Palavras, palavras, palavras, pessoas, abraços, cumprimentos, palavras, horários, metas, notícias, palavras, palavras, palavras, imprevistos e pessoas, noites, dias, imprevistos e tragédias, palavras, mais de cem palavras, mais de mil, mais de um milhão, infindáveis palavras de pessoas com abraços e cumprimentos de horários e metas com notícias de palavras, palavras, palavras e morais e ética, responsabilidades e dores de cabeça repentinas de ressacas inexistentes das palavras que eu bebo, palavras, palavras e palavras, sentimentos que não me obrigam, que batem na porta por dias e semanas e meses de palavras, infindáveis palavras.
30 novembro 2024
Madrugada insône.
- E aí.
- Ah, oi, e aí. Senta aí.
- Como estão as coisas?
- Você sabe, o de sempre.
- Ainda se sentindo assim?
- É, ainda.
- Sei lá, você não tinha...
- Eu achava que sim.
- Mas não?
- Mas não.
- E quanto a...
- Não, cara. Só não.
- Tá bom, culpa minha, perdão.
- Tudo bem.
- Mas você tava legal e tudo. Não tava conhecendo aquela moça?
- Me afastei.
- Ué, mas por quê?
- Senti que era melhor.
- E quanto aquela vez que você mandou mensagem pra...
- Eu apaguei e não mandei mais nada.
- Por quê???
- Olha, eu realmente não acho que é o ideal.
- Explica isso direito.
- Ah... É um lance meio... sei lá, eu tô todo fodido emocionalmente, minha cabeça tá cheia demais, aconteceu muita coisa na minha vida e tudo. Você acha realmente que é o melhor momento pra eu sair conhecendo gente nova?
- Não sei, quer dizer, eu entendo racionalmente o seu ponto, mas ficar só sentado sentindo pena de si mesmo vai ajudar?
- Ninguém disse que vai ajudar, mas no momento é só o que consigo fazer. Ninguém tem nada a ver com isso, acho até que já pedi demais dos outros, imagina uma pessoa nova entrando no meio disso tudo sem ter a mínima ideia do que tá acontecendo aqui. É mais irresponsável do que apenas ficar no meu canto.
- Tá bem, entendi. É seu jeito de lidar com as coisas, né?
- Não é o melhor jeito, mas é o único que eu tenho no momento.
- Só procure não se afundar demais, tá? Eu me preocupo e os outros também.
- Eu sei, eu tô tentando. Juro que tô.
- Eu acredito em você, só tô te falando pra não se esquecer.
- Eu sei, te agradeço por isso.
- De qualquer forma, você é um cara bom, vai superar isso tudo e vai ficar bem de novo.
- Como é que você sabe?
- Bom, principalmente porque você tá sentado falando sozinho sobre isso. Se isso não significa que existe algo bom dentro de você tentando te reerguer, não sei o que significa.
- É... você pode ter razão. Aliás, eu posso ter razão.
- Às vezes a gente tem. Só vê se não fica até de manhã, amanhã tem trabalho.
- Tá bom.
- Nós vamos sair dessa, mais cedo ou mais tarde.
- Vamos sim. Eu vou sim.
29 novembro 2024
A garota dos sonhos.
Fazia sol, era um dia de calor agradável. Sentado na escada de madeira próximo ao cais, ele encarava a praia sem preocupações. O vento era cadenciado, o mar era de um azul cintilante e estava numa calmaria impossível de ser quebrada. Ele olhava a pintura da vida real quando de repente notou uma garota mais ao longe. Era bela, esguia, de pele alva e aparência delicada. Usava um short e uma camiseta mais curta, que mostrava o umbigo. Os cabelos eram louros, cheios e longos, tão dourados que rivalizavam com o próprio sol, como fios do ouro mais raro e valioso do mundo, e dançavam ao sabor do vento enquanto ela caminhava segurando um par de chinelos, com olhos mais azuis que o mar ou o céu sem nuvens daquela tarde. Espantado, ele observou com mais atenção e teve a certeza que já havia visto essa garota antes, que já tinha vivido uma vida inteira e mais outras duas com ela, que tinha crescido com ela, se apaixonado, casado e envelhecido com ela, que tinha tido filhos e netos, que sorriram e choraram juntos na união mais cheia de amor que poderia haver. Teve a certeza que ela era a mulher mais linda desse mundo, a mais incrível, gentil e perfeita que poderia existir entre todas as pessoas, que seus olhos azuis olhavam sua alma, e estar de mãos dadas com ela era o presente mais maravilhoso da vida. Ela sorria calmamente e caminhava sem um real propósito, simplesmente aproveitando aquele momento. Estava perto da escada quando notou o rapaz sentado, olhando-a de maneira fantasiosa, como se estivesse enxergando outra paisagem. Optando por ser gentil, acenou brevemente e sorriu.
- Bom dia!
O rapaz estava absorto em seus pensamentos de que a conhecia, e se sentiu meio perdido quando notou que ela falava com ele. Meio sem jeito e achando aquela a voz mais angelical que já tinha ouvido em sua vida, ele acenou em resposta.
- Oh, bom dia. Desculpe, eu fiquei distraído.
- Ah, eu percebi. - Ela riu. - Alguma razão pra ter se distraído olhando pra mim?
- Desculpe, eu não quis parecer estranho. - Ele ficou tímido, o que pareceu divertí-la. - É que às vezes eu sou um pouco distraído mesmo, mas na verdade tive uma impressão...
Ele parou de falar. Ficou sem graça. De repente lhe ocorreu que seria a coisa mais estranha simplesmente dizer a uma mulher desconhecida que sentia que já a conhecia. Ele próprio não sabia dizer o que pensaria se alguém dissesse algo semelhante pra ele. Mas para sua surpresa, ela pareceu genuinamente despreocupada e curiosa.
- Uma impressão? Uma impressão de quê?
- Não sei bem como dizer.
- Pode começar usando as palavras. - Ela riu com descontração.
- Bem... sei que vai parecer estranho, mas... você parece com a garota que eu vi nos meus sonhos.
- Nos seus sonhos?
- Bom... sim, nos meus sonhos.
- Você me viu nos seus sonhos?
- Sei que parece só uma cantada ruim, mas eu juro que sim, te vi nos meus sonhos.
- Acho que consigo entender, eu te vi nos meus sonhos também. Fomos feitos um pro outro.
- Hã?!
Ele teve um estalo e voltou a realidade. Estava encarando a mulher ao pé da escada, que fazia uma expressão mista de gentileza e um pouco de preocupação.
- Oi? Bom dia? Tudo bem com você?
- Ah, sim, sim, bom dia, sinto muito por isso, eu fiquei muito distraído, perdão se te assustei, não fiz por intenção.
Ela pareceu mais despreocupada depois dessa resposta.
- Ah, então está bem. Quem não se distrai num dia lindo desses, não é mesmo?
- Sim, com certeza.
- Bom, então vou indo, até!
Ela começou a seguir seu caminho.
- Você parece com a garota que eu vi nos meus sonhos.
- O quê? Desculpe, disse alguma coisa?
- ...nada, nada mesmo. É realmente um belo dia, né?
- Ah sim, um belo dia.
Ela começou a se afastar, voltando a ser apenas ela e os próprios pensamentos. Ele ficou observando ela partir. Tinha certeza que a tinha visto em seus sonhos, que era o amor da sua vida, que era seu destino. Mas não fez nada além de sorrir enquanto ela seguia pra longe.
- Na vida real ela vai embora... É, faz mais sentido.
27 novembro 2024
O problema sou eu.
No fim das contas não é culpa de ninguém. Pessoas e pessoas passaram por mim, e me fizeram bem, me fizeram mal, me colocaram num pedestal e me feriram sem misericórdia. Teve quem me machucou sem querer, teve quem quase me matou sem saber, e também quem me deu a mão sem perceber, quem me tirou do fundo sem esforço. Mas a verdade é que nada disso nunca foi culpa de ninguém. Eu ainda vou compartilhar todo esse peso, toda essa solidão. Mas infelizmente eu sei que o problema sou eu. O problema sempre fui eu.
25 novembro 2024
Carta de um contratante.
Eu nunca mais vou viver isso de novo
Nada disso estará no meu norte outra vez
E eu serei interessante somente
Aos caprichos da solidão
E dos vícios aos quais me atrelei
Pra não observar com franqueza cruel
A natureza insuportável que me guia
Rumo a caminhos já conhecidos
Num charme inexplicável
Sempre tão elogiado ao sol poente
E ainda assim incapaz de prover algo novo
Que não sejam devaneios miseráveis
Que me impedirão de saltar em queda livre
Mas me manterão em correntes firmes
De desilusão e sobrevivência
Em goles e tragos e risos fingidos
Doente como infecção incurável
Na aparência mais gentil e bela possível
22 novembro 2024
Sessão gritos inaudíveis #13
Não consigo dormir. Não consigo parar de me sentir apenas vazio e mal. Minha coluna tá doendo, e tenho tido muita paralisia do sono. Queria conseguir me esvaziar desses sentimentos e pensamentos tão ruins e tão absurdamente ocos. Queria não querer tanto assim ter um amor pra chamar de meu. Queria me fechar e nunca precisar me aproximar de mais ninguém nesse sentido. Queria que parasse de doer o pensamento. Queria que fosse embora esse lamento. Queria ser melhor, mas não consigo. Não é como se eu não tentasse, eu tento, eu juro que eu tento, às vezes acho até que eu tento com força demais. Eu simplesmente não consigo. Não consigo melhorar. Não consigo sentir as coisas com mais leveza. Não consigo parar de querer esse amor que nunca veio alinhado comigo, seja a curto ou longo prazo. Não veio aos meus 10 anos, nem aos 18, nem aos 24, nem agora e nem amanhã. Queria me acostumar com essa percepção e conseguir ficar em paz. Queria trabalhar, dormir e acordar, sair de casa e viver me sentindo bem de verdade, mas pelo jeito é algo impossível pra mim. Meu coração sente demais, minha cabeça pensa demais, minha consciência me incomoda demais, a vida me entedia demais, e eu sou melancólico demais. Viver me deprime demais, me machuca demais, sinto dores demais, caio vezes demais. É tão difícil ter que me levantar tantas vezes, é tão doloroso sentir tanto e nada ao mesmo tempo. Queria gritar até meus olhos saltarem das órbitas, até minha garganta sangrar e meus pulmões explodirem, até o mundo todo ouvir e sentir o maremoto e a tempestade que existem dentro de mim. Queria devastar o mundo com essa força descomunal de destruir que tento de tempos em tempos adormecer. Meu Deus, eu não aguento mais viver dentro de mim, eu não sou o lugar certo pra mim, alguém me tire daqui. Por que isso faz tanta falta pra mim? Porque importa tanto? Porque sou tão incapaz de me amar? Que desespero, que peso, que insuficiência. Torço pra que um dia as coisas melhorem de verdade, pra que um dia eu possa finalmente me sentir em paz mesmo sem as coisas que desejo com tanto sofrimento. Eu morreria feliz entre os destroços. Um dia quem sabe, mas tenho a impressão que nem isso conseguirei. Passam os anos e segue a máxima: quando eu grito não faz barulho. E algo me diz que nunca fará.
...but not for me.
Dias calorosos de primavera. Flores vivas e belas cumprimentando o caminho. A felicidade de entender pra onde vai. A certeza de querer e ser querido, de amar e ser amado. O sorriso pelas pétalas caindo, o olhar entusiasmado com mais um dia de paz. Encontrar com os amigos sem esforço, entender cada um deles com gentileza. O riso compartilhado da intimidade mais bela e aconchegante com a família, os amigos, o amor. A serenidade de andar de bicicleta a dois no parque, compartilhar o mesmo sorvete, entrelaçar os dedos no cinema, e num beijo sentir que só há duas pessoas no mundo. A confiança de um amanhã melhor. A esperança renovada por uma manhã de ar puro. Os detalhes, as cartas trocadas, as viagens compartilhadas. A calmaria de ser bom, de ter todos perto e bem, de viver tranquilamente, e de amar, de trocar olhares apaixonados, de saber que ali está seu coração. O saber de que a vida é o presente mais apaixonante e gentil do mundo. Tudo isso...
...mas não pra mim.
21 novembro 2024
Das coisas que admito entre soluços e cansaço.
Meu coração é um retalho marcado, manchado e ferido por vidas passadas e erros que nunca vou me perdoar por ter cometido. Sou alguém que se entregou demais e que negou demais o fato de que nunca serei a escolha certa de ninguém, de passos polidos e cansados, do sorriso cativante e tristeza tangível, que vive num eterno tédio, num vazio existencial que não consegue ser alimentado por nada a não ser as fantasias que crio de momentos que nunca viverei com pessoas que nunca alcançarei. Os retratos desbotam, a tinta escurece, o sangue apodrece lentamente pelos vícios já tão inerentes, eu caminho por aí fingindo não ser um grande erro da realidade. Meus olhos enxergam cada vez menos, afetados pela passagem do tempo e pela percepção de que ninguém nunca vai adentrar meu perímetro novamente. Com defesas cada vez mais rachadas e em ruínas, eu tento lavar minha solidão e meus pecados, e me aproximar pra procurar mais uma vez viver e ser feliz, mas é cada vez mais nítido que não fui feito pra ter essa redenção, e o coração amargurado me aconselha a parar, pois não há mais propósito. Eu fecho a porta, me tranco no cubículo sufocante da minha existência deplorável, valorizando a solidão e o ser sozinho que tanto me ferem. As vozes conversam comigo e nenhuma delas tem nada bondoso pra dizer, é como se eu nunca mais fosse conseguir estar repleto de boas emoções e perspectivas promissoras novamente, de alguma maneira eu simplesmente esgotei isso. Eu me obrigo a seguir em frente, e por outra vez fingir que tenho algo belo em meu interior, mas estou cada dia mais cansado, exaurido e terrivelmente entediado. No vazio existencial que me assola, sinto que começo meu processo de desistência. Eu não aguento mais tentar, eu não aguento mais cair, me machucar, eu não consigo mais ferir involuntariamente os poucos que me dão a mão nos espamos do meu sono perturbado e doente. Me olho no espelho e preciso admitir: meu fardo é esse, e sempre será minha sina. Talvez seja melhor desistir.
20 novembro 2024
Amores invejáveis inalcançáveis.
Existem alguns amores que eu, de certa forma, invejo. Amores dos quais experimentei pouco e por pouco tempo, dos quais nunca arranhei mais que superfície, dos quais não entendo verdadeiramente. Amores que hoje, cada vez mais creio, nunca terei, serei ou viverei. Só posso admirar. Os meus, que nunca se concretizaram, ou que vivi mas afastei, mesmo com a intensidade de minhas chamas, arrefeceram, deixaram apenas cinzas ao redor de mim, e feridas abertas por flechas que me transpassaram a carne trêmula. De alguma maneira, entretanto, sou dotado da proeza de vê-los, de me aproximar deles, os amores tão melhores do que os invejados por mim. Eu posso observá-los e percebê-los, posso prever o futuro de cada um deles comigo, e sentir o conforto de cada beijo, de cada perfume que tanto desejei e desejo. Sou capaz de chegar tão perto de seus corações, que as batidas compassam, que tornamo-nos um, que entrelaço meus dedos nos dedos, que puxo pela cintura, que encaro nos olhos, sinto nos lábios e nos cabelos. Mas não sou capaz de mantê-los. Não sou capaz de ir além, de vivê-los além do tempo, nem mesmo posso chegar à plenitude. Sigo amaldiçoado, numa sina que após desabrochar as rosas, termina por incendiá-las ao toque, uma por uma, todas as vezes sem exceção. E em troca sou igualmente ferido, condenado a ter memórias sufocantes, a lembrar de perfumes e detalhes inebriantes, como uma grande ironia do caminho que tenho de trilhar, num espasmo esquálido incessante. Portanto sigo, e sigo sozinho. Mas existem amores que eu, de certa forma, invejo. E mesmo que nenhum deles me pertença, mesmo que eu não seja de nenhum deles, continuarei a invejar, a contemplar com olhos marejados do querer desta vida tão bela, tão gentil, e ao meu ser tão inalcançável.
11 novembro 2024
XXXIV.
34 anos. Eu tenho 34 anos de vida. Isso é assustador de certa forma, quando eu tinha 15 anos parecia que eu nem chegaria nessa idade, era algo tão impossível, tão distante. Parece clichê, mas realmente, passou quase num piscar de olhos. De repente estou aqui, 34 anos, um rascunho mal acabado do que achava que seria, já bastante sulcado de experiências, dias, vícios e sorrisos, e mesmo assim sem ter a mínima ideia do que serei lá na frente. Lembro que certa vez escrevi que não imaginava que cresceria e me tornaria um adulto triste. Era verdade. Dessa vez, entretanto, o que me surpreende é a relação em si tão particularmente ruim que tive e ainda tenho com o período dos 30. Coincidiu com a pandemia, e ambos me quebraram profundamente, me mudaram drasticamente em vários aspectos e percepções. Nem mesmo meu paladar é igual ao que era, nunca mais fui o mesmo. Parece que fiquei muito mais velho, cansado, medroso, insensível e solitário dos 30 pra cá, tudo que tenho certeza é que essa data mexe comigo de uma maneira ruim. A impressão que eu tenho é que ela vem cheia de peso, um peso totalmente desproporcional que me oprime, que me espreme e me sufoca, um tipo de corrida que nunca serei capaz de vencer, mas que tenho de correr pra não morrer. A realidade é que sei lidar cada vez menos com meu envelhecimento. Um pouco pela percepção das rugas, da ressaca mais longa, do fôlego mais curto, mas também por conta do fato de perceber com mais clareza minha mazelas existenciais, meu lugar tão impreciso nesse mundo cada vez mais feio e esquisito que vivo. Já não sei se valorizo algumas das minhas conquistas, mesmo tentando pensar positivo. Talvez seja por isso que a cada ano nessa data eu me isole de maneira mais profunda, e sinta cada vez menos vontade de ver outras pessoas. A passagem do tempo em mim me deprime. É normal, mas me deprime, e eu queria ter a capacidade de simplesmente sorrir e não pensar nisso tudo. Mas esse sou eu, desse jeito, e pensar nisso tudo é um dos meus defeitos. Seja lá como for, pra onde for, do jeito que for, uma coisa permanecerá sempiterna no alicerce da minha construção defeituosa, no âmago prejudicado do meu parco coração: existir é e sempre será exaustivo.
06 novembro 2024
Efeito borboleta.
Fazia sol naquela tarde. Geralmente os momentos com você me aqueciam igualmente, me lembro que eu não precisava de ensaios ao seu lado, você sorria e de repente se dava jeito pra tudo, de repente tudo era fácil. Eu caminhava pelos meus próprios motivos, que àquela altura nada tinham a ver com você ou com suas pegadas, passos mais de um milhão de vezes dados nas ruas e calçadas que eu atravessava e percorria, refazendo de cabeça os detalhes daquele ambiente. De uma maneira muito natural eu não me lembrava dos nomes, das placas, nem de nada dessa mapa, mas meus pés e minha intuição lembravam o que fazer, pra onde andar, virar, quase uma memória muscular de um movimento que repeti milhares de vezes durante 6 ou 7 anos desse esporte profissional que havia se tornado ir até você. Independentemente das minhas razões, era curioso passar por todos aqueles prédios, casas, postes e árvores, era como um episódio do meu próprio seriado, aonde eu, protagonista da minha própria vida e rodeado de transeuntes convidados, rememorava alguns dos melhores momentos de antigos episódios. Eu observava lados, cantos e traços, detalhes e fatos daquele caminho, num agridoce que até então era mais doce e nostálgico, tudo aquilo me era muito familiar, tudo aquilo era meu, e sem nem perceber eu sorri.
Não sei dizer quanto tempo esse devaneio particular durou, mas em dado momento olhei pra frente e me deparei com um par de olhos tão belamente escuros que eu não poderia descrever. Um rosto tão familiar, tão dono de trejeitos tão próprios que eu jamais poderia me esquecer. Naquela tarde de sol, sem mais nem menos ali estava você, na minha frente, no que me pareceu a eternidade de um segundo congelado no tempo. Estranho perceber que mesmo não pensando em você, mesmo não havendo mais a centelha da chama que antes me bombeava o sangue, sem mais nem menos eu me lembrava de todos os seus detalhes, do sorriso levemente enviesado, dos seus dedos finos e delicados, do cabelo curto ligeiramente bagunçado, e até mesmo do seu cheiro e a sensação do seu abraço, sem mais nem menos eu revivi por um instante o nosso laço. O que mudou foi que dessa vez não sorrimos e nos aproximamos, e na verdade seu olhar tão caloroso transmitia medo, apreensão e imprevisto, e os meus provavelmente alguma dor e frustração. Ainda assim você continuava igual. Passeando com o cachorro, as mesmas roupas de antes, o mesmo jeito de andar, a mesma maneira de mexer no cabelo daquela forma despreocupada que eu achava tão marcante. Nesse relato mudo que trocamos, enquanto eu lembrava do nosso primeiro e do nosso último beijo a ponto de reviver a sensação e o gosto dos teus lábios nos meus, o tempo voltou ao normal. Você atravessou a rua pra longe de mim e eu olhei pro chão e segui em frente. Sei que você olhou pra mim enquanto eu me afastava, senti seus olhos em mim, mas não me atrevi a olhar pra trás, não teria essa coragem. Se eu tivesse olhado, talvez eu tivesse parado, talvez eu tivesse ficado, e infelizmente não posso mais correr esse risco, pelo bem do nosso bem.
Conforme eu me afastava de você já não sabia exatamente pra onde ia, meus passos me levavam em piloto automático, me guiando pra longe de você até o portão da sua casa, o qual fingi que não reparei enquanto seguia pra longe dali. Depois de um tempo naquela mesma tarde eu já me encontrava geograficamente distante de você, já tinha fumado, bebido e pensado, já tinha sorrido e me emocionado, já tinha sentido e já tinha xingado, já tinha admitido e também te esnobado. Não sabia direito o que sentir com tudo que havia ocorrido, não era mais tão fácil estabelecer sentimentos por você, fossem eles bons ou ruins. Mesmo igual, também notei que você era só um rosto conhecido, um arquivo de memória revisitado por espasmo, um simples sinal de que minha memória ainda estava em bom estado. E ao fim daquela tarde, dentro de um ônibus e lidando com todos meus demônios, eu vi a chuva cair lá fora sem aviso e totalmente impiedosa, numa torrente feroz e inesperada. E mesmo sem doer dentro do peito, eu encostei a cabeça na janela e chorei em silêncio. Ali, do meu jeito, no meu momento, eu chovi junto com a chuva. Uma mistura de ardência e dormência, que agora eu sabia, era sim muito possível de sentir exatamente dessa forma.