28 novembro 2013

Naquela Época.

Naquela época era tudo mais fácil de lidar, embora não seja tão mais difícil hoje. Era um tempo de inocência e perda da mesma, bem como de enxergar melhor tudo que estava ao meu redor. Era sempre complicado resolver questões simples, talvez por não haver questões realmente complicadas, talvez por eu ser tão inseguro. Ainda assim eu pensava em tudo como se não tivesse mais caminho à percorrer, realmente, eu tinha apenas 16 e já achava que eu sabia demais. Me pergunto se por saber que o muito que sei é pouco hoje em dia, continuo sofrendo da mesma assimetria. Ainda assim não posso admitir quando você olha pra mim como se soubesse de tudo que passei ou deixei de passar, pelo simples fato de você também ter tido a experiência inesgotável de viver.

02 novembro 2013

Cara B.

Se quando voltas pra casa
Me vês sombrio
Dando voltas na valsa
Do desconsolo,
Tem piedade dessa falta de luz,
Hoje eu sou uma moeda que tem dois lados de cruz

E se me notas distante
Estando a teu lado
Como uma réplica mal feita
Do que eu era,
Leve na brincadeira meu salto mortal
Hoje sou apenas uma cópia e você tem o original


Não faças caso
A tanto mistério,
Você já sabe a verdade;
Que não há nada pior para essa seriedade
Que levá-la a sério.

Deixa que fale
Sua proximidade,
Você sabe o motivo,
E não há nada pior para esse coração
Que uma casa vazia


Deixa passar
Essa falta de fé,
Esse disco arranhado que hoje
Tem apenas
Lado B...

01 novembro 2013

Visconde e Viscondessa.

Quis o destino que o Visconde perdesse tua Viscondessa por tão pouco, já ao fim da busca, e com ela foi o amor, que por tanto tempo esteve em seu antigo apuro, tal qual a donzela pela qual o incauto herói voou para tão longe, a fim de encontrar o paradeiro, querendo destruir a maldição que lhe afogava o peito, já tão amargurado em solidão. Nunca mais ouviram falar de tal rapaz, ou de sua meta inalcançável, seja por receio de sua bela, ou por rebeldia do amor, e portanto não se sabe mais do que uma lenda paupérrima, mas enquanto a Viscondessa não lhe estender a mão em resposta, haverá sempre um Visconde por detrás da tua busca, pois coube à ele encontrar o paradeiro do amor, e enfim salvá-lo de seu eterno apuro, e ele o fará, não importando quantas vidas tenha de viver para enfim poder amar.

Lembrança De Uma Noite De Verão.

Abriu os olhos. Estava difícil conseguir dormir. Ela dormia profundamente ao seu lado. Ele olhou para o seu rosto enquanto ela dormia, notando o modo tão compassado de sua respiração, o semblante num tipo de paz quase inalcançável, os gestos agora restritos a curtas demonstrações de conforto e inconsciência. Ele acariciou seus cabelos, ajeitando uma mecha atrás da orelha, sentindo cada nuance de seu gesto como um tipo de verdade indubitável em que ela se traduzia maravilhosa apenas por conseguir dormir tão profundamente e ainda assim anunciar todos os detalhes de sua existência deslumbrante.

Cila e Caribde.

Cila era o nome de um afloramento de rochas afiadas contra o qual os navios se chocavam até afundar. Caribde era um redemoinho. Um redemoinho muito forte. Uma vez que se fosse apanhado por ele, era impossível escapar. O redemoinho sugava e despedaçava. De certa forma somos nós, Cila e Caribde, a cruz e a espada, uma escolha pra duas terríveis opções. Eu, do alto de minha incapacidade em lidar, torno-me com o tempo a causa dos naufrágios, da queda, dos fracassos, e tu, com toda a sua ambivalência, torna-se impiedosa em tua própria natureza, e sem querer devasta, despedaça, com toda a tua desgraça. É inquietante que dois tipos de caos com vida tenham pensado em dar as mãos ao menos uma vez, e que tenha sido surpresa a forma que acabou. Eu fui destruído, você naufragou. O que esperávamos? Sou a cruz, tu é a espada, sou Cila, tu é Caribde. O lado errado da batalha corre em nossas veias, cuspimos veneno, mesmo sem ter presas. E separados já causamos incontáveis danos imensos, deveríamos ter notado que não daria certo, que estando juntos jamais ficaríamos ilesos.