Não sei dizer quantas vezes senti estranheza do mundo que me cerca, e também quantas e quantas mais me senti vaidoso e culpado depois dessa estranheza. Aquele pensamento de que não nasci pra estar onde estou, e logo depois o pensamento de censura, que me condena e diz que eu devia agradecer de poder varrer o chão que piso. Vivo nessa disrritmia há tempo demais pra simplesmente aceitar ou apenas mudar. Faz parte de mim, é uma das capacidades intelectualmente profundas da natureza humana, uma daquelas coisas incríveis que apenas nós conseguimos, mas que exaure e que nos leva mais a comportamentos autodestrutivos do que a momentos de nirvana ou autoconhecimento. De alguma maneira sinto que se eu soubesse nadar, nadaria em círculos longos e perfeitos, cíclicos, um trajeto de tudo que fiz até agora de maneira instintiva, e talvez por isso eu tenha tanto medo de água e não queira aprender a nadar. Ao não lidar com um cenário em que me falta um elemento crucial para a sobrevivência, acredito exercitar sabedoria, mas ao mesmo tempo evito lidar com o que pode não me dar a resposta definitiva, mas que me daria mais elementos pra desenvolver novos cenários e trazer outros resultados. Isso é inquietante como ouvir jazz pela primeira vez, mas depois conforme nos adaptamos, aprendemos a entender o que ali se passa, tiramos algo bom ou minimamente interessante da experiência. Porém antes de tudo, foi necessário deliberadamente trazer esse novo sabor ao paladar, correr o risco de descobrir um novo desprazer, ou até mesmo descobrí-lo, mas aprender vagarosamente quais são os elementos que o tornam apreciável. Desse ponto de vista me vejo como um tipo de ser antiquado, leve demais pra se sustentar na base das fracas convicções que jurava serem tão entalhadas em pedras ancestrais. Eu não pertenço aqui e ao mesmo tempo tenho sorte de ser até permitido estar aqui. Sou muito frágil, megalomaníaco e humilde, deve ser por isso que meu corpo me deu de presente a miopia. Os ajustes que precisei fazer e dos quais sou refém pra ter o que muitos outros possuem tão naturalmente que sequer valorizam como talvez devessem me fizeram mais consciente. Ao mesmo passo, me tornaram mais capaz de entender como um ajuste nem sempre precisa ser profundo e traumatizante até a fundação do osso. Meu Deus, quanta presunção de minha parte, mas estou no meu direito, estou até melhor que muita gente por aí. Fale a verdade, nós somos, no mínimo, curiosos. Só não sei se perceber e abordar isso é o bastante pra nos salvar. Eu pelo menos tenho uma sensação cada vez mais vívida de que individualmente já estou condenado, e aí volto lá pro início do texto. Nadando em círculos, mas sem nunca me atrever a entrar no mar.
14 junho 2024
13 junho 2024
Sintoma.
Eu sou um traço de arritmia
Eu fico no espaço entre batidas
Esperando pra acelerar
Ou pra parar de bater um coração
Sou um sintoma
Venho pra dar início
Ou pra ser um ponto final
Mas eu não morro
Não importa o quanto eu tente
Eu nunca morro
Acho que é uma condição
Uma regra do meu sintoma
Quem morre geralmente
Não é quem eu desejo
Mas acredite, alguém sempre morre
11 junho 2024
Pura simplicidade de um sonho.
Num dia de sol ameno e céu aberto você caminhava despreocupada em passos felinos, tão precisos quanto silenciosos. Cabelos como um véu acariciado por uma leve brisa, e eu sentia seu perfume e o notava no ar como um rastro rosado que formava delicadamente um caminho até você. Num cenário em linhas de Van Gogh você se sentou na beira de um lago. Pétalas caindo vagarosamente. Não dizia uma palavra, mas parecia estar totalmente em paz. Talvez pela primeira vez desde muito tempo respirava devagar e sem ansiedade, serena como o movimento do lago que não lhe pagava com justiça a beleza de seu rosto e suas mãos que ajeitavam os óculos e mechas do cabelo. Eu te observava de perto, não podia dizer se dali eu fazia parte, se de mim estava ciente, mas não me atrevi a te erguer o tom de voz no som do teu nome, permaneci como estava. Você parecia feliz, lábios de morango num sorriso delicado, olhos de amêndoa encarando a miragem daquela tarde perfeita, sentada sem pressa de ir ou sair. Era como te observar dormir, como compartilhar um momento que não era realmente meu, mas do qual de alguma forma eu fazia parte. Se eu pudesse ficaria apenas ali... e assim acordei devagarinho.
Sessão gritos inaudíveis #08
Tenho sempre que ir além do mundo?