08 dezembro 2014

Quero Você.

Eu quero dias com você, quero deixar rolar, não evitar, andar na praça de mãos dadas sem me preocupar com nada, curtir o sol, olhar o céu, te dar o meu sorriso mais sincero em cada curva de um abraço. Eu quero um laço, o nosso enlaço, um olhar apaixonado a cada passo, viver romance eternamente, fazer do amor um livro a ser escrito lentamente.
Eu quero noites com você, quero te fazer rir, te olhar dormir, beijar tua boca, te deixar louca, aprender e ensinar, quero te ouvir falar que temos nossa história e trilha sonora, e quero agora. Quero só te admirar na luz do luar, calmamente traduzir o teu olhar, me declarar, dizer poemas, frases clichê, entender que minha vida é você.

06 dezembro 2014

Cenários...

Madrugada anormalmente silenciosa e fresca nesse Dezembro abafado. O tipo de madrugada que me faz desejar um café, um cigarro, e uma companhia com quem eu possa entrelaçar meus dedos.
Abro a janela e olho as nuvens que escondem o brilho das estrelas. O vento agradável refresca meu rosto desprotegido, quase como uma tentativa de criar um beijo inexistente. Consigo ouvir a melodia despreocupada em meus ouvidos, notas de piano que lembram dias de Outono inspiradores. Claro que não há quem me acompanhe, mas hoje consigo sorrir de qualquer forma. A melodia continua, a solidão também. Eu só queria alguém com quem eu possa entrelaçar meus dedos.
Madrugada fresca e perfumada, como uma garota de rosto delicado e nariz gelado, que só existe a frente de meu olhar melancólico. Acho que só resta me deixar levar por meus desejos inalcançáveis, ao menos até a madrugada ir embora e eu finalmente adormecer.

22 novembro 2014

Por Dias Amenos.

Não sou herói de nada
Parei de andar na estrada
Prefiro olhar a vista
É muito mais tranquilo.

Me cansei dos dilemas
Das mesmas desavenças
De toda a insegurança
Do que não tem sentido.

Quero somente minha viola
Aquelas mesmas notas
Um gole da cerveja
A sombra de um abrigo.

Um trago do cigarro
Um dia belo e calmo
E se eu tiver problemas
A mão de um amigo.

17 novembro 2014

11/11/2014

Quase oito da noite. Acendi um cigarro. O vento já me fazia sentir um pouco de frio, mas eu não queria ir pra casa. Não percebi quando ele chegou e sentou do meu lado.
- E aí, como anda a vida?
- Tudo na mesma.
- Continua na pior?
- Sabe como é, as mesmas dores, mas agora são outros amores.
- Tá gostando de alguém?
Abri outra cerveja, tomei um bom gole e dei uma tragada no cigarro, como que enrolando pra responder.
- Não é bem isso, - falei enquanto soltava a fumaça - eu tô sempre gostando de alguém, mas não é exatamente assim.
- Explica isso direito.
- Lembra daquela guria que eu gostava?
- E como não? Tu ficou quatro anos falando dela pra mim.
- Pois é, desencanei faz um tempo já.
- Porra, isso sim é um acontecimento! Mas o que pegou?
Olhei pro chão e contei sete long necks vazias. Dei um gole e suspirei devagar.
- Não pegou nada, só desencanei.
- E agora tá gostando de quem?
- Não é simples desse jeito.
- Lógico que é, você que complica.
- Eu gosto de alguém, mas ela meio que... não existe.
Acendi outro cigarro e fumei lentamente, deixando o silêncio reflexivo dele sobre o que eu dissera fazer efeito.
- Olha, você vai ter que ser mais claro, porque ou tu tá bêbado ou não sabe mais se expressar.
- Eu tenho um sentimento, mas não há realmente um alvo. Idealizo alguém que não existe, ou até existe, mas você sabe que eu nunca fui muito de procurar.
- "Nunca fui muito de procurar", você pode até enganar algumas pessoas com essa, mas eu não, deixa disso.
Terminei a long neck, acendi outro cigarro.
- Tá, você me conhece, mas tô dizendo, de uns tempos pra cá minhas cartas de amor vem do nada e vão pro nada. É sério.
- Sabe o que eu acho? Que você tá é ficando louco.
- Ué, por quê?
- Pra começar você tá aí sentado bebendo, fumando e falando sozinho mentalmente. Pensa nisso.
Pensei. O filho da puta tinha razão. Dei uma risada que não reconheci como minha e levantei.
- É, tô ficando louco mesmo.
- Beleza, agora que já esclarecemos isso eu vou te dar mais uma charada. Olha esse sentimento teu aí e me diz, quem é a dona do seu amor? Você é homem de quem?
Olhei o celular. Nove da noite. Hora de ir pra casa. Dei a última tragada, joguei a bituca pra longe e saí andando com as mãos nos bolsos.
- Sou homem de ninguém... - Falei em voz alta.

18 outubro 2014

Noites Inquietas.

"A Rosa que seduz nem sempre é bela".
Em outra vez tentarei crescer e aceitar que essa frase que eu escrevi aos 16 anos é tão real quanto possível; talvez até mais real do que o possível. Ela se aplica a qualquer tipo de coisa que tem algum tipo de significado nesse mundo. Nada do que nos cerca pertence a nós, e nós não somos especiais. E ainda assim somos donos de tudo, senhores de nossa própria maldição criada pelo querer de algo melhor. Ainda assim somos a individualidade que faz o conjunto ser importante de alguma forma misteriosa e mágica. Destino, caminhos, amores. É inacreditável. É quase inaceitável.
É irônico eu ter escrito uma frase desse tipo aos 16 anos, e não pretendo explicar por quê. Quero que cada um leia isso e imagine que tipo de significado essa frase pode ter ou não pra si. Pode ser uma boa frase, pode ser só um monte de besteira... exatamente como cada um de nós. Numa noite como essa eu só queria a companhia daquela guria de sobrenome alemão, quem sabe com uma dose de uísque ou de café, alguns cigarros e uma conversa sobre tudo que fomos, somos e seremos. Acho que às vezes o que queremos é somente isso: Uma noite com nossos vícios, não importa se bebidas, cigarros, ou pessoas.
"A Rosa que seduz nem sempre é bela".


Ainda assim ela é perfeita.

13 outubro 2014

*Ainda sem título*



Outra vez vou caminhando lentamente com as mãos nos bolsos, enquanto o vento frio cumprimenta meu rosto desprotegido. Estamos no inverno, mas o sol aparece entre algumas nuvens e prédios, esquentando ligeiramente meu corpo bem agasalhado. Atravessei um cruzamento e depois de mais algumas ruas cheguei ao Fran's Café, um café 24 horas em que costumo passar grandes partes das minhas horas matutinas. Sentei em uma das mesinhas redondas e aconchegantes na parte de fora do café, e logo uma moça de aparência simpática, com uma touca de proteção nos cabelos, e um avental azul escuro com o nome bordado veio em minha direção.
- Bom dia, senhor Christopher. O que vai querer hoje?
- Jess, eu venho aqui quase todos os dias a mais de um ano. Pode me chamar pelo meu primeiro nome... na verdade até prefiro assim.
- Eu sei, Lucas, só estava tentando te irritar. - Ela sorriu.
- Cada dia que passa você fica mais boba. - Sorri de volta.
- Eu faço o que posso. E aí, o mesmo de sempre?
- Sim, por favor.
- Você manda.
Depois que ela entrou novamente, me estiquei na cadeira e relaxei os músculos do pescoço. Olhei meu relógio, quase nove da manhã. Ela estava atrasada. Bem, ela sempre foi uma mulher de muitos compromissos e pouca pontualidade. O vento parou de soprar forte, então tirei meu blusão e o pendurei na cadeira. Ajeitei a gola alta da camiseta no pescoço, isto deveria bastar.
Em alguns minutos, Jess voltou, carregando uma bandeja com uma caneca fumegante de café preto, e um prato com dois croissants de chocolate. Colocou tudo na mesa e se afastou um passo enquanto abraçava a bandeja. Esperei que ela voltasse para dentro, mas ela não se moveu um centímetro sequer.
- Algum problema? - Apoiei meu queixo em uma das mãos e franzi a testa.
- Só um...
- Então, vamos a ele.
- Acha mesmo que eu trouxe tudo apenas por causa dos seus belos olhos castanhos?
- E o que você quer?
- Fora o dinheiro do pedido, acho que um 'obrigado' é suficiente. - Ela sorriu. Parecia estar se divertindo com a minha cara.
- Obrigado por este desjejum tão bem feito e tão saboroso, que você teve o sacrifício de me trazer. Serei eternamente grato! - Disse exageradamente enquanto fazia uma pequena mesura, mas sorri de canto. Ela riu.
- Agora está melhor. Posso voltar ao trabalho com o alívio de saber que alguém tããão importante assim é grato por meus serviços! - Ela realmente estava se divertindo com a minha cara. Mas ela fazia isso com alguma frequência, não me incomodava, na verdade me divertia.
- Você é um doce, Jess. - Acentuei com sarcasmo, semicerrando os olhos.
- Eu faço o que posso. - Disse fingindo jogar o cabelo com a mão enquanto voltava para dentro.
Peguei meu celular e abri o bloco de notas, bebi um gole do café, e comecei a tentar me inspirar. Depois de alguns goles e nada digitado, desisti e guardei o celular no bolso. De uns tempos pra cá era difícil escrever, mas isso era parte da coisa toda. Horas. Nove e vinte e cinco. Bem, eu não estava com pressa. Mas exatamente quando pensei nisso, uma mulher de botas marrons e casaco bege veio caminhando apressada de forma barulhenta. Já não era sem tempo. Ela me cumprimentou com um beijo rápido nos lábios e sentou em minha frente.
- Me desculpe pelo atraso, precisei dar uma passada no atelier pra ver algumas coisas.
- Tudo bem. - Eu não estava surpreso, Giovanna tinha o próprio ritmo.
- E então, você pediu algo para mim?
- Na verdade não, mas fique à vontade. - Apontei para o pequeno botão em relevo ao canto da mesa. Ela apertou e um minuto depois, Jess veio à nossa mesa com uma expressão moderada de tédio.
- Posso anotar seu pedido? - Ela perguntou com alguma indisposição.
- Hã... um capuccino e uma porção mini de pães de queijo.
- Só isso?
- Só isso, pode ir. - Ela acenou com a mão, mandando-a embora. Jess abriu a boca pra responder algo que com certeza seria de mau tom, então resolvi intervir.
- Por favor. - Eu disse olhando pra Giovanna.
- O que foi? Eu não disse nada demais.
- Às vezes você esquece de algumas coisinhas, tipo por favor e obrigado.
- Acho que isso valeu mais que um obrigado. Valeu, Lucas. - Disse com um sorriso triunfante enquanto ia preparar o pedido. Me ajeitei na cadeira para o que com certeza viria.
- Vai me humilhar em público agora?
- Você é quem está fazendo isso.
- Vai ficar do lado da garçonete em vez da sua namorada?!
- Era só um por favor...
- Isso não vem ao caso, você é meu namorado!
- Tá bom, desculpe, eu errei nisso, mas você também errou, não se trata os outros assim.
- Você não vai me irritar logo de manhã.
- Vamos tentar não nos irritarmos, então. Pronto, por favor.
Ela me olhou com um certo mau humor, respirou fundo e pegou um dos meus croissants de chocolate.
- Certo. - Disse enquanto mordia o croissant. - Na verdade, eu marquei esse encontro com você porque queria conversar sobre algo importante.
- Defina "importante".
- Nós.
- E lá vamos nós de novo...
- Sem piadas, Lucas, estou falando sério.
- Tá bem. Estou ouvindo.
- Bem, ultimamente eu tenho me sentido diferente em relação ao nosso namoro. Mais do que já estava. Estamos a quatro anos juntos, mas nos últimos tempos venho querendo te dizer umas coisas.
- Hum...
- Essa é sua resposta?
- Me diga o que precisa dizer, não gosto muito desses rodeios, principalmente porque, nesse caso, já sei o que está por vir.
Ela não pareceu ouvir minha resposta, mas prosseguiu.
- Está bem. Então escute, eu sei que nós amamos um ao outro, mas isso não está dando certo. Eu sou uma mulher de princípios. Sei de minhas responsabilidades. Vou ao atelier, faço meu trabalho, traço planos, busco voos mais altos na vida. Eu sou uma mulher feliz com meus objetivos. Mas você... você é acomodado.
- Eu sou, é?
- Pare com esse sarcasmo! Você é um escritor de muito talento que está passando por uma fase medíocre a quase dois anos! Não importa quantos trabalhos na redação daquele escritório empoeirado você faça pra poder pagar as contas, essa não é a sua profissão, e não vai te levar a legar nenhum! Você é um escritor que não escreve! Acha mesmo que as coisas vão mudar sem você fazer nada?!
- Geralmente não gosto de forçar inspiração. Como alguém que se envolve com arte, você deveria compreender. E ganho o suficiente com meu trabalho na redação, posso me sustentar muito bem, obrigado.
- Com licença. - Jess interrompeu enquanto colocava o pedido de Giovanna na mesa. - Capuccino, pães de queijo, algo mais?
Percebi que Giovanna ficou irritada com a interrupção pra receber o pedido. Resolvi dizer algo pra situação não sair do controle.
- Obrigado Jess, mas nos dê licença um momento, sim?
- Tá bem. Boa sorte. - Ela se afastou pra atender outra mesa.
- Essa garçonete é muito irritante!
- Ela exagerou mais cedo, mas não fez por mal.
- Pare de defende-la!
- Só estou dizendo que ela não tem culpa por estarmos com problemas. Mas enfim, você dizia?
Giovanna respirou, retomando o raciocínio.
- Bem, eu te amo, mas você é o oposto de mim. Não posso continuar uma relação com uma pessoa assim. Você não é disciplinado, não tem ambição, você é um homem de 30 anos que está estagnado, e isso me consome! Eu sempre gostei muito do seu jeito de lidar com os problemas, mas faz tempo que eu olho pra você e não vejo meu namorado, vejo uma grande massa ranzinza sem cor.
- Entendo. Pode não parecer, mas realmente sinto muito por isso. Suponho que isso aqui seja o fim então?
- Sim, é. Eu pensei muito durante muito tempo, e não queria que as coisas terminassem dessa maneira, mas você e eu somos incompatíveis.
Mesmo sabendo que era isso que tinha vindo dizer, fiquei um pouco em silêncio, reparando ao meu redor.
- O dia está bonito, não acha?
- O quê?
- O dia. Olhe ao seu redor um instante. Está realmente um belo dia. O frio diminuiu um pouco, o sol está mais agradável agora. Sem trânsito, sem correria. É o tipo de coisa que faz você pensar que o mundo é realmente um lugar incrível, não acha?
- O que você está dizendo?
- Você tem sua maneira de lidar com as coisas, e eu tenho a minha. Só me responda, por favor.
- Do mundo não sei, mas está um dia bonito. Muito bonito.
- Absolutamente. Mas sabe qual é a ironia disso tudo? Enquanto estamos aqui, bebendo café e conversando, e alguém nesse momento está saindo de casa e se perguntando aonde foi parar o carro. Alguém está olhando muito cansado para o notebook, tentando organizar os estudos em vez de dormir. Alguém está engolindo os próprios pensamentos pra não enlouquecer. Você sabe o que está entre nós e todos eles?
- Não, como eu saberia algo assim?
- Você costumava ser um pouco mais perceptiva. Enfim, entre nós e eles há o mesmo dia lindo. Consegue ver a ironia disso?
- Sim, consigo. Mas dentro do que estamos conversando, pra quem não gosta de rodeios, você está se superando.
- Desculpe. Eu quis dizer que apesar de ter sido doloroso escutar o que você disse, e de saber que está doendo em você também, eu compreendo e não a culpo, porque mesmo no dia mais bonito, enquanto coisas lindas nos distraem, coisas ruins acontecem. É uma pena que desta vez tenha acontecido conosco.
Ela parecia ligeiramente espantada com minha reação. Depois de muito tempo a vi completamente calada. Talvez esperasse mais irritação ou mais frases sarcásticas, mas com certeza não esperava o que eu disse, ou talvez a maneira que eu disse. Essa constatação, de certa forma, doeu mais do que imaginei. Mas eu não poderia culpa-la, realmente éramos diferentes.
- É isso, é esse Lucas que sumiu faz tempo.
Giovanna bebeu alguns goles do seu café, e depois de alguns segundos pareceu mais desperta. Se levantou e passou a mão pela lateral do meu rosto.
- Você sempre foi um ótimo escritor. Só queria conseguir esperar você voltar.
- Você sempre foi feliz e obstinada. Eu entendo - Devolvi com gentileza no olhar.
- Ainda temos o que resolver, mas é isso.
- Foi bom falarmos disso. Era preciso. Se cuida.
- Você também. Ah, faço questão de pagar minha parte.
Ela bebeu mais um gole rapidamente, abriu a bolsa e tirou uma nota de 50, deixou em cima da mesa e foi embora. Fiquei olhando ela partir daquele jeito dela, meio barulhento. Se a conheço, ela estava prestes a trabalhar compulsivamente hoje. Então Jess se aproximou e sentou rapidamente, me assustando.
- Como foi?
Não respondi.
- Tão difícil assim?
- Sim, mas o que na vida não há de ser, não é mesmo?
- Olha, eu sei que não me perguntou, mas se quer saber a minha opinião, vocês não combinam.
- É tão visível assim?
- Bastante.
- Bem, Giovanna sempre foi uma mulher de muitos compromissos, focada. É uma pena que não tenha encontrado um espaço para o meu jeito em sua vida. Mas pensando bem, também não me esforcei muito pra encontrar o mesmo pra ela.
Respirei fundo, meio contemplativo, olhei pra Jess e o olhar dela parecia insondável.
- Tá certo, sei que é difícil, mas olha, meu horário encerra em uma hora. Que tal irmos tomar um sorvete pra você afogar as mágoas?
- Acha mesmo que sou uma pessoa que afoga as mágoas com sorvete?
- O que você sugere?
- Cerveja? Aliás, estamos no inverno, um bom drinque, talvez?
- Não tá tão frio assim, e sorvete é mais divertido. Vejo você em uma hora. - Ela se levantou com ar decidido.
- Certo, sorvete então.
Comi os pães de queijo que Giovanna havia pedido, terminei meu próprio pedido e depois de algum tempo, Jess saiu sem a touca de proteção e sem o avental, em direção à minha mesa, ajeitando os cabelos que antes estavam presos num coque.
- E então, senhor depressão, vamos?
Olhei o relógio. Ela estava atrasada. Qual era o problema das pessoas com horários?
- Demorou 15 minutos a mais.
- E quem está contando? Vamos, vai. - Ela me pegou pelo braço e andou apressada para a calçada.
Andamos algumas poucas ruas e logo chegamos a uma sorveteria. Não gostei muito da decoração colorida demais do lugar, e muito menos do cheiro de perfume doce, mas Jess estava contente, então não comentei nada. Sentamos lado a lado, eu pedi um sorvete de baunilha bem simples, e ela pediu um sorvete enorme, cheio de confeitos e todas essas coisas com gosto de chiclete.
Depois do sorvete e de cupcakes recheados, tínhamos conversado melhor do que jamais cheguei a conversar com Giovanna no último ano. E apesar de ainda doer termos terminado, Jess estava conseguindo implantar algum ânimo em mim.
- Certo. Então, vamos recapitular. Você é uma mulher de 27 anos, que cursou dois anos e meio de enfermagem, largou tudo e começou a trabalhar em um café pra pagar por um aluguel barato, e juntar dinheiro pra um curso de fotografia?
Ela estava exibindo um sorriso orgulhoso. - Isso!
- Você é realmente muito... desprendida, eu diria.
- Ah, falou o escritor que não escreve. Quer algo mais desprendido que se especializar em uma área tão linda, e não procurar exercer?
- Não é bem assim, mas touché.
- É, eu sei. - Ela sorriu.
- Na verdade, eu apenas não tenho a inspiração necessária pra isso. Às vezes isso acontece. Quando tento forçar a escrita, me sinto pior ainda, como se fosse um impostor.
- Acho que isso acontece com muita gente, Lucas. - Agora ela estava séria.
- Sei disso, mas comigo é desse jeito, não consigo fazer como se ligasse ou desligasse um interruptor. Mas eu também sou bom escrevendo na redação, isso me sustenta bem, e ainda é escrever. Não sei porque tenho que ser o maior escritor da cidade, do país, do mundo! Não sei porque parece tão ruim conseguir se sustentar e apenas viver! Quero dizer, qual o problema nisso?
- Eu entendo, e não tem problema. Desculpe, não quis te criticar assim.
- Não criticou, só estou finalmente me abrindo com alguém sobre isso.
Por alguma razão que naquele instante não captei, ela sorriu.
- Tá tranquilo, a gente consegue.
Não pude deixar de me admirar com aquele otimismo. Não sei de onde vinha, mas era encorajador.
- Sabe, você é uma garota realmente diferente do que estou acostumado.
- Diferente como?
- Você é mais cheia de vida e de cores.
- É, é o que dizem por aí. - Ela brincou, rindo.
- Não fique muito convencida.
- Quem falou que sou cheia de vida e cores? Fui eu?
- Tá, um a zero para você.
- Ah, como eu adoro vencer!
Mudamos de assunto e demos mais risadas conforme a tarde foi passando, e quando olhei o relógio, percebi que tinha passado quase 5 horas naquela sorveteria.
- Ei, percebeu que estamos aqui a mais ou menos umas 5 horas?!
- Na verdade sim, mas eu não me importo.
- Bom, não posso dizer que eu me importei, seria mentira.
- É por isso que gosto de você, sabia?
Aquela me pegou de surpresa. Não respondi. Ela falou no meu lugar.
- Não parece, mas você não se preocupa com detalhes que não precisam de real preocupação. No fundo, eu sinto que você tem uma alma criativa. E apesar de ser meio triste, e de ter uma mania chata com horários, você é muito parecido comigo.
- Não vejo tudo isso em mim.
- Eu me espantaria se visse. Ninguém nunca vê nada excepcional em si mesmo.
- Verdade...
- Só achei que depois de ouvir que sou cheia de vida, você devia ouvir que também é.
- Quer dizer que no fundo não é verdade?
- Quer dizer que você foi elogiado, só isso. – Ela sorriu calmamente.
- Bom, se também sou cheio de vida, quem eu mantenho vivo? Minha namorada, aliás, agora ex, que supostamente deveria ser esta pessoa já não via isso e...
- Ah, para com isso, vai. Chega disso.
- Tá bem, acho que você está certa. Chega disso.
- Vai passar quando passar, é só não deixar de viver.
Olhei ela nos olhos. De repente não sabia se me aproximava dela ou não, mas pra minha surpresa, ela me puxou gentilmente pra perto e me beijou. Não sei exatamente por que, mas retribui o beijo. E foi algo que me fez sentir diferente. Foi algo que eu tinha esquecido como era sentir, algo eufórico e assustador, com uma certa culpa.
Não sei dizer quanto tempo ficamos ali, mas não me importei. Finalmente paramos de nos beijar e nos sentamos formalmente. Um silêncio sobrenatural cresceu, e depois de alguns segundos de indecisão, foi quebrado por mim.
- O que... o que foi isso? – Eu estava realmente atordoado.
- Um beijo. - Ela disse com simplicidade. Parecia envergonhada, mas tinha coragem no olhar.
- Não sei bem o que dizer. Não que eu não tenha gostado, mas enfim, depois de tudo hoje...
- Desculpa, Lucas.
- Tudo bem. Tudo bem.
Ainda sem saber exatamente como agir, mas curioso sobre o que aconteceu, decidi perguntar.
- Você sentiu isso também?
- Isso o quê?
- Não sei dizer... eu deveria saber, mas no momento não sei dizer.
- Vem cá, vai, chega de gaguejar. Vamos pagar a conta.
Ela me pegou pelo braço e me arrastou para o caixa, e depois de pagarmos a conta saímos num ar um pouco mais gelado. Ajeitei minha gola e começamos a andar. Caminhamos algum tempo sem dizer nada, ela estava agarrada ao meu braço, mas olhava pra frente, como se evitasse olhar pra mim. Eu não conseguia prestar real atenção em pra onde estava indo, ainda pensava no que tinha acontecido na sorveteria. Eu não conseguia responder o motivo, mas comum aquele momento não tinha sido. Depois de mais alguns minutos chegamos a um cruzamento, onde ela parou e me fez parar também.
- O moço melancólico continua reto?
- Sim.
- Eu viro aqui.
- Ah, sim. Bem, então acho é até mais, né?
- Que tal um até amanhã?
- Tá certo, até amanhã.
- Soa bem melhor, não?
- É, até que soa.
- Então até amanhã.
Outro beijo. Dessa vez eu que a puxei num abraço e a beijei. Eu não havia sentido algo peculiar assim antes. Depois que nos beijamos, ela falou.
- Sei que é estranho, pra mim também é, mas espero te ver sempre que puder, vê se não some. Até amanhã. - E dizendo isso, seguiu o caminho de sua casa. Entendi o que aquelas palavras podiam significar. Atravessei o cruzamento e coloquei as mãos nos bolsos. Pensei em como meu dia tinha sido diferente. Eu passei por um término de relacionamento, e provavelmente estava começando dar chance pra outro no espaço de um dia. Definitivamente não era o ideal. Ainda tinha muito que se resolver.
O estranho era me sentir desse jeito. Tão sem palavras. Entrei em casa e servi uma dose de café em uma caneca. Queria algo alcoólico, mas não pareceu boa ideia naquele momento. Bebi um gole e sentei no sofá, apreciando o gosto amargo. Eu devia ser louco de aceitar algo como aquilo. Podia dar muito errado. Eu não estava nem de longe curado, ela poderia se decepcionar, e muito. Pensei durante alguns instantes, bebi outro gole, e olhei pro resto do café. Saí de casa e 10 minutos depois entrei de novo com um sorvete na mão. Sorvete no frio, que ideia. Dei uma mordida, e mesmo sentindo uma leve culpa, sorri. Me espreguicei, e ainda sem conseguir evitar o sorriso, peguei um caderno e uma caneta.
- Não sei porque, mas deu vontade de escrever.

08 outubro 2014

Queixa Boba.

Odeio admitir, mas sinto falta daquela sensação de flerte. Não levem muito a sério, é só uma queixa boba mesmo. Enfim... Não que eu me sinta mal pelo fato de ser considerado um amigo, mas ultimamente tá demais. Atualmente não importa se lá ou cá, não há circulo de convívio em que eu não me enquadre somente na denominação "apenas bom amigo". A longo prazo isso tá mexendo comigo. Não sei, estou me sentindo vazio, e isso me incomoda.

07 outubro 2014

Iserhard.

Mais uma madrugada insone, do que tipo que me faz sentir saudade daquele irmão de tantos anos. Aquele que eu conheci na fase em que geralmente se formam as verdadeiras amizades: na infância. Não é uma regra, mas na maioria das vezes é ali, naquela época de pureza e inocência que conhecemos aquela pessoa que nos acompanhará em qualquer fase da vida. E foi ali que eu conheci Iserhard, o meu amigo, o irmão que eu escolhi pra ter. Passamos pelas mesmas dificuldades, pelas mesmas fases. Por diversas vezes já tive que tirá-lo da beira do penhasco, e ele já precisou intervir por mim em outras tantas... Passaram os anos, ficaram algumas cicatrizes, algumas na pele, outras na alma, mas sempre irá ser a nossa amizade o fator predominante. Hoje ele está distante, apreciando o ar e a vida de outra cidade, buscando seu sonho profissional ao lado da mulher que ama, e eu estou muito feliz por ele, mas em madrugadas como a de hoje somente ele seria capaz de compreender o que sinto. Sei exatamente o que ele faria. Ele não tentaria me animar, isso ele não faria jamais, porque ele sabe que preciso apreciar minha melancolia para então conseguir afugentá-la, mas sentaria do meu lado pra compartilharmos nossas frustrações, provavelmente ao som de um jazz suave.
Ainda lembro das tantas noites que viramos naquele café 24 horas, lendo, ouvindo boa música, conversando e apreciando um bom café. Era como espairecer do mundo pelo ato de lamentar, num tipo de ligação invisível que sempre me fazia ter a convicção do porque sempre seremos irmãos.


De todos, esse é o cenário que mais sinto falta.
Principalmente hoje.

01 outubro 2014

(1)

De uns tempos pra cá posso dizer que algumas coisas mudaram. Ao meu redor e dentro de mim. Finalmente ocorreu o que estava se anunciando, e eu, de certa forma posso me dizer vencedor, muito embora não tenha realmente vencido algo. Digo isso porque neste caso não se trata somente de vitória e derrota, pois ainda haverão muitas vertentes a serem vistas e questionadas no labirinto intangível do meu pensamento. Jamais foi culpa dela, longe disso, mas foram alguns anos preso em uma miragem, quatro anos perseguindo uma visão imaginária, a visão de uma perfeição existente apenas em minha mente e alimentada somente por meu coração. O baque (porque sempre é preciso um baque) aconteceu num momento absolutamente propício, e pela primeira vez não doeu. Inclusive, tenho que dizer, é estranha a sensação de olhar pra ela e não sentir aquela dor característica do amor não correspondido, mas é interessante finalmente deixá-la ir após tantos anos. Pela primeira vez desde que a conheço posso dizer: ela nunca mereceu o que senti. Não digo isso com rancor ou soberba, mas como um fato, assim como as horas, o dia e a noite, a existência do ar que respiramos, assim como eu já devo ter sido indigno de sentimentos demonstrados ou escondidos. Enfim, finalmente posso olhar seu rosto sentir apenas amizade. Não, eu não encontrei um novo amor, ainda estou muito longe disso, e com certeza ainda haverão noites de lembranças e solidão, porque essas nunca findam, só redirecionam o alvo, mas ainda assim sinto-me no direito de imitar Tom Hansen e decretar: (1).

13 setembro 2014

A Melodia.

Eu quase me esqueci da melodia.
Aquela melodia tão marcante de uma certa caixinha de música que tive em mãos. Era como uma resposta aos meus dias mais pesados e cinzentos, e como um apelo para que minhas noites mais longas e frias voltassem sem demora. Um buquê de rosas, um par de sapatos, a garoa, a fumaça do cigarro... Depois de tantos anos ainda me pergunto porque pensei em tudo de forma tão trivial, tão inocente. As coisas não são assim, eu já era grande o suficiente pra entender isso na época. Mas não entendi. Pior para mim.
Não posso esperar que o eco dos meus sapatos contra o asfalto sombrio seja acompanhado por outro par, mas estou cansado de ter apenas a sensação das gotas gélidas de chuva como lembrete.
Algumas rosas já caíram pelo caminho, alguns cigarros também, e tem a melodia. Eu já nem tenho mais aquela caixinha de música, deve ser por isso que quase me esqueci da melodia, mas como se tivesse vontade de se anunciar presente, ela voltou pra me assombrar. Irônico... ela sempre volta.

29 agosto 2014

Preciso Rir, Porque Olha...

Não dá mais pra viver desse jeito. Já passou da hora, que desculpa eu posso dar?
Ela vai continuar habitando meus pensamentos enquanto eu deixar que essas gotas de chuva me lembrem do passado. Pois é, fica difícil admitir uma coisa dessas, mas é mais ou menos por aí mesmo, não posso deixar de concordar. E chega disso. Sinceramente já passou da hora de tratar essa situação de forma insensível, por mais que eu não queira. Guardar pra mim e pra minhas próprias linhas. Minha chuva, meu Déjà Vu, meu inferno particular.
Não é questão de amadurecimento, é só o momento, um acalento, fica tudo muito lento. Uma noite de tormento... É até difícil de acreditar! Eu me tornei alguém de coração pesado e pensamentos cinzentos como cimento. Mas bem lá no fundo da mente e do coração eu sei, não vou mudar, e não vai parar de chover. Nunca parou realmente de chover. A chuva sempre esteve aqui, e sempre estará. A chuva é minha certeza, não há mais o que eu possa dizer.

Ah, Winslet...

E eu que nunca fui de decorar o nome das pessoas decorei até o número do teu apartamento, Winslet. Eu que sempre fui o tipo que foge do estilo garota encrenca fiquei e te encarei com esse sorriso de um babaca bêbado. Você sempre foi o tipo de garota que lia Bukowski e ria. Ria porque se identificava. E aí eu me perguntava quem teria coragem de te largar de lado com esse teu All Star surrado e esse teu sorriso de quem odeia domingos. Eu decorei até o seu cheiro, Winslet. Esse teu cheiro de menininha cheia de sonhos que usa calcinha de renda. Eu decorei todos os teus lados, porque eu me perdia em você e nas suas fases. E você que odiava dramas se aconchegou em mim. Você que odiava enigmas topou em tentar me desvendar. O nosso caso nunca fez o estilo amor e flores, Winslet. O nosso caso fazia o estilo gritos e objetos jogados na parede, ao menos internamente. O nosso caso nunca foi matemática, onde se somava e se dividia. O nosso caso era química, Winslet. Uma constante irradiação de fúria e desejo. E aí você cantava pra todos os seus vizinhos ouvirem que não sabia como amar, e que não amava porque doía. Você sempre foi mais razão que coração. Nesses teus passos tortos de quem não ligava se sentia. E não ligava mesmo. Quando você sorriu pra mim naquela maldita livraria eu devia ter fugido, ter ido pro outro lado, devia ter fingido que não tinha visto. Mas eu encarei esse teu sorriso de quem odeia domingos. Eu encarei o pacote de encrencas que era você. E olha pra mim agora, eu sei até o número do seu apartamento.

25 agosto 2014

BTS - Chuva

A cor espessa de um dia chuvoso em Seul
Os carros correndo,
Os guarda-chuvas se abrindo em todo lugar
Está nublado e o ar está limpo.
A chuva cessa e reflete na poça
Com um fundo cinza claro
Por que eu estou aqui de pé?
Eu não sei se tenho um monte de pensamentos ou nenhum pensamento em tudo.

Acordei quando estava prestes a ficar claro lá fora
Escovo meu cabelo para trás com minhas mãos exaustas
O Memo Pad tem a música que eu não pude completar a noite passada
Vou terminá-la hoje,
Enquanto eu fecho meus olhos e deixo sair um suspiro.
Que desculpa eu posso dar? Eu tento fazer alguma coisa
É inacabável de qualquer maneira, então eu vou fazer qualquer coisa
Então mirei meus olhos para a janela, e tudo parece cinzento
Cidade cinzenta, edifícios cinzentos, estradas cinzentas, chuva cinzenta
Tudo neste mundo é lento
Meu irmão mais novo, que acordou, continua falando por trás
Eu continuo abrindo e fechando a inocente geladeira
Com o sentimento desconhecido vazio que lava sobre mim
Eu acho que deveria apenas ir lá fora
Sem nenhum guarda-chuva
Eu posso ouvir claramente a chuva batendo na terra
Eu sorrio, é a melhor música de fundo
Como um cara louco, eu começo a cantarolar
Gostaria de saber que horas são...

A cor espessa de um dia chuvoso em Seul
Eu ainda não consigo dormir, enquanto desapareço
A chuva cessa e reflete na poça
Eu me vejo parecendo mais miserável hoje

Está uma noite chuvosa, as pancadas de chuva em minha janela batem no meu coração
Com meus ombros doloridos, eu olho para o meu celular e vejo uma mensagem
"Como você está nesses dias?"
A mensagem que meu amigo recebe é de como as minhas emoções estão indo
Enquanto falo inalo o cheiro da chuva, eu alongo e vou ao banheiro
Depois me encaro meio adormecido no espelho
Não tenho ninguém para encontrar, mas eu tomo um banho mais longo do que de costume
A chuva ainda está caindo fora de casa
Não tenho para onde ir, mas eu levo meu guarda-chuva
E ando lá fora sem um plano
Enquanto a chuva quer que sua existência seja conhecida, meus sapatos ficam sujos
Sou alguém que gravou a minha existência para você como a chuva?
Se não, eu sou apenas alguém que veio e se foi como um banho de chuva?

A cor espessa de um dia chuvoso em Seul
Eu ainda não consigo dormir, enquanto desapareço
A chuva cessa e reflete na poça
Eu me vejo parecendo mais miserável hoje

Levanto-me e quando me sinto dolorido, eu olho para fora da janela
Como se ela soubesse como meu corpo se sente, a chuva está caindo
Ao olhar para as gotas de chuva brotando na janela,
Eu sinto as lágrimas descendo no meu coração
Com esse sentimento estranho, eu olho para fora e parece a minha situação
A chuva que cai como uma melodia faz tudo parecer andante
Eu fico pronto e saio, abrindo o guarda-chuva que estava enrugado como meu rosto
Enquanto eu ando, no momento em que ouvi a chuva
Gostaria de saber "para quem essa chuva está caindo?"
Um som que bate contra o cimento cinzento solitário vem desacelerando...

A cor espessa de um dia chuvoso em Seul
Eu ainda não consigo dormir, enquanto desapareço
A chuva cessa e reflete na poça
Eu me vejo parecendo mais miserável hoje

Mesmo quando a chuva parar, quando as nuvens forem embora
Eu estarei aqui do mesmo jeito
Sem dizer nada, olhando para o mundo
Lá, um mundo não tão bonito está olhando para mim
Nessa chuva... Nessa chuva...

19 agosto 2014

Winslet.

É estranho narrar a história de nós dois. Porque sabe, Winslet, a trilha sonora da nossa vida ainda tá tocando, porque eu apertei o replay e não consegui mais tirar. Eu nem sei mais o que falar sobre você porque você é tão complicada e difícil que até te explicar é um desafio. Eu tentei te desvendar inúmeras vezes. Eu tentei descobrir por que você veio em um pacote com um sorriso de menina inocente, e com um aviso escrito “problemas”. Porque a falta que você faz é um erro. Winslet, você é aquele tipo de garota que todo cara tem medo, porque seus defeitos são aconchegantes, como se fossem um sofá onde você pode deitar e escutar Legião Urbana numa tarde de domingo. Você engole tanto tudo pra si que foi endurecendo com o tempo. E aí você canta nessa sua voz fina "eu bebi saudade a semana inteira, pra domingo você me dizer que não sabe o que quer, e que não quer mais saber" com esse seu sorriso de quem não tá nem aí pra vida e não liga pros tropeços que ela te dá, porque tem coragem o suficiente pra levantar a cabeça e seguir em frente sem mim, coisa que eu não consigo fazer sem você. Porque te narrar é quase impossível. Você faz o tipo que finge não gostar e dá pra trás quando vê que as coisas saíram do seu controle. Porque o relógio da sua vida é tu quem controla. E você faz o tipo que esquece como amar a cada segunda-feira, esquece de ligar todo domingo só pra no outro dia falar "eu tô com saudades mas perdi seu número, passa lá em casa pra a gente tomar um café e quem sabe escutar o seu CD preferido". E eu vou. Eu sempre vou. Porque porra, a trilha sonora da minha vida continua sendo você.

18 agosto 2014

Tanto Faz.

Não precisa pedir licença pra seguir, quer seguir teu caminho? Vai. Segue teu caminho como bem entender. Segue acompanhada, segue só, de noite, na chuva, na calçada, na rua, onde quiser. Pega tuas convicções e parte pro que você acha que é teu, eu não vou te segurar. Segue o que quiser seguir, segue até querer parar, descer, pensar retroceder, mudar. Bebe o veneno, pula da ponte, faz tuas burradas, passa embaixo da escada, vira a noite, amanhece de ressaca, fica ao relento, pode ir que eu me aguento. Prometo não te ligar, vou tentar não me importar, vou dizer que tanto faz, já não me compete mais.

07 agosto 2014

Every Night.

Desconcentrado, agarro-me ao trinco da primeira porta que eu encontro. E sempre acabo no mesmo quarto, na frente do mesmo computador, ouvindo as mesmas músicas, insone.

Cuatro.

Acho que você nunca entenderia, mulher, as pegadas que deixei por todo este deserto de caracteres. Pistas demais para aquilo que não tenho. Eu devo estar pensando em círculos. A decepção é o meu guia e a frustração é minha bússola de ponteiro quebrado. Conforme passo os dias a frente desta tela de raios catódicos, aumenta minha certeza de que nunca iremos nos ver, não ao vivo, e apenas nos tratar por fibra ótica. Que demônio insano poderia ter inventado um artifício capaz de unir pessoas geograficamente distantes, só para mostrar a uma delas que a distância é intransponível?

06 agosto 2014

Sei Pra Quem.

Olha, você pode até não perceber, mas há pessoas que se preocupam com você. E por mais que possa não parecer, eu sou uma dessas pessoas. Pode manter a distância se quiser, mas você não me engana, e eu continuarei aqui... porque amigos são pra isso.
Não importa o que passou, nem a forma como pudemos pensar um do outro algum dia. Coisas passam, e coisas ficam, tudo depende do quão forte elas podem ser. Não ouse pensar que eu voltei, porque na verdade eu nunca fui, e nunca irei. Pode contar comigo pois eu conto com você.

05 agosto 2014

Quatro Linhas Verdadeiras.

E tuas noites serão tristes demais
As mais sinceras ou as mais teatrais
Não há maneira de você desfazer
Mudar o que já está pra acontecer...

Inocente.

Observo você se deitar pra dormir uma última vez. De manhã vejo você acordar gentilmente, e eu nunca saberei se você me viu. Nós vemos apenas o que queremos ver às vezes, eu acredito nisso agora. Então eu vejo você sorrindo pra mim e me pergunto, será que seus olhos já encontraram os meus? Não sei dizer se isso já aconteceu realmente. Eu me lembro de pensar diversas vezes em tudo que não aconteceu entre nós... Será que seus lábios sentem esse beijo? Será que suas mãos sentem esse toque? Não sei, mas você vai permanecer no meu coração constantemente. Eu sinto sua falta, mesmo que talvez você nunca tenha estado aqui de verdade, e suas sombras, elas ainda vão me seguir por muito tempo depois de eu confessar isso.

01 agosto 2014

Detalhes Cruciais.

Eu vivo em um tipo de tempo só meu
Tentando esquecer o que já aconteceu
Cada estrela é uma noite mal dormida
Relembrando detalhes da sua partida

Pensar em você me conforta
E ainda assim me atormenta
De longe você não me nota
E essa distância só aumenta

28 julho 2014

Como Um Beijo...

Certas coisas eu não posso mudar, não posso me perguntar ou tentar fingir que sei responder. Não dá pra evitar que minha mente permaneça em dúvida sobre tudo que de alguma forma me define. Não posso evitar, é como tentar apagar uma noite de luar... não dá. Eu só posso abraçar o que interfere em meu olhar, que seja como um beijo, algo a eternizar.
Nada vai mudar o que passou, nem como ou porque passou. Nada vai dizer o que me faz organizar meus pensamentos, quando tudo que quero é fraquejar...

23 julho 2014

Relembrando.

Eu aprendi na marra que esse negócio de tentar acabar com a solidão pela sua própria ação não funciona. Ela pode até te matar, mas você não vai conseguir matá-la. Não com esse tal 'plano de mestre' que você acha que bolou sozinho. A solidão morre no acaso, seja do acerto ou do erro. Você tá aí se enganando desde que se conhece por gente. Para com isso, irmão.

O Cemitério das Boas Intenções.

Trancaram-nos aqui.
Aqui onde vivemos a respirar o mesmo ar
Aqui onde dividimos o que roubamos da nossa Terra-mãe.

Por que todos aqui? E por que tantos, aqui?

Aqui onde amamos nossos semelhantes
Com a mesma intensidade que odiamos os que são diferentes.
Aqui a gente briga pelo que não é nosso
Aqui, onde a gente acumula o que não nos pertence
Para que os que nada possuem permaneçam nada possuindo.

E para sair daqui?
Um portão, e ele não abre para os dois lados.

Saibamos, então, antes que seja tarde demais, que
O bisturi vai ler em nossa pele
A perfeita transcrição do que está entalhado em nossa alma.
E assim veremos:

A gente morre sem dinheiro
A gente morre sem amor
A gente morre sem amigos
A gente morre sem sucesso, sem fracasso, sem passado, sem futuro
A gente morre sem emprego, sem carro, sem medalhas no peito.
O que está prostrado na maca é o elo perdido entre o Humano e o Animal.
A gente morre sem rosto.
A gente morre sem corpo.
A gente morre sem nada.

A gente morre para que, naquele hesitar entre o último pulso
E o fechar de nossas pálpebras,
Possamos ter um único segundo de paz.
Trancaram-nos aqui. E daqui não sairemos juntos.

A gente morre sozinho.
E hoje, no auge do funeral dos nossos sonhos
Depositamos aqui mesmo as nossas boas intenções.

Trancaram-nos aqui.
E daqui não sairemos vivos.

29 junho 2014

Fica Um Desabafo.

Não consigo mais escrever. É como se eu tivesse esquecido como se faz, e mesmo quando eu tento nada vai embora como ia antes. Ficam as angústias represadas a inundar o peito, mas eu ainda não aprendi a nadar. Não sei lidar. Existem tantas coisas pra escrever, tanto pra esquecer, pra compartilhar... Passam os dias, um fardo a carregar. Por mais que eu desabafe não sei mais desabafar.

14 junho 2014

Conversa Entre Uma Tragada e Outra.

- Os planos mudaram.
- Pra melhor ou pra pior?
- Não sei direito.
- E qual é o plano agora?
- Não planejar.
- Mas ter um plano pode te salvar.
- Se for errado pode me matar.
- E o que isso quer dizer?
- Que eu aceitei tudo como é, eu acho.
- E como é esse tal tudo?
- Não sei bem, tudo muda toda hora.

29 abril 2014

Quando Tudo Se Mistura.

Eu durmo e sonho coisas que me fazem acordar com medo. E pelo jeito isso não vai ter fim tão cedo. E em mais uma dessas noites eu fico me perguntando: Eu cochilei? Será que eu dormi? Eu sou o seu pesadelo, ou será que você é o meu? Eu sou a pior coisa que aconteceu com você, ou você é a pior coisa que aconteceu comigo? Quem sabe os dois. Ou nenhum dos dois. Talvez nem tenha existido alguma contagem. Talvez ainda se esteja contando. Na realidade não posso dizer com certeza, e essa é a mudança de sistema. Ninguém disse que morrer tarde é sinônimo de viver muito, mas ninguém quer morrer cedo por medo de não conseguir viver. Portanto o filme continua, e ninguém na plateia faz a mínima ideia, naquele tipo de coisa que se repete não importando a causa ou o efeito. Sabe como é, às vezes você bebe o leite, às vezes o leite bebe você. Existem coisas que sempre dependerão do ponto de vista, das circunstâncias, de muita coisa que certas vezes está além da nossa compreensão, e é por isso que eu acho que não houve culpado. Mas você me conheceu numa fase muito estranha da minha vida, e isso continua me dando o que sonhar, o que temer, e uma pergunta que está sempre acima das outras nessa quase paranoia das minhas madrugadas: O que diabos acontece comigo?

23 abril 2014

Segue Madrugada.

Tenho que ir embora. Tenho que ir agora, me desculpe, sem demora. Você faz tudo ser diferente, de um jeito bonito e meio imprudente. Uma virtude no defeito, um belo olhar, um acalento. O seu perfume, o meu tormento... Céus, como eu lamento.
Uma lembrança imaculada, uma memória apagada. Noite certa, hora errada. Quando foi que fiquei assim? Talvez esse seja o meu fim. Não é de hoje que tenho esses problemas, acabo me deixando levar pelos dilemas. "Se eu já não tivesse. Se você não fosse. Se eu já não gostasse". Ah, se isso mudasse... Pois é, eu tenho que ir embora. E tem que ser agora, me perdoe, sem demora.

21 abril 2014

Das Coisas Que Escrevo Em Segredo.

Eu costumava ter na cabeça a convicção de que nada seria tão complicado quanto a sempre extenuante tarefa de entender todas as circunstâncias e vertentes que permeiam meu próprio ser, certas vezes tão desprovido de razão. Conforme alguns dos meus - ainda poucos - anos se passaram, eu desvendei muitos de meus próprios mistérios ao passo que criei outros, vivendo na base de um limite que me exauria, mas mostrava o quão verossímil pode ser essa jornada imensurável que é a vida, num turbilhão inesgotável de idas e vindas, cores e rimas, chegadas e partidas. Mas num determinado momento, já um pouco calejado, eu cheguei num estado de estranha calmaria, e mesmo diante daquelas pequenas dificuldades dos dias, no conforto repentino da compreensão, e quanto mais eu estava em paz comigo, mais conseguia estar em paz com os outros. Pois é que então surgiu você, e toda a sua simplicidade e complexidade, o seu sorriso tão leve e o seu olhar tão lindo e triste, desarmando completamente aquela confiança que tanto me sustentava, trazendo seus problemas, suas virtudes, sua beleza. Sem adornos, sem caprichos, e ainda assim tão enigmática. Veio então a certeza de que eu jamais conseguirei te decifrar. E eu, assim, perdi minha paz.

22 fevereiro 2014

Só Um Lembrete.

Eu não quero te ver. Não quero te ouvir. Não quero mais entender, apoiar, compreender. Não, eu não estarei lá por você, e pela primeira vez faço isso apenas por mim. Não me interessa, e fim. E eu vou seguir assim.

30 janeiro 2014

Mouco.

Entre a união e a saudade resta a fumaça e o cinza da cidade. A chuva cai agora, o perfume é de outro tempo, não há mais diferença entre inércia e movimento... Não adianta tentar viver só o momento, tudo alguma hora volta sem consentimento.

Me Arrependo.

Me arrependo. E como me arrependo. Me arrependo de muita coisa que fiz e de quase tudo que nem cheguei a fazer. Do que não busquei explicar e do que pensei entender. Me arrependo dos planos, dos enganos, de tudo que falei e calei ao passar dos anos. Me arrependo dos outros, me arrependo de mim. Me arrependo de início, meio e fim.

Me Lembro.

Lembro de tudo que aconteceu. A inocência e o querer de companhia, e como eu fui desajeitado em dizer o que precisava. Lembro das músicas, dos assuntos, das cores de cada dia. Lembro até, não sei como, de coisas que nem aconteceram. Lembro demais do que deveria esquecer de vez, porque quando esqueço lembro que esqueci. E é como tropeçar e cair na correnteza de um rio fundo e gelado, e sabe, até estaria tudo bem, mas lembrando das coisas eu lembrei que não sei nadar...

29 janeiro 2014

Nobreza.

O desespero é sonoro, é palpável, tangível, viável. É tudo que eu não admiti temer e não admitirei fugir só porque sei que é impossível. Não há nobreza no medo, e muito menos na coragem.

Só.

Eu só queria um lugar
Um lugar para pensar
Que me desse esperança
Para um dia melhorar

Um lugar cheio de neve
Mas também de algum calor
E da casta brisa leve
Quero o espairecer do amor

Para não me preocupar
Esquecer do seu olhar
E não precisar chorar

Eu só queria um lugar
Que me desse alegria
Mas não devo me enganar
Entendi que eu só queria

Fica Comigo Essa Noite.

Então diz pra mim, quando você ficou assim? Onde foi que se perdeu? Que horror te aconteceu? Me deixa entender esse teu medo de viver. Atende o telefone e deixa eu te falar que tudo vai ficar bem, que eu vou te visitar. Me espera e abre a porta, e deixa eu entrar, me dá um abraço e deixa eu ficar. E vamos ficando, pra que planejar? A gente se ajuda, o medo vai passar...