29 abril 2015
3 De Dezembro.
Às vezes, no silêncio das madrugadas, ouvia o mundo. Os fios de alta
tensão, os eletrodomésticos desligados, os passos vacilantes de alguém
chegando da festa, o som compassado da respiração de cada um que estava
dormindo. Ouvia tudo em um certo desespero, vozes eletrônicas desconexas
em sua cabeça, enquanto encarava o teto no escuro, quase num tipo de
cegueira. Que a manhã chegasse logo. Todo aquele som o ensurdecia.
15 abril 2015
#01 Falling.
Noites de Luar prateado, com Estrelas brilhantes trazendo vislumbres do
que já morreu. Dias nublados de Inverno, como o toque gélido de um beijo
indiferente em sua bochecha. O Vento é cruel, e corta o canto dos olhos
ao passar, corta os laços vermelhos como o sangue de suas veias, tão
mal escondidas sob a pele branca e azulada. Não há o que fazer fora
caminhar até a margem e contemplar o reflexo perturbado na beira do Lago negro e vítreo, tão pegajoso quanto o som de sua voz adocicada. Não há
como retroceder, ou coragem para nadar entre os segredos e cadáveres
guardados nas profundezas misteriosas desse Lago. Pare e observe. Neve cairá, recado das Nuvens durante
o dia, deboche das Estrelas durante a noite. Pode lamentar, mas não há
volta. Sinta seu desespero chegar como um sorriso malicioso, como a
chantagem de um criminoso passional. Morra lentamente pela hipotermia de suas próprias mentiras.
02 abril 2015
Just For The Record.
Se desfazer de suas próprias medidas de auto preservação é inquietante.
Por mais que as coisas permaneçam silenciosas, confiar é um peso.
Mostrar segurança diante desse peso é um desafio tão grande quanto
fingir que seus segredos não existem.
Permanente.
Às vezes me sinto claustrofóbico. Algumas coisas parecem apenas não encaixar, lacunas deixadas para a transição de lembranças incômodas demais, incômodas a ponto de eu racionalmente negar que existem sem sequer piscar. Pesadelos, corações partidos, dúvidas e listas invisíveis com nomes a culpar, tudo dentro de mim, correndo como um veneno por minhas veias já maculadas o suficiente. Às vezes respirar torna tudo mais pesado do que pareço conseguir suportar, e é quase como uma sensação física. É assim que sabemos quando devemos colocar nossas próprias medidas de precaução em desconfiança? É assim que percebemos os erros cometidos? É analisando tudo isso que se descobre uma maneira de não cometê-los? Ou isso tudo é apenas outra medida de precaução que nos faz perder tempo e que logo cairá em descrédito também? O conceito de evolução parece não se aplicar da forma correta em nenhum de nós, mas principalmente em mim. Nunca sei dizer se estou me tornando alguém mais eficiente, ou se estou apenas perdido em minhas visões pessoais de moralidade e culpa. A falta de lógica em meu reflexo me incomoda, mas por enquanto tudo que sei fazer é disfarçar, fazer parecer lógico. Talvez essa seja a grande permanência no comportamento humano: disfarce, encenação. De alguma forma eu sinto que preciso me esconder, então eu o faço. De certa forma, é isso que garante a minha sobrevivência. É, como a vida, inevitável. É, como a morte, permanente.
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