A noite ia alta, e eu não conseguia dormir, embora estivesse com sono. Alguma coisa parecia fora do lugar habitual, mas eu não sabia bem o quê. Ainda assim, não me sentia alarmado, era uma sensação curiosa. Levantei e resolvi fumar um cigarro. Saí de casa, caminhei um pouco e sentei no chão mesmo. Ao me sentar percebi que não tinha calçado os sapatos, estava de meias. Me censurei mentalmente, mas permaneci onde estava e acendi o cigarro. Fumei demoradamente, e durava a sensação de que algo estava diferente, mas eu não conseguia entender o que era. Por alguma razão aquela charada não estava me chateando, mas não conseguia descobrir a resposta para ela. Terminei meu segundo cigarro e resolvi que era hora de voltar quando uma leve brisa soprou, gentil e refrescante contra meu corpo, e senti um perfume. Era isso. Surpreso, percebi que ainda estava usando a camiseta com o perfume dela. Imediatamente deixei a fragrância invadir meus sentidos, anestesiando minha consciência rígida, deixando espaço para minha gentileza. De repente uma calmaria sobrenatural se fez ao meu redor. Não importava a hora que eu teria de acordar amanhã, e em vez de levantar me deitei no chão, encarando a imensidão do céu noturno.
Surpreendentemente haviam muitas e muitas estrelas visíveis, e pouquíssimas nuvens próximas da lua. Era uma daquelas noites em que poderíamos sentir felicidade por viver. Pensei nela e em como ela tinha feito eu lembrar o quanto gostava de apreciar o céu. Estrelas e sua mágica, certas vezes representavam pra mim nada mais que o brilho de uma vida já extinta, mas agora eu via uma série de particularidades, via histórias, ecos mudos retratados pela luz do inesquecível. Em qual momento cada uma daquelas estrelas havia surgido, e de que forma? Quando será que haviam sucumbido e explodido, tornando-se nebulosas, buracos negros, e fazendo parte de novas constelações como algo totalmente diferente? Teria forma mais bela de fazer-se lembrar pela luz que emana de si? Se havia, eu não tinha conhecimento. De certa forma, eram como ela, que irradiava um calor confortável e aconchegante, tornando-se o tipo de pessoa que qualquer um gostaria de se aproximar.
Eu continuava olhando as estrelas e imaginando formas e histórias, ainda sentia o perfume dela, e desejei que ela estivesse deitada comigo, observando também. Sorri. A sensibilidade lhe era primordial, tanto quanto a inteligência e a beleza, eu admirava tudo isso em seus trejeitos. De fato, agradeci por tê-la conhecido. Ela me lembrava arte, não apenas por sua aparência, mas pela essência inconfundível que somente ela sabia como externar sem realmente sabê-lo. Era maravilhosa, transmitia nos olhos castanhos e no sorriso esplendoroso a honestidade de quem se faz importante por não planejar sê-lo. Era, sem dúvida, uma obra de arte.
De repente acordei. Era como se tivesse dormido de olhos abertos, em meu devaneio particular, e levantei olhando o céu. Era realmente uma noite agradável. Voltei pra casa e deitei em minha cama. O corpo finalmente dava sinais que me deixaria adormecer. Sorridente, pensei nas estrelas e senti novamente seu perfume. Realmente, não importava a hora que eu teria de acordar amanhã.
23 novembro 2017
12 abril 2017
Impressão.
Sozinho, percebo o silêncio ao redor. O mundo exterior pode ser desolador e infértil.
Dentro de mim, entretanto, há uma batalha entre opostos, e mesmo paralisado, fujo de explosões sonoras, me escondendo nos destroços das máscaras que criei. Inerte, e ainda assim sentindo o vento cortar meu rosto, a velocidade da queda aumentando a cada respiração. A queda, porém, já se concretizou. Vivo num momento atemporal, e percebo que minhas asas não voam mais. Tão negras quanto a noite, sangram lentamente, feridas negadas, e agora o horizonte é impossível de alcançar.
Ao longe vejo uma borboleta. Ela voa despreocupadamente, dançando entre as cores do poente, e tento tocá-la, mas não consigo. Ela não faz mais parte de mim, e não será minha companheira. Talvez conhecê-la tenha sido meu único presente, tenho que aceitar. O sangue goteja, suja minhas roupas, e a dormência toma conta de minhas veias, o torpor invadindo a consciência, meu placebo, minha morfina, lépida e mortal. Encaro o céu, a borboleta me rodeia, mas nunca se aproxima ao meu toque, como uma espectadora cautelosa, e sorrio ao constatar: inteligente.
Levanto com alguma dificuldade, e caminho entre tropeços. Não posso mais voar, não tenho forças pra correr, mas vou caminhando, passo após passo, em direção ao mar, o corpo dolorido, os pés cansados. A tontura é corriqueira, a névoa que espiro também. O que estou fazendo com a minha vida? Não tenho resposta pra isso, e paro de caminhar quando a chuva começa a cair. Sinto dor, sei que minhas asas, cedo ou tarde, vão se desprender de mim, me abandonar. Sei que sou destrutivo e infeliz, mas não posso conceber a ideia de morrer, embora eu já não queira mais viver.
De alguma forma a borboleta ainda me segue, mas eu continuo a cair, de novo e novamente, e eu sei que estou sozinho. Estou desaparecendo. E sempre estarei sozinho.
Dentro de mim, entretanto, há uma batalha entre opostos, e mesmo paralisado, fujo de explosões sonoras, me escondendo nos destroços das máscaras que criei. Inerte, e ainda assim sentindo o vento cortar meu rosto, a velocidade da queda aumentando a cada respiração. A queda, porém, já se concretizou. Vivo num momento atemporal, e percebo que minhas asas não voam mais. Tão negras quanto a noite, sangram lentamente, feridas negadas, e agora o horizonte é impossível de alcançar.
Ao longe vejo uma borboleta. Ela voa despreocupadamente, dançando entre as cores do poente, e tento tocá-la, mas não consigo. Ela não faz mais parte de mim, e não será minha companheira. Talvez conhecê-la tenha sido meu único presente, tenho que aceitar. O sangue goteja, suja minhas roupas, e a dormência toma conta de minhas veias, o torpor invadindo a consciência, meu placebo, minha morfina, lépida e mortal. Encaro o céu, a borboleta me rodeia, mas nunca se aproxima ao meu toque, como uma espectadora cautelosa, e sorrio ao constatar: inteligente.
Levanto com alguma dificuldade, e caminho entre tropeços. Não posso mais voar, não tenho forças pra correr, mas vou caminhando, passo após passo, em direção ao mar, o corpo dolorido, os pés cansados. A tontura é corriqueira, a névoa que espiro também. O que estou fazendo com a minha vida? Não tenho resposta pra isso, e paro de caminhar quando a chuva começa a cair. Sinto dor, sei que minhas asas, cedo ou tarde, vão se desprender de mim, me abandonar. Sei que sou destrutivo e infeliz, mas não posso conceber a ideia de morrer, embora eu já não queira mais viver.
De alguma forma a borboleta ainda me segue, mas eu continuo a cair, de novo e novamente, e eu sei que estou sozinho. Estou desaparecendo. E sempre estarei sozinho.
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