Fazia sol, era um dia de calor agradável. Sentado na escada de madeira próximo ao cais, ele encarava a praia sem preocupações. O vento era cadenciado, o mar era de um azul cintilante e estava numa calmaria impossível de ser quebrada. Ele olhava a pintura da vida real quando de repente notou uma garota mais ao longe. Era bela, esguia, de pele alva e aparência delicada. Usava um short e uma camiseta mais curta, que mostrava o umbigo. Os cabelos eram louros, cheios e longos, tão dourados que rivalizavam com o próprio sol, como fios do ouro mais raro e valioso do mundo, e dançavam ao sabor do vento enquanto ela caminhava segurando um par de chinelos, com olhos mais azuis que o mar ou o céu sem nuvens daquela tarde. Espantado, ele observou com mais atenção e teve a certeza que já havia visto essa garota antes, que já tinha vivido uma vida inteira e mais outras duas com ela, que tinha crescido com ela, se apaixonado, casado e envelhecido com ela, que tinha tido filhos e netos, que sorriram e choraram juntos na união mais cheia de amor que poderia haver. Teve a certeza que ela era a mulher mais linda desse mundo, a mais incrível, gentil e perfeita que poderia existir entre todas as pessoas, que seus olhos azuis olhavam sua alma, e estar de mãos dadas com ela era o presente mais maravilhoso da vida. Ela sorria calmamente e caminhava sem um real propósito, simplesmente aproveitando aquele momento. Estava perto da escada quando notou o rapaz sentado, olhando-a de maneira fantasiosa, como se estivesse enxergando outra paisagem. Optando por ser gentil, acenou brevemente e sorriu.
- Bom dia!
O rapaz estava absorto em seus pensamentos de que a conhecia, e se sentiu meio perdido quando notou que ela falava com ele. Meio sem jeito e achando aquela a voz mais angelical que já tinha ouvido em sua vida, ele acenou em resposta.
- Oh, bom dia. Desculpe, eu fiquei distraído.
- Ah, eu percebi. - Ela riu. - Alguma razão pra ter se distraído olhando pra mim?
- Desculpe, eu não quis parecer estranho. - Ele ficou tímido, o que pareceu divertí-la. - É que às vezes eu sou um pouco distraído mesmo, mas na verdade tive uma impressão...
Ele parou de falar. Ficou sem graça. De repente lhe ocorreu que seria a coisa mais estranha simplesmente dizer a uma mulher desconhecida que sentia que já a conhecia. Ele próprio não sabia dizer o que pensaria se alguém dissesse algo semelhante pra ele. Mas para sua surpresa, ela pareceu genuinamente despreocupada e curiosa.
- Uma impressão? Uma impressão de quê?
- Não sei bem como dizer.
- Pode começar usando as palavras. - Ela riu com descontração.
- Bem... sei que vai parecer estranho, mas... você parece com a garota que eu vi nos meus sonhos.
- Nos seus sonhos?
- Bom... sim, nos meus sonhos.
- Você me viu nos seus sonhos?
- Sei que parece só uma cantada ruim, mas eu juro que sim, te vi nos meus sonhos.
- Acho que consigo entender, eu te vi nos meus sonhos também. Fomos feitos um pro outro.
- Hã?!
Ele teve um estalo e voltou a realidade. Estava encarando a mulher ao pé da escada, que fazia uma expressão mista de gentileza e um pouco de preocupação.
- Oi? Bom dia? Tudo bem com você?
- Ah, sim, sim, bom dia, sinto muito por isso, eu fiquei muito distraído, perdão se te assustei, não fiz por intenção.
Ela pareceu mais despreocupada depois dessa resposta.
- Ah, então está bem. Quem não se distrai num dia lindo desses, não é mesmo?
- Sim, com certeza.
- Bom, então vou indo, até!
Ela começou a seguir seu caminho.
- Você parece com a garota que eu vi nos meus sonhos.
- O quê? Desculpe, disse alguma coisa?
- ...nada, nada mesmo. É realmente um belo dia, né?
- Ah sim, um belo dia.
Ela começou a se afastar, voltando a ser apenas ela e os próprios pensamentos. Ele ficou observando ela partir. Tinha certeza que a tinha visto em seus sonhos, que era o amor da sua vida, que era seu destino. Mas não fez nada além de sorrir enquanto ela seguia pra longe.
- Na vida real ela vai embora... É, faz mais sentido.
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