Meu coração é um retalho marcado, manchado e ferido por vidas passadas e erros que nunca vou me perdoar por ter cometido. Sou alguém que se entregou demais e que negou demais o fato de que nunca serei a escolha certa de ninguém, de passos polidos e cansados, do sorriso cativante e tristeza tangível, que vive num eterno tédio, num vazio existencial que não consegue ser alimentado por nada a não ser as fantasias que crio de momentos que nunca viverei com pessoas que nunca alcançarei. Os retratos desbotam, a tinta escurece, o sangue apodrece lentamente pelos vícios já tão inerentes, eu caminho por aí fingindo não ser um grande erro da realidade. Meus olhos enxergam cada vez menos, afetados pela passagem do tempo e pela percepção de que ninguém nunca vai adentrar meu perímetro novamente. Com defesas cada vez mais rachadas e em ruínas, eu tento lavar minha solidão e meus pecados, e me aproximar pra procurar mais uma vez viver e ser feliz, mas é cada vez mais nítido que não fui feito pra ter essa redenção, e o coração amargurado me aconselha a parar, pois não há mais propósito. Eu fecho a porta, me tranco no cubículo sufocante da minha existência deplorável, valorizando a solidão e o ser sozinho que tanto me ferem. As vozes conversam comigo e nenhuma delas tem nada bondoso pra dizer, é como se eu nunca mais fosse conseguir estar repleto de boas emoções e perspectivas promissoras novamente, de alguma maneira eu simplesmente esgotei isso. Eu me obrigo a seguir em frente, e por outra vez fingir que tenho algo belo em meu interior, mas estou cada dia mais cansado, exaurido e terrivelmente entediado. No vazio existencial que me assola, sinto que começo meu processo de desistência. Eu não aguento mais tentar, eu não aguento mais cair, me machucar, eu não consigo mais ferir involuntariamente os poucos que me dão a mão nos espamos do meu sono perturbado e doente. Me olho no espelho e preciso admitir: meu fardo é esse, e sempre será minha sina. Talvez seja melhor desistir.
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