Existem alguns amores que eu, de certa forma, invejo. Amores dos quais experimentei pouco e por pouco tempo, dos quais nunca arranhei mais que superfície, dos quais não entendo verdadeiramente. Amores que hoje, cada vez mais creio, nunca terei, serei ou viverei. Só posso admirar. Os meus, que nunca se concretizaram, ou que vivi mas afastei, mesmo com a intensidade de minhas chamas, arrefeceram, deixaram apenas cinzas ao redor de mim, e feridas abertas por flechas que me transpassaram a carne trêmula. De alguma maneira, entretanto, sou dotado da proeza de vê-los, de me aproximar deles, os amores tão melhores do que os invejados por mim. Eu posso observá-los e percebê-los, posso prever o futuro de cada um deles comigo, e sentir o conforto de cada beijo, de cada perfume que tanto desejei e desejo. Sou capaz de chegar tão perto de seus corações, que as batidas compassam, que tornamo-nos um, que entrelaço meus dedos nos dedos, que puxo pela cintura, que encaro nos olhos, sinto nos lábios e nos cabelos. Mas não sou capaz de mantê-los. Não sou capaz de ir além, de vivê-los além do tempo, nem mesmo posso chegar à plenitude. Sigo amaldiçoado, numa sina que após desabrochar as rosas, termina por incendiá-las ao toque, uma por uma, todas as vezes sem exceção. E em troca sou igualmente ferido, condenado a ter memórias sufocantes, a lembrar de perfumes e detalhes inebriantes, como uma grande ironia do caminho que tenho de trilhar, num espasmo esquálido incessante. Portanto sigo, e sigo sozinho. Mas existem amores que eu, de certa forma, invejo. E mesmo que nenhum deles me pertença, mesmo que eu não seja de nenhum deles, continuarei a invejar, a contemplar com olhos marejados do querer desta vida tão bela, tão gentil, e ao meu ser tão inalcançável.
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