão gritos inaudíveis #07
16 abril 2024
Sessão gritos inaudíveis #06
Por que acabou?
Por que me sinto diferente?
Por que nossa amizade não bastou?
Por que tive que me afastar?
Por que você teve que se mudar?
Por que você nunca mais falou comigo?
Por que você não me responde?
Por quê?
Eu não tenho resposta pra nenhuma dessas perguntas, pra nenhuma dessas pessoas e situações, tudo que eu sei é que esses foram os resultados finais, e isso pode ser sufocante de maneiras muito únicas e desabilitantes. Eu sei que vou continuar procurando viver sem questionar tão vorazmente tudo isso, vou continuar tentando ser uma pessoa melhor do que ontem, e sei que parte dessa busca é aceitar que alguns ciclos apenas acabam, mas até eu alcançar o não enfrentamento, a paz da aceitação, seguirei com meus gritos inaudíveis, bradando aos quatro ventos um lamento desesperado que não faz nem nunca fez barulho.
19 fevereiro 2024
Vulnerabilidade.
02 fevereiro 2024
Apenas um tropeço caminhante.
Já me senti como um botão de flor prestes a desabrochar. E também como cinzas de um cigarro velho. É sempre uma questão de perspectiva e distanciamento, mas sentir-me escorrendo por meus dedos é no máximo, uma ideia criada por meus próprios pesadelos, tal qual ser a árvore da vida é uma bela noite de sonhos. Tudo ao meu redor me direciona, e o espelho é um reflexo do lago mais profundo que cavei. Tenho muitas dúvidas e poucas respostas, mas talvez a vida, pelo menos a minha vida, se trate disso, passar sofregamente de interrogação para exclamação ou ponto final. Acreditar que o amanhã será, entre melhor ou pior, a vírgula antes do passo, o afago antes do tapa, ou que será o beijo antes do choro, o riso antes do drama. Compreender que sou como sou é minha maior missão jamais delegada aos meus atos. É a síntese de ir além dos meus próprios sentidos por caminhos e meios misteriosos que somente eu serei capaz de elaborar e desvendar. Talvez o coração pulsante seja só um sacolejo dos tropeços nessa estrada que me mantém herói e vilão, que me mantém solução inadequada e soma perfeita, mas acima de tudo, que me mantém honestamente vivo.
28 janeiro 2024
Sessão gritos inaudíveis #05
Fumei um cigarro pela manhã fria e ligeiramente chuvosa. Esperei pelos momentos de dizer bom dia aos rostos vagamente conhecidos do meu trabalho. Sorri, acenei, abracei, gargalhei, assinei, entreguei, recebi, liguei, ajudei, arquivei, imprimi, caminhei, almocei, escrevi, relatei, anotei, resolvi, transpirei. Um dia tão comum quanto qualquer outro, nem o melhor, nem o pior, apenas um dia com as mesmas situações e conclusões que me fizeram rir e aborrecer e calar e trabalhar. As roupas me protegiam do frio e eu me senti confortável e bem arrumado dentro delas, e sorri com vaidade em frente ao espelho. Me perfumei e aceitei os elogios que me fizeram, vi algumas das pessoas que gosto e as fiz sentir bem com meus atos de carinho e gentileza. Saí do trabalho e fiz o caminho habitual, fumei, parei em algum bar, bebi algumas cervejas, assisti o jogo na tevê, olhei as luzes da cidade e muitas pessoas passaram por mim e eu por elas, o salto do sapato batendo despreocupadamente no asfalto a cada passo. Um dia normal, sem exageros, sem maiores imprevistos, um dia satisfatório.
Naquela noite eu ouvi música pra não pular da janela.
Linhas imaginárias que me prendem.
Memórias misturadas, sentimentos desalinhados, costumes deturpados, vicíos e goles e tragos dados. Eu tive muitos momentos de letargia, de solidão e de apatia, mas também tive alguns que me tiraram da monotonia, já quis te arrancar do peito e te fazer minha única alegria. Difícil conseguir me decidir porque minha rotina é banal sem você, como obrigações na tela da tevê, como linhas de autoridade no cinza da cidade, como a idade que traz o cansaço e o lado ruim da saciedade.
Ainda assim, sentir você sem te ter plenamente é algo que não consigo mensurar, é como ver o horizonte sem chegar, pular e não cair, não experienciar o azul do céu ou a luz do luar. É sentir e procurar racionalizar o que não é nobre, tentar ser forte mas depender exclusivamente da sorte, é como ter conhecido a vida mas querer a morte. Queria dizer que não, mas me quebra por dentro, e eu fico à flor da pele quando queria viver desatento, pois a distração constante seria um alento, porém meus dias são resumidos em horas de paz e tormento.