06 novembro 2024

Efeito borboleta.

É difícil escrever sobre você. Nos vimos dia 11 e só consegui juntar palavras para falar sobre isso quase 1 mês depois. Confesso que foi estranho; na verdade ainda é estranho. Não tenho mais o conjunto de elementos e todas as certezas que eu tinha anos atrás. Não sei o que pensar exatamente, o que dizer com clareza, não sei qual música ouvir pra evocar o estado de espírito correto, mas acho que é mais ou menos isso que a passagem do tempo faz conosco, é uma mistura entre ardência e dormência, se é que isso é possível de sentir dessa forma.
Fazia sol naquela tarde. Geralmente os momentos com você me aqueciam igualmente, me lembro que eu não precisava de ensaios ao seu lado, você sorria e de repente se dava jeito pra tudo, de repente tudo era fácil. Eu caminhava pelos meus próprios motivos, que àquela altura nada tinham a ver com você ou com suas pegadas, passos mais de um milhão de vezes dados nas ruas e calçadas que eu atravessava e percorria, refazendo de cabeça os detalhes daquele ambiente. De uma maneira muito natural eu não me lembrava dos nomes, das placas, nem de nada dessa mapa, mas meus pés e minha intuição lembravam o que fazer, pra onde andar, virar, quase uma memória muscular de um movimento que repeti milhares de vezes durante 6 ou 7 anos desse esporte profissional que havia se tornado ir até você. Independentemente das minhas razões, era curioso passar por todos aqueles prédios, casas, postes e árvores, era como um episódio do meu próprio seriado, aonde eu, protagonista da minha própria vida e rodeado de transeuntes convidados, rememorava alguns dos melhores momentos de antigos episódios. Eu observava lados, cantos e traços, detalhes e fatos daquele caminho, num agridoce que até então era mais doce e nostálgico, tudo aquilo me era muito familiar, tudo aquilo era meu, e sem nem perceber eu sorri.
Não sei dizer quanto tempo esse devaneio particular durou, mas em dado momento olhei pra frente e me deparei com um par de olhos tão belamente escuros que eu não poderia descrever. Um rosto tão familiar, tão dono de trejeitos tão próprios que eu jamais poderia me esquecer. Naquela tarde de sol, sem mais nem menos ali estava você, na minha frente, no que me pareceu a eternidade de um segundo congelado no tempo. Estranho perceber que mesmo não pensando em você, mesmo não havendo mais a centelha da chama que antes me bombeava o sangue, sem mais nem menos eu me lembrava de todos os seus detalhes, do sorriso levemente enviesado, dos seus dedos finos e delicados, do cabelo curto ligeiramente bagunçado, e até mesmo do seu cheiro e a sensação do seu abraço, sem mais nem menos eu revivi por um instante o nosso laço. O que mudou foi que dessa vez não sorrimos e nos aproximamos, e na verdade seu olhar tão caloroso transmitia medo, apreensão e imprevisto, e os meus provavelmente alguma dor e frustração. Ainda assim você continuava igual. Passeando com o cachorro, as mesmas roupas de antes, o mesmo jeito de andar, a mesma maneira de mexer no cabelo daquela forma despreocupada que eu achava tão marcante. Nesse relato mudo que trocamos, enquanto eu lembrava do nosso primeiro e do nosso último beijo a ponto de reviver a sensação e o gosto dos teus lábios nos meus, o tempo voltou ao normal. Você atravessou a rua pra longe de mim e eu olhei pro chão e segui em frente. Sei que você olhou pra mim enquanto eu me afastava, senti seus olhos em mim, mas não me atrevi a olhar pra trás, não teria essa coragem. Se eu tivesse olhado, talvez eu tivesse parado, talvez eu tivesse ficado, e infelizmente não posso mais correr esse risco, pelo bem do nosso bem.
Conforme eu me afastava de você já não sabia exatamente pra onde ia, meus passos me levavam em piloto automático, me guiando pra longe de você até o portão da sua casa, o qual fingi que não reparei enquanto seguia pra longe dali. Depois de um tempo naquela mesma tarde eu já me encontrava geograficamente distante de você, já tinha fumado, bebido e pensado, já tinha sorrido e me emocionado, já tinha sentido e já tinha xingado, já tinha admitido e também te esnobado. Não sabia direito o que sentir com tudo que havia ocorrido, não era mais tão fácil estabelecer sentimentos por você, fossem eles bons ou ruins. Mesmo igual, também notei que você era só um rosto conhecido, um arquivo de memória revisitado por espasmo, um simples sinal de que minha memória ainda estava em bom estado. E ao fim daquela tarde, dentro de um ônibus e lidando com todos meus demônios, eu vi a chuva cair lá fora sem aviso e totalmente impiedosa, numa torrente feroz e inesperada. E mesmo sem doer dentro do peito, eu encostei a cabeça na janela e chorei em silêncio. Ali, do meu jeito, no meu momento, eu chovi junto com a chuva. Uma mistura de ardência e dormência, que agora eu sabia, era sim muito possível de sentir exatamente dessa forma.

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