05 outubro 2022

Capítulo de um dia real.

Acordei me sentindo cansado e um pouco catatônico. Ultimamente isso vinha me acontecendo com certa frequência, e eu nunca sabia dizer se era pela paralisia do sono, por eu beber pouca água ou porque de alguma forma eu sentia que apenas não tinha nascido moldado para dormir direito. Mesmo dormindo tarde eu consegui acordar pela manhã, desorientado e sem muita perspectiva. Não que eu não tivesse meus compromissos, minhas datas e obrigações, mas também não era como se minha vida fosse a mais ocupada. Na verdade, eu já havia tido períodos muito mais ativos socialmente e isso me preocupava muito de vez em quando.
Levantei da cama e abri a veneziana pra olhar o clima. Era um dia nublado, um pouco frio, mas nada absurdo. Hoje era um daqueles dias em que eu não sabia exatamente o que fazer, principalmente pra me sentir útil, funcional. Troquei de roupa, fiz minha higiene matinal e comi um pão já não tão fresco, mas ainda bom o suficiente. Sentei na frente do computador com um chá quente e encarei a página em branco do editor de texto. Fazia tempo que eu tentava escrever e não conseguia. Eu não era um escritor, mas aspirava ser, e havia decidido escrever o que quer que fosse pelos próximos meses, mas quase nada saía desse pacto que fiz comigo. Antigamente eu conseguia escrever qualquer coisa que não necessariamente tivesse profundidade real pra mim, mas conforme fui crescendo isso se tornava cada vez mais inviável. Eu não via mais a escrita como um mero mecanismo de desabafo quando se tratava do que eu escrevia, mas sim como uma arte a ser desenvolvida e respeitada. Cada segundo era relevante. Cada minuto uma nova história. Era parte do tudo que me definia como um indivíduo capaz de ser mais do que alguém ligado no piloto automático da vida.
Piloto automático, minha ex-psicóloga me alertara muitas e muitas vezes contra àquilo, mas ainda que eu estivesse consciente de muita coisa eu ainda não conseguia escrever, pelo menos não o que não soasse como qualquer bobagem descartável. Já passavam das 11 da manhã quando desisti. Vesti minha roupa social como se fosse para a reunião de trabalho mais importante de toda a minha existência, peguei meus fones de ouvido e meu cigarro e saí. Peguei o ônibus e coloquei uma das minhas playlists existenciais que nem sempre eu ouvia. As pessoas pareciam em estado de espera, os olhos inexpressivos ou distraídos demais pra mostrar algum brilho, um trajeto triste e cheio de pessoas existencialmente sozinhas naquele momento. Pensei um pouco sobre essa conclusão e tive medo de cair em soberba, como se eu não fosse um igual, e isso me fez questionar quantas outras pessoas ali estariam olhando pra mim e pensando exatamente a mesma coisa secretamente.
Desci na metade do caminho sem planejar de fato, não sabia para onde ir mas fui caminhando pela calçada, brincando de certa forma com um caminho que na verdade não importava. Ouvindo as músicas da playlist e caminhando, eu comecei a reparar nos carros, nas pessoas apressadas e na natureza que também seguia seu curso inabalável, ainda que o ser humano tentasse sufocá-la de qualquer forma. Curiosamente depois desse pensamento eu acendi um cigarro, acho que temos um dispositivo de autodestruição embutido, mas naquele momento isso não me incomodou. Desci algumas ruas, subi outras, ouvi muitas músicas e passei mais de uma hora e meia caminhando por aí, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. De repente senti vontade de ter alguém pra visitar, alguém que eu pudesse apenas aparecer sem preocupação, mas fazia muitos anos que eu não tinha isso de jeito nenhum, a vida não funcionava dessa forma. Me senti uma pessoa desafortunada e logo após me censurei por isso. Parei em algum lugar e almocei como se fosse um escriturário ocupado e cansado do primeiro turno, depois tomei uma cerveja bem gelada, paguei a conta e fui embora.
De uma hora pra outra eu já não queria mais apenas andar por aí, queria um propósito na minha caminhada, uma finalidade, um ponto de encontro, uma linha de chegada. Não sabia pra onde ir, não sabia o que fazer. Mandei mensagem pra um amigo de longa data que eu não via faz um certo tempo e ele me respondeu, mas não era um sentimento que me preenchia. Eu odiava isso na tecnologia, ela me aproximava e me afastava das pessoas que eu amava porque era fria e incômoda, em um formato retangular e com luzes de néon que me traziam ansiedade. Desisti de conversar por ali e isso me fez sentir como um grande impostor inanimado. Ainda ouvindo música e tomado de uma urgência súbita deixei meu pés rápidos me levarem pelas ruas e calçadas em suas direções guiadas pelo costume da convivência. Peguei ônibus, metrô, fui mais longe do que imaginei que iria, comprei três long-necks e um suco natural pra viagem e depois de mais 20 minutos bati numa porta que me era familiar mas que eu não via faz tempo.
Não me apressei em bater mais de uma vez, mas senti uma euforia e ansiedade crescentes no peito. Eu não sabia mais nada além do que eu tinha feito, e não sabia o que isso poderia me render. Ouvi passos não tão rápidos e finalmente a porta foi aberta, revelando um rosto familiar e um coração acelerado, mas feliz em meu interior.

- Oi.
- Régis? Nossa, quanto tempo, que surpresa!
- Desculpa aparecer assim sem avisar, você tá ocupada?
- Olha, geralmente eu tô, mas hoje, pra sua sorte, não. - Disse com um sorriso tão antigo aos meus olhos quanto caloroso. No fundo me culpei por ter aparecido sem aviso prévio, mas já tinha ido longe demais pra fingir que não queria ficar.
- Mas e aí, a que devo essa visita?
- Na verdade eu não sei direito, eu meio que... apenas vim te ver.
- Bom, então entra aí, eu tenho umas coisas pra fazer, mas só mais à noite.
- Eu trouxe cerveja pra mim e um suco natural pra você.
- Ah, seu fofo! Vamos lá pra varanda! Mas e aí, me conta como é que você tá, eu senti saudade de você esses dias, acredita?! Mas fala aí, o que você tem feito?
- Então, ultimamente eu tava mais em casa e...

Sentado na varanda dela, tomando minha cerveja e fumando meu cigarro, ela tomando o suco natural e fumando maconha, eu de sapato e ela de chinelo, me senti descolado da realidade, em um tipo de momento atemporal, em uma velocidade própria, particular. Eu não era um escritor, não era um executivo, não era um filósofo ou um pensador, e nem de longe era tão complexo quanto minhas ações talvez sugerissem, mas eu tinha uma amiga e era um amigo. Quando nossos olhares se trocaram entre palavras de reencontro me senti estranhamente sem questionamentos, no que eu acreditava ser algo muito próximo da paz.

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