28 dezembro 2022
Lapsos de um ser amargurado.
Como um espelho refletindo meus sentimentos egoístas
E os olhares amorosos que um dia recebi sem merecer
Tive vontade de respirar novamente o ar fresco
De experimentar a luz prateada e melancólica do luar
E me esquecendo das raízes silenciosas eu saí
Caminhei para fora e senti o vento irreconhecível
O som de meus passos abafados pela chuva fria e abundante
Que se misturava às lágrimas em meus olhos cansados
E a cada respiração uma nuvem de fumaça me mostrava
Que em algum lugar eu ainda estava vivo
Que mesmo na escuridão eu podia sentir, me flagelar
E sem prestar atenção eu caminhei com os pés dormentes
Um corpo inanimado, um fantoche, uma colcha de retalhos
Gelado como a chuva e o asfalto inexpressivo
Para longe dos meus próprios julgamentos infantis
Cada vez mais longe de mim mesmo
Numa busca eterna por me encontrar naquela chuva
A noite mais escura que a sombra do meu rosto já adulto
A chuva confundindo meus sentidos castigados
Mais longe e mais perto de mim, totalmente sem noção de tempo
Um alguém sem identidade, incapaz de sorrir novamente
Sozinho de todos, alheio de tudo que tentasse tocar
Um elemento do vazio e da chuva, sempiterno e condenado
Sempiterno e condenado
Para todo o sempre.
Gestos delicados. 🌸
Muitas histórias poderiam ser contadas à partir daquele toque entre nossas mãos. Senti as quatro estações passarem por mim, mas você era a primavera eterna, com o canto dos pássaros, pétalas de cerejeira e o calor gentil do sol ameno. Você era um olhar cálido, um andar cadenciado, e quando eu ajeitei uma mecha do seu cabelo pude perceber quão bela sempre seria, o quanto seu sorriso delicado me fazia sentir vivo. À partir daquele toque entre nossas mãos, eu quis todas as histórias com você.
Nada além de mim.
Não acreditei no que via diante do espelho. A música suave e ritmada tocava despretenciosamente enquanto o ponteiro do relógio mostrava meu tempo se esgotando. Eu vestia minha melhor roupa, estava impecável, alinhado e vaidoso. Ainda assim não podia acreditar que diante dos meus olhos era refletido o mais vil, animalesco e ferino monstro. Com um sorriso encantador e gestos polidos. Uma besta ensandecida, pronta para trucidar. Até eu me espantava.