28 dezembro 2022

Lapsos de um ser amargurado.

Durante a noite eu notei que chovia lá fora
Como um espelho refletindo meus sentimentos egoístas
E os olhares amorosos que um dia recebi sem merecer

Tive vontade de respirar novamente o ar fresco
De experimentar a luz prateada e melancólica do luar
E me esquecendo das raízes silenciosas eu saí

Caminhei para fora e senti o vento irreconhecível
O som de meus passos abafados pela chuva fria e abundante
Que se misturava às lágrimas em meus olhos cansados

E a cada respiração uma nuvem de fumaça me mostrava
Que em algum lugar eu ainda estava vivo
Que mesmo na escuridão eu podia sentir, me flagelar

E sem prestar atenção eu caminhei com os pés dormentes
Um corpo inanimado, um fantoche, uma colcha de retalhos
Gelado como a chuva e o asfalto inexpressivo

Para longe dos meus próprios julgamentos infantis
Cada vez mais longe de mim mesmo
Numa busca eterna por me encontrar naquela chuva 

A noite mais escura que a sombra do meu rosto já adulto
A chuva confundindo meus sentidos castigados
Mais longe e mais perto de mim, totalmente sem noção de tempo

Um alguém sem identidade, incapaz de sorrir novamente
Sozinho de todos, alheio de tudo que tentasse tocar
Um elemento do vazio e da chuva, sempiterno e condenado

Sempiterno e condenado
Para todo o sempre.

Gestos delicados. 🌸

Muitas histórias poderiam ser contadas à partir daquele toque entre nossas mãos. Senti as quatro estações passarem por mim, mas você era a primavera eterna, com o canto dos pássaros, pétalas de cerejeira e o calor gentil do sol ameno. Você era um olhar cálido, um andar cadenciado, e quando eu ajeitei uma mecha do seu cabelo pude perceber quão bela sempre seria, o quanto seu sorriso delicado me fazia sentir vivo. À partir daquele toque entre nossas mãos, eu quis todas as histórias com você.

Nada além de mim.

Não acreditei no que via diante do espelho. A música suave e ritmada tocava despretenciosamente enquanto o ponteiro do relógio mostrava meu tempo se esgotando. Eu vestia minha melhor roupa, estava impecável, alinhado e vaidoso. Ainda assim não podia acreditar que diante dos meus olhos era refletido o mais vil, animalesco e ferino monstro. Com um sorriso encantador e gestos polidos. Uma besta ensandecida, pronta para trucidar. Até eu me espantava.

30 novembro 2022

Ma belle.

06/10

Ei... tem um tempo que a gente não se fala, você está bem?
Acho que essa tem sido muito da nossa premissa em todos os nossos reencontros via redes e fibra ótica, e eu sei que isso não é o ideal, mas sinto o calor do seu abraço cada vez que nos falamos, e sempre procuro estender todo o meu carinho, como se de alguma forma ele pudesse atravessar a distância e te fazer um cafuné. É curioso que eu tenha te conhecido na família de um dos melhores amigos da minha vida, isso porque eu não imaginava que havia alguém mais pra conhecer, o círculo me parecia bem completo e satisfatório, mas eu te conheci numa festa de ano novo e de lá pra cá abriu-se um novo lugar no meu coração, aonde guardei a fração mais singela de você e da sua amizade por mim.
Me senti acolhido pela garota mais gentil que tive a sorte de conhecer em muito tempo, em cada vez que me deixava falar do meu jeito, quando me ouvia mesmo que eu estivesse bêbado, quando não tentava me moldar às suas necessidades e quando demonstrava interesse no que eu tinha a oferecer. É importante pra mim que você saiba o quanto me fez bem em um momento no qual eu me sentia distante de algumas amizades que eu considerava importantes. Com você eu não precisava tentar me encaixar.
Essas são algumas das razões que me fizeram te olhar com mais atenção e oferecer minha amizade irrestritamente. Passei a me importar muito com você e com a maneira como você se sente frente ao mundo, comecei a querer te apoiar e retribuir tudo que você tão generosamente me ofereceu sem cobrar nada em troca. Muitas vezes me sinto como um tipo de irmão mais velho, me orgulho de todas as suas conquistas e tenho uma vontade de te proteger do mundo, e mesmo sabendo que temos nossas rotinas, prazos e horários eu acredito que vamos conseguir nos ver mais e compartilhar muitos outros momentos simples e preciosos como cada vez que nos vimos e nos falamos até hoje.
Lembro do convite que me fez para sua formatura e de como me senti especial. Aquele foi um dos meus dias preferidos do ano, eu amei poder estar presente em algo tão importante, poder dançar, beber, conversar e dar risada com você, te acompanhar pra lá e pra cá, tirar fotos e te ouvir falar sobre pessoas que eu ainda não conheço, te dar um abraço e perceber cada vez mais que você é uma garota preciosa pra mim. Te agradeço muito por tudo isso. Hoje em dia eu sei que nem sempre você tem tido bons momentos tão frequentemente, e que isso te faz estremecer num calafrio de dentro pra fora, mas espero que apesar de todo esse cansaço turbulento você compreenda que eu te amo, que me orgulho de quem você é, que estou aqui pra te ouvir e pra lamentar e comemorar o que vier, que estou aqui pra te ajudar no que eu puder porque gosto de você de graça e porque hoje você é tão parte da minha vida quanto uma irmã mais nova de sorriso lindo e estilo próprio. A detentora do nome mais lindo de todo esse mundo.
Seja lá quantos anos ambos ainda tenhamos, daqui até lá você tem minha lealdade e coração, e nem sempre eu vou saber transpor em palavras, mas sempre vou tentar o meu melhor pra que você tenha mais um motivo pra sorrir.

De alguém que te ama e te admira muito,

Régis.

Tweet que não foi pro Twitter.

Eu não sei o que fazer. Me sinto péssimo, não me sinto um bom filho, um bom namorado, um bom amigo. A impressão que me dá é que nada que eu faça agrada ninguém, nada que eu faça eu faço certo. Tô cansado dos outros e de mim.

O último dia.

Acordou como acordava todas as manhãs. Preguiça, o calor da cama, tudo familiar, mas ao se levantar sentiu um tipo de arrepio, não como mau agouro, mas uma constatação, um tipo de aviso natural que alguns deviam sentir já aos 80 ou 90, mas ele sentiu aos 35, e de uma forma muito particular. Foi ao banheiro e olhou no espelho mas não notou nada diferente. Checou o corpo da melhor maneira possível, nada diferente. Fechou os olhos e prestou atenção aos sentidos, tentou ouvir o funcionamento das próprias engrenagens, nenhuma dor, pontada, coceira, nada anormal. Ainda assim sabia. Não sabia como sabia, mas sabia. Por um breve momento se desesperou andando pela casa. Não podia ser, pensava, logo ele, logo agora, ainda parecia ter tanta areia a rolar pela ampulheta, mas sentia que sabia, e essa percepção tão certeira e imutável o fez pular os estágios do luto e aceitar. É isso, morreria. Aquele era seu último dia. Sentou na cama e pensou em tudo que fizera na vida e da vida, imaginou quantas pessoas agora não desejariam estar em seu lugar, e concluiu que sem dúvida seriam incontáveis. Assim, tomado de determinação abandonou a agenda da rotina. Ligou o som e começou a ouvir suas músicas favoritas, todas elas, as tristes, as felizes, as bobas e as sérias, e enquanto ouvia tomou o melhor banho de sua vida, comeu o melhor café da manhã de sua vida e vestiu a melhor roupa que tinha. Olhou as notificações do celular e foi tomado de um pensamento inquietante. Resolveu que ia fazer o que nunca tinha feito, da forma que nunca tinha feito. Saiu de casa e na rua respirou profundamente o ar da manhã, como era bom estar vivo, aquele último dia seria o dia mais marcante de sua vida. Sorriu aos transeuntes ocasionais enquanto caminhava, enquanto tomava um caminho igual para uma finalidade diferente. Entrou na firma, se demitiu respeitosamente e se despediu carinhosamente dos amigos que tinha feito.

- Mas cara, como assim?

- É que eu vou viajar pra longe, mano.

- Mas vai pra onde?

- Não sei bem, mas sei que é longe, e queria me despedir de você e dos outros.

- Bom, então boa sorte, mas não some, viu?

- Não vou sumir, cê vai ouvir falar de mim, mas não quero choro, viu?

- Que papo estranho, tu entrou numa seita? Hahaha

- Longe disso, amigo. Mas é, já vou indo, viu? Dá um abração na sua mulher, diz que vou ter que cancelar aquele rolê que nós três tínhamos combinado. E vê se te cuida.

Abraçou o amigo, abraçou todos os amigos e foi embora. Ali tinha muita gente boa, desejou do fundo do coração o melhor a todos. Seguiu contornando os caminhos que sempre tomava até tomar outros menos corriqueiros e depois de um tempo parou numa porta conhecida. Bateu e esperou. Ela abriu e ficou surpresa, mas em seguida se mostrou fria.

- Que que cê quer?

- Posso entrar?

- Pra quê? Eu tenho muito que fazer.

- Não vou tomar muito do seu tempo, só quero conversar rapidinho.

Ela não entendeu muito bem, mas parecia sério.

- Tá, entra, mas você tem só meia hora, eu tenho mais o que fazer.

Entrou, sentou e observou a sala. Nada tinha mudado muito fora um detalhe ou dois. Ainda era a mesma pessoa afinal.

- Olha, eu queria me desculpar.

- Pelo quê?

- Por mim, por nós, por como tudo terminou.

- Olha, você não precisa fazer isso, eu nem sei se quero que você faça isso, já passou, eu não ligo mais.

- Eu sei, mas quero fazer mesmo assim.

- Tá... então fala de uma vez.

- Olha, eu não queria mesmo que as coisas terminassem como terminaram. A verdade é que eu tive muito medo de não ser suficiente, ou de tudo ser demais. Tive medo de me sufocar e no processo te sufocar também. Tive medo de querer ter uma casa, dois filhos e um cachorro, tive medo de ser o maior acerto da minha vida porque na real eu ainda não tava pronto pra acertar, acho que ainda queria errar de porta um pouco mais antes de entrar pela mesma todos os dias pelo resto da minha vida. Eu tive medo de ser feliz, porque tinha medo dessa felicidade acabar e eu me tornar um miserável rancoroso e triste. Então em vez de te explicar eu só fui embora, mas não foi direito, você não merecia isso. A realidade é que você foi a melhor coisa que me aconteceu e eu me arrependi amargamente por uns dois anos até seguir em frente, mas queria que soubesse que nunca foi você e que eu espero que você seja o mais feliz possível sozinha ou com um novo alguém, se é que já não tem alguém.

- Bom... não tem. Mas mesmo que tivesse eu não te diria.

- Imagino que não, mas não é esse o ponto. Não foi você, e eu me arrependo de como deixei pensar que talvez fosse. Fui eu. Desculpa.

- O que te levou a vir aqui me falar tudo isso depois de quatro anos? Por que agora?

- Porque sim. Eu percebi que às vezes o melhor motivo é saber que não há exatamente um motivo lógico, porque a vida acontece todos os dias e a graça da coisa é viver. É o que eu tô fazendo agora, tô vivendo, e parte disso é vir te dizer o que eu devia ter dito há muito tempo. Não foi você, fui eu, desculpa, siga feliz se for possível, tá? Você merece.

- Tá bom. Não sei o que te dizer mas tá bom. Obrigado por ter dito o que disse e por não esperar uma resposta de mim.

- Não se preocupa, não espero mais do que tudo que você já me deu. Obrigado por tudo. Agora eu vou indo, obrigado por me deixar entrar e encarar isso tudo de frente, era o mínimo da minha parte. Se cuida, tá? Você é maravilhosa. Tchau.

- Tchau.

Saiu mais leve, não exatamente feliz, mas com uma sensação de entendimento e conclusão. Conclusão era uma sensação boa. De lá foi visitar mais amigos, aqui e ali, colocou papos em dia, abraçou apertado, gargalhou, lembrou dos tempos de escola. Tomou uma boa parte do dia. Já pelo fim da tarde passou num apartamento e tocou o interfone.

- Oi!

- Oi mãe, sou eu!

- Ué, do nada? Sobe.

Ouviu o estalar do portão automático e entrou no prédio. Subiu no apartamento e a porta já estava aberta.

- E aí, que houve que veio me visitar do nada? Aconteceu alguma coisa?

- Nada aconteceu, hoje eu tava com tempo e senti saudade. Só isso.

Não precisou explicar muito mais. Conversou com a mãe sobre tudo que era corriqueiro, soube das novidades, assistiram tevê juntos, jantou na mesa com ela e e quando ela foi tomar um banho ele escreveu num papel. "Você fez tudo ser mais fácil e mais carinhoso. É parte de mim pra sempre e eu nunca escolheria outra pessoa pra ser minha mãe. Não se preocupa e vê se não se sabota, você pode tudo que quiser quando quiser. Te amo pra sempre."

Foi embora e ligou pra um amigo, já era noite. Encontrou com ele num bar e tomaram algumas. Deu risada, falou da vida, de esportes, das antigas namoradas e amigos, ouviram algumas músicas, curtiram. Saiu do bar bem o suficiente pra entender o que fazia e voltou pra casa. Chegou cansado mas satisfeito. Ligou pra muita gente, falou, ouviu, riu e se compadeceu. Perdoou e foi perdoado também. Pra quem não atendeu mandou mensagens e áudios. Falou com todos. Naquela noite tinha jogo do seu time. Assistiu pela tevê e vibrou, comemorou e xingou também. Tomou um banho e depois fumou um cigarro. Pediu sua comida favorita e comeu lendo antigos poemas que já escrevera. Mais de meia noite deitou na cama, os olhos já pesados. Pegou papel e caneta.

"Não foi culpa de ninguém, não fiz isso a mim mesmo e nem faria, mas hoje, não sei como mas eu sei, é meu último dia. Obrigado a todos que amei e que me amaram. De alguma forma eu sei que quando dormir não vou mais acordar. Seja lá por onde for, a aventura continua. Amo todos vocês."

Recostou a cabeça no travesseiro e sorriu. No final das contas tinha tido sorte, mesmo com todos os percalços. Estava feliz. Chorou silenciosamente, fechou os olhos e dormiu. E não acordou mais.

05 outubro 2022

Capítulo de um dia real.

Acordei me sentindo cansado e um pouco catatônico. Ultimamente isso vinha me acontecendo com certa frequência, e eu nunca sabia dizer se era pela paralisia do sono, por eu beber pouca água ou porque de alguma forma eu sentia que apenas não tinha nascido moldado para dormir direito. Mesmo dormindo tarde eu consegui acordar pela manhã, desorientado e sem muita perspectiva. Não que eu não tivesse meus compromissos, minhas datas e obrigações, mas também não era como se minha vida fosse a mais ocupada. Na verdade, eu já havia tido períodos muito mais ativos socialmente e isso me preocupava muito de vez em quando.
Levantei da cama e abri a veneziana pra olhar o clima. Era um dia nublado, um pouco frio, mas nada absurdo. Hoje era um daqueles dias em que eu não sabia exatamente o que fazer, principalmente pra me sentir útil, funcional. Troquei de roupa, fiz minha higiene matinal e comi um pão já não tão fresco, mas ainda bom o suficiente. Sentei na frente do computador com um chá quente e encarei a página em branco do editor de texto. Fazia tempo que eu tentava escrever e não conseguia. Eu não era um escritor, mas aspirava ser, e havia decidido escrever o que quer que fosse pelos próximos meses, mas quase nada saía desse pacto que fiz comigo. Antigamente eu conseguia escrever qualquer coisa que não necessariamente tivesse profundidade real pra mim, mas conforme fui crescendo isso se tornava cada vez mais inviável. Eu não via mais a escrita como um mero mecanismo de desabafo quando se tratava do que eu escrevia, mas sim como uma arte a ser desenvolvida e respeitada. Cada segundo era relevante. Cada minuto uma nova história. Era parte do tudo que me definia como um indivíduo capaz de ser mais do que alguém ligado no piloto automático da vida.
Piloto automático, minha ex-psicóloga me alertara muitas e muitas vezes contra àquilo, mas ainda que eu estivesse consciente de muita coisa eu ainda não conseguia escrever, pelo menos não o que não soasse como qualquer bobagem descartável. Já passavam das 11 da manhã quando desisti. Vesti minha roupa social como se fosse para a reunião de trabalho mais importante de toda a minha existência, peguei meus fones de ouvido e meu cigarro e saí. Peguei o ônibus e coloquei uma das minhas playlists existenciais que nem sempre eu ouvia. As pessoas pareciam em estado de espera, os olhos inexpressivos ou distraídos demais pra mostrar algum brilho, um trajeto triste e cheio de pessoas existencialmente sozinhas naquele momento. Pensei um pouco sobre essa conclusão e tive medo de cair em soberba, como se eu não fosse um igual, e isso me fez questionar quantas outras pessoas ali estariam olhando pra mim e pensando exatamente a mesma coisa secretamente.
Desci na metade do caminho sem planejar de fato, não sabia para onde ir mas fui caminhando pela calçada, brincando de certa forma com um caminho que na verdade não importava. Ouvindo as músicas da playlist e caminhando, eu comecei a reparar nos carros, nas pessoas apressadas e na natureza que também seguia seu curso inabalável, ainda que o ser humano tentasse sufocá-la de qualquer forma. Curiosamente depois desse pensamento eu acendi um cigarro, acho que temos um dispositivo de autodestruição embutido, mas naquele momento isso não me incomodou. Desci algumas ruas, subi outras, ouvi muitas músicas e passei mais de uma hora e meia caminhando por aí, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. De repente senti vontade de ter alguém pra visitar, alguém que eu pudesse apenas aparecer sem preocupação, mas fazia muitos anos que eu não tinha isso de jeito nenhum, a vida não funcionava dessa forma. Me senti uma pessoa desafortunada e logo após me censurei por isso. Parei em algum lugar e almocei como se fosse um escriturário ocupado e cansado do primeiro turno, depois tomei uma cerveja bem gelada, paguei a conta e fui embora.
De uma hora pra outra eu já não queria mais apenas andar por aí, queria um propósito na minha caminhada, uma finalidade, um ponto de encontro, uma linha de chegada. Não sabia pra onde ir, não sabia o que fazer. Mandei mensagem pra um amigo de longa data que eu não via faz um certo tempo e ele me respondeu, mas não era um sentimento que me preenchia. Eu odiava isso na tecnologia, ela me aproximava e me afastava das pessoas que eu amava porque era fria e incômoda, em um formato retangular e com luzes de néon que me traziam ansiedade. Desisti de conversar por ali e isso me fez sentir como um grande impostor inanimado. Ainda ouvindo música e tomado de uma urgência súbita deixei meu pés rápidos me levarem pelas ruas e calçadas em suas direções guiadas pelo costume da convivência. Peguei ônibus, metrô, fui mais longe do que imaginei que iria, comprei três long-necks e um suco natural pra viagem e depois de mais 20 minutos bati numa porta que me era familiar mas que eu não via faz tempo.
Não me apressei em bater mais de uma vez, mas senti uma euforia e ansiedade crescentes no peito. Eu não sabia mais nada além do que eu tinha feito, e não sabia o que isso poderia me render. Ouvi passos não tão rápidos e finalmente a porta foi aberta, revelando um rosto familiar e um coração acelerado, mas feliz em meu interior.

- Oi.
- Régis? Nossa, quanto tempo, que surpresa!
- Desculpa aparecer assim sem avisar, você tá ocupada?
- Olha, geralmente eu tô, mas hoje, pra sua sorte, não. - Disse com um sorriso tão antigo aos meus olhos quanto caloroso. No fundo me culpei por ter aparecido sem aviso prévio, mas já tinha ido longe demais pra fingir que não queria ficar.
- Mas e aí, a que devo essa visita?
- Na verdade eu não sei direito, eu meio que... apenas vim te ver.
- Bom, então entra aí, eu tenho umas coisas pra fazer, mas só mais à noite.
- Eu trouxe cerveja pra mim e um suco natural pra você.
- Ah, seu fofo! Vamos lá pra varanda! Mas e aí, me conta como é que você tá, eu senti saudade de você esses dias, acredita?! Mas fala aí, o que você tem feito?
- Então, ultimamente eu tava mais em casa e...

Sentado na varanda dela, tomando minha cerveja e fumando meu cigarro, ela tomando o suco natural e fumando maconha, eu de sapato e ela de chinelo, me senti descolado da realidade, em um tipo de momento atemporal, em uma velocidade própria, particular. Eu não era um escritor, não era um executivo, não era um filósofo ou um pensador, e nem de longe era tão complexo quanto minhas ações talvez sugerissem, mas eu tinha uma amiga e era um amigo. Quando nossos olhares se trocaram entre palavras de reencontro me senti estranhamente sem questionamentos, no que eu acreditava ser algo muito próximo da paz.

16 setembro 2022

Carta ao meu eu imaginário.

Podemos ser melhores ou piores se quisermos
Para cada alternativa haverão dores
Podemos não ser nem um nem outro também
Haverão derrotas e vitórias para tudo
Não sei se quero saber o que sou
Não sei se quero saber quem somos
Nos rotular pode vir a trazer nosso final
É cansativo se colocar nesse lugar todas as vezes
O lugar do entendedor, do racional
O lugar daquele que busca algo materializado em sua mente
Daquele que é ciente de todas as consequências
Que leu o manual completo
Que entende das engrenagens e do efeito cascata
Acho que tudo que eu quero saber por hoje
É que podemos ser, indiscriminadamente podemos
Se seremos ou não o que quer que possamos vir a ser
Não nos cabe esmiuçar ou decifrar
Lhe peço que dessa vez apenas sinta comigo
Nossos trejeitos, sinais e olfato
Nossos corações descompassados em contato
Nossos olhos de cores diferentes
Nossos detalhes tão determinantes pra nos amarmos
Apenas desejo que dêmos as mãos
E saibamos que seja lá o que for, podemos ser

15 setembro 2022

Das coisas que transbordam do meu ser.

O mundo lá fora é rápido, luminoso e barulhento demais, e mesmo durante a noite as luzes artificais preenchem minha vista não importa aonde eu esteja. Me cansei de ser alguém tão sensível, mas quando a insensibilidade me toca sinto o desconforto dos meus movimentos tão pesados e lentos quanto estariam embaixo d'água, me lembrando do frio e das marcas de gelo que ficaram na fundação do meu eu, das queimaduras que esse gelo causou em minha pele, e em como ser vazio me entristece. A questão, ou uma das questões é que ser repleto me exaure. Não chega a ser uma problemática eterna, mas é uma constatação por vezes inquietante embora inerente ao meu ser. Quando caminho devagar e sinto todas as minhas sombras conversarem comigo eu compreendo que sou tão complexo quanto acredito que poderia ser, e de repente o som da chuva que cai se confunde com os ruídos da minha cabeça e se misturam em um som muito único e inexplicável, criando um estado de consciência acima do que eu chamaria de minha percepção sensorial natural. Agora eu nem sei mais exatamente o que dizer ou como descrever, mas é extremamente singular e tangível. Nesses momentos eu me acho uma pessoa muito complicada, às vezes nem eu me entendo, nem eu me explico, então continuo caminhando devagar seja lá pra qual for o meu destino e deixo a chuva cair. Certas vezes o ruído fica tão alto que vai embora. Certas vezes fica tão baixo que é tudo que há pra se ouvir.

07 setembro 2022

Summer is for falling in love.

We could drive along an ocean reflecting the sun
Or make a bed of green atop a wide open scene
Under a canvas of blue
I would draw ever nearer to you
To feel the dew on your skin
That is how it would begin
For summer is for falling in love

We could stay out late until the sun sets past eight
And the cotton candy haze mirrors the warmth of your gaze
Raise your glass to mine and as we drink, we would lock eyes
So we could disregard the thought of ever having to part
For summer is for falling in love

This lightness of being
We both know to be fleeting
Like the last breath of a sunset
Right before the day is dead
But maybe the heat of today
Could keep even winter away

So I'll remember your laugh
'Cause nothing ever changes the fact
That summer is for falling in love
Summer is for falling in love... 🌸
.
.

Sarah Kang

02 setembro 2022

Uma daquelas sensações passageiras.

Às vezes eu tenho a sensação de que nada interessante de verdade nunca mais vai acontecer na minha vida. Que minha fase de descobertas passou pra tudo, que nunca mais terei primeiras experiências, que me tornei um adulto chato, dependente e previsível, que meu relacionamento é parado como um lago desabitado. Sinto falta de ser mais espontâneo e simplesmente fazer as coisas, beijar na boca, transar, sair por aí e beber outras bebidas, lidar com o que tiver que lidar quando tiver que lidar, sem calcular ou prever nada. Mas acho que eu simplesmente não sou mais assim.

Preâmbulos e divagações.

Difícil entender por completo a complexidade da minha mente, das pessoas e do mundo ao meu redor. É um paradoxo que pode ser simples e também muito complicado. Muitas vezes eu me sinto deslocado da realidade dos meus cinco sentidos, entorpecido e inerte, como se caminhando em gravidade zero, devagar e não mais inexpressivo que uma pétala levada pelo vento. Tudo que me rodeia é tão tridimensional quanto eu, mas em certos momentos tudo que eu quero é ser tão líquido quanto a água da chuva que eu considerava tão mais divertida e bem-vinda quando criança. Não sinto que consigo expressar com exatidão em palavras esse arame farpado emaranhado de sensações físicas, emoções e sentimentos. É tão fugaz quanto cada passo de qualquer um e tão eterno quanto o looping da rotina existencial que nos é inerente. Me sinto dormente por dentro, entorpecido, me movendo contra as ondas pesadas do ar, enfrentando a luz do dia com a mesma bravura que me faz conviver com minhas sombras e reflexos estampados nos olhos de quem se atreve a me acolher em seu olhar. Ser um ser humano definitivamente não é simples, o ponto final nunca é o que deveria ser, e caso seja, criemos outro significado. De preferência um mais conclusivo.

Registro de uma madrugada alcoólica.

De tempos em tempos sou tomado por um desejo de entender o vazio. O vazio de tudo, de sentimentos, pensamentos, de ética e moral, o vazio dos sentidos, do som e das pessoas ao meu redor. Queria ficar completamente sozinho, num vazio dentro de mim, no vazio exterior, sem precisar de ar pra respirar, caminhando e contemplando tudo que existe despudoradamente, sem interferir, sem interagir, apenas observar e comhecer do invólucro que seria o meu vazio tão imaculado e inexplicável. Não refletir, mas sim observar, sem exatamente me surpreender, sem saber o que é medo, com um tempo infinito a meu dispor. Entrar no mar e contemplar cada parte, caminhar até o verdadeiro fundo do mar e conhecer tudo que há lá. Entrar em vulcões, tempestades, ir ao centro da Terra e caminha pelo universo, pelas constelações, luas, sóis e buracos negros. Saber a verdade por vê-la do meu vazio, com uma noção de tempo totalmente inexplicável aos olhos e entendimento humanos. Entender o vazio por sê-lo em essência, caminhando pelas dobras da própria criação. Ser e não ser ao mesmo tempo, tão imaginário quanto real. O vazio mais indescritivelmente inexplicável. Fora de tudo, e portanto, fora de suas regras e leis, fora da lógica, mãos nos bolsos, olhos de rapina que enxergam além da vida e da morte. Tudo e nada que não é humano.

15 junho 2022

Percepção da realidade.

Não posso evitar de ter pensamentos existenciais ou percepções diferentes durante o sol poente ou a madrugada fria. Olho para o meu entorno e nada parece real. Me sinto deslocado da especificidade daquele momento ordinário, descolado sensorialmente a nível de consciência, mas meio preso fisicamente, confinado num casulo científico que limita meu entendimento de sensações. Esses são provavelmente o momentos mais aterrorizantes e lindos da minha vida como indivíduo da minha própria vida. É como correr sabendo que você não vai cansar, sabendo que não haverão cãibras, sem precisar aquecer, como praticar um esporte sem pensar em mais nada limitante porque seu limite ainda é muito distante de um vislumbre. A percepção de tudo passa a ser diferente, nada pode ser tão mágico e irreal, mas também tão esclarecedor dos cinco sentidos da realidade. E o que é na verdade a realidade? Se mesmo sabendo que posso correr fico ofegante. Quanto tempo será que eu tenho? O que estou fazendo da minha vida?
Eu não sei responder e acho que são poucas as pessoas capazes de compreender o que de fato quero dizer aqui das profundezas do meu ser. Eu fico ofegante sem correr, o coração acalera, mais um lance, mais uma jogada, um chute, uma chance, mais uma finta, outra linha, mais um freestyle de poesia, um momento pra ser tudo que eu queria. Esse piscar de olhos de confusão e expressividade pode ser o verdadeiro mundo real, quente e vermelho feito rosas sob o sol, como sangue bombeado, mas eu vivo rodeado de um lago azul tão líquido quanto congelado... tenho de lidar com os dois, vejo nisto meu legado.

17 maio 2022

Permitir.

É tão distante quanto ontem
Meu olhar daqui ao horizonte
Não pude perceber
Mas vou me arrepender
Nada irá mudar

Durante a minha caminhada
Eu me confundo com a própria estrada
E não vou renascer
Tampouco vou morrer
Estações vão passar

Mas mesmo entre a madrugada
Sei que há luz na lua prateada
Se eu precisar correr
Andar ou espairecer
Terei meu lugar

E até quando eu cair
Chorando eu vou sorrir
Sei que vou chegar

13 abril 2022

Barulhos estranhos no meio da noite.

Eu acho que algumas vezes eu despejo muita coisa nas pessoas à minha volta, mesmo sem querer. Mais inquietante que isso, às vezes mesmo que elas não queiram ou tenham algum tipo de prévio aviso. No fundo eu sou um cara de essência melancólica e talvez eu não lide tão bem com isso quanto já cheguei a crer.
Tenho uma sensação não tão frequente mas muito forte de que eu não deveria ser assim, e acredito no fundo que poucas pessoas entendem esse meu lado, principalmente porque não é um lado interessante de liberar e eu sinto uma certa vergonha disso. Tenho na minha cabeça que ninguém tem obrigação moral ou sentimental de me ouvir irrestritamente quando eu tenho vontade de falar, as coisas precisam de contexto e acho que é meu dever trabalhar essa ideia dentro de mim.
Não acredito que eu seja uma pessoa tão pesada ou ruim, também não acho que ninguém é tão bom assim, não é bem uma sentença que estou dando, mas talvez seja um lembrete pessoal de que eu também preciso de ajustes, e que preciso controlar meus ímpetos emocionais voláteis como todo mundo faz ou tenta fazer.
Me apaixono por outras pessoas e suas relações humanas comigo muito intensamente e lido mal com a ideia de que algumas dessas interações são e serão passageiras, me apego a elas e não quero deixá-las, quero sempre acumular cada uma delas e fico frustrado quando percebo que não posso nem tenho meios de controlar isso. Me declaro por isso, mas acho que ao próximo isso não é confortável, o que dá uma sensação honesta de embaraço, e nessas horas sinto vontade de não falar com mais ninguém que eu conheça.
Não acredito que eu tenha de ser perfeito, e agradeço sempre pelas pessoas que ainda permanecem em minha vida porque querem e não porque a rotina as obriga, é só que às vezes eu me sinto mal como todo mundo, acho que eu tenho esse direito, só preciso canalizar melhor minhas formas de externar isso, e mesmo com algum remorso acho que pensar sobre isso é um caminho.

Lidar comigo mesmo é trabalhoso, leva tempo.
Eu sou um cara emotivo.
Aos que se cansaram, eu compreendo.
Pela paciência, eu agradeço. Aos outros e a eu mesmo.

29 março 2022

A calma melodia de uma linda primavera imaginária.

 Às vezes me sinto desconectado do que possuo ao redor, e na verdade não sei nem dizer se possuo ou se estou aqui meramente por detalhe de ponto de vista. Tudo é tão diferente do que eu queria certas vezes, é como enxergar através de uma lente imaginária que distorce ou embaça sem que eu possa escolher. As paredes e arquitetura ao meu redor não parecem reais e não quero estar nelas. Imagino ruas calmas e modestas, com tijolos pequenos de pedra e concreto, árvores de folhas e flores verdes e rosas que denunciam as estações como um termômetro natural. Casas de madeira e tijolos, com cercas baixas e quintais ou varandas de sobrado, com telhados triangulares de telhas vermelhas. Uma divisão entre a paz e o moderno, nem longe nem perto de ambos, como numa linha imaginária que me garante um bom retorno do trabalho nada grandioso e bastante ordinário no qual sou feliz porque me deixa viver bem e tranquilo. Me vejo sem um celular por perto, com alguns poucos amigos que me visitam sem pressa e que tem tempo de ficar ou de ir embora, com o som de músicas calmas que toca não muito alto por toda a casa. Acordes de violão despretensiosos e o sol do fim de tarde batendo na varanda, esquentando meu coração leve e calmo. Vejo meu cigarro e minha cerveja, mas os vejo diferentes, sem a pressa que eles tem, sem o cheiro e o gosto de tardes nubladas embaixo de um toldo no meio do cinza. Imagino tudo mais leve e sem piadas ou reclamações a todo momento, banhos quentes no escuro e no silêncio antes de escolher se durmo ou ainda não. Imagino a liberdade de poder observar o bairro dormir sob luzes públicas de média intensidade, e uma sensação de segurança e pacatez que é real e muito duradoura. Poder não pensar sempre em dinheiro e não sentir angústia de urgência, poder respeitar e ser respeitado por todos, pelas pessoas, amigos, pela rotina e viagens, pelas folgas e pelo expediente, pela vida que pude escolher viver. A coexistência pacífica, o ordinário como parte do que é bonito e natural, entre cidade e natureza, entendendo que a liberdade nunca é maior do que quem a possui. Imagino uma vida onde é possível sorrir apenas quando se sente vontade, onde não preciso escolher por fazê-lo, porque não podemos conscientemente criar a mágica disso. Ter a simplicidade de entender e vivenciar que isso acontece no momento em que nos deixamos levar, quase como adormecer sem de fato tentar.