E então, qual é a sensação? De estar a centímetros do prêmio, com os dedos esticados, e não conseguir tocá-lo, de olhar o cais e saber que são algumas braçadas de distância mas não saber nadar? Qual é a sensação de olhar por cima do ombro e sentir que sua sombra te persegue com más intenções, de ser engolido pelo chão, como a presa na boca de um lobo sanguinário, e sentir sua pele ser transpassada, arranhada e empalada por todos os espinhos desse mundo? Qual a sensação de compreender que sua cabeça é sua prisão, que seu coração é seu refém, e que você só obedece aos seus impulsos mais vis e autodestrutivos? De caminhar entre pedaços de corpos e detritos em chamas no solo infrutífero que é seu próprio resultado? Qual a sensação de ter o nome de um rei e involuntariamente ser seu próprio regicida, sorrindo com a carnificina do seu próprio corpo? De se machucar até ver sangue escorrer simplesmente porque sabe que pode fazê-lo? De ser impiedoso e cruel quando tudo que você precisa é abraçar o reflexo no espelho, mas se odiar tanto que sempre o quebra com o silêncio dos seus próprios gritos internos? De ser um monstro e tremer de medo da sua própria voz? E então, qual é a sensação?
13 dezembro 2024
12 dezembro 2024
Sessão gritos inaudíveis #14
Queria voltar pra minha infância, nem que fosse por apenas um dia. Eu sei o que dizem, é culpa da nostalgia, não era tão bom assim, entendo isso. Mas seria. Seria porque quando eu era criança eu não sabia o conceito do que significava ser feliz, eu apenas sentia. Eu era inocente e brincava e sorria sem nenhum peso no meu coração jovem, e eu queria voltar pra isso nem que fosse por um momento.
Hoje as coisas mudaram. Na verdade mudaram há muito tempo. Minha vida é um retalho maltrapilho de alguém que um dia já fui, vivo parado, estagnado, não faço nada nem tenho nada. Eu apenas trabalho, bebo e fumo. A verdade é que conforme os anos passam eu vou ficando cada vez mais triste e desesperançoso, me sentindo deslocado e vazio de momentos que me preencham positivamente, e me sentindo mais repleto de conflitos, paranóias, tristezas e angústias. Até quando tento fazer as coisas do jeito certo acaba saindo tudo errado, se eu bebo, tenho ressaca, se eu fico em casa, não durmo, e é mais ou menos por essa linha praticamente sempre. Infelizmente também acredito que não acho mais ninguém pra estar ao meu lado. Eu não me arrependo, principalmente porque sei que ela foi ou será em algum momento a maior beneficiada disso tudo, mas sei que a última pessoa que achei foi uma sorte minha que eu não darei de novo. Inclusive ela estava, está e continuará melhor do que eu, porque sempre foi melhor do que eu, e no fundo eu sei que eu sou só numa grande tempestade, um eterno dia nublado de chuva. E tudo bem. Sério, sobre isso tá tudo bem. O lance é que eu não acho mais ninguém não, eu esgotei isso. Na realidade eu sinto que esgotei muitas coisas, e por isso mesmo fico com a sensação de que não devo me aproximar demais dos outros.
As duas únicas pessoas que eu quis conhecer esse ano pareciam tão legais, tão bem e centradas, que eu simplesmente me afastei. De alguma forma eu sei que estou ajudando ao fazer isso, porque tudo dentro de mim é tão cheio de coisas ruins que nem seria justo trazer alguém aqui pra dentro. Ninguém tem nada a ver com isso, e se eu me sinto opaco e solitário, se eu me sinto sem amor e irremediável, isso é um problema unicamente meu. Azar o meu. No fim das contas, tô percebendo que daqui ao fim da minha vida eu serei um adulto triste, solitário e depressivo, que não terá ninguém pra dar a mão e tentar sorrir nos dias mais difíceis, acho sinceramente que isso acabou pra mim, e que no máximo vou ficar preenchendo espaços de terra morta com lampejos de momentos vazios e transitórios, com pessoas que nunca vão ligar de fato pra quem sou eu. Me resta trabalhar, beber e fumar. Guardar algum dinheiro pra poder morrer com dignidade um dia, e sorrir quando me perguntarem como estou. Não sobrou muito pra salvar. A vida é uma série de portas se fechando, não é mesmo?