31 julho 2024

Um breve instante.

Sentar no sofá e conversar
Te ouvir falar e dar risada
Jantar ouvindo música
Tomar um banho quente
Deitar juntos e assistir algo
A vida tem seus momentos

Cores com sabor.

Se um dia eu pudesse te emprestar meus olhos
Se um dia eu pudesse te emprestar meu tato
Se um dia eu pudesse te emprestar meu olfato
E meus sentidos mais profundos e aguçados
Você entenderia como te vejo de fato
Como me traz paz o seu trato
Como pareço não viver sem teu abraço
Como sua beleza é tranquila e divina
Como seu riso e sua conversa me trazem alegria
Como sermos o que somos me faz melhor
Como você me faz manter a fé no que está ao meu redor
Se eu pudesse te emprestar meu coração
Você sentiria meia batida por segundo
E veria um pouco mais além dessa união
Porque é parte do seu que completa meu mundo
Não me entenda mal, sei aonde estamos
Mas é à partir dessa base
Que completo cada frase
E apesar de não precisarmos fazer planos
É dessa visão que sei pra onde vamos

Same Sky.

My soul is the moon
Your soul is the sun
And sometimes we look to each other
At the same moment
In the very same sky
And when it happens
My silver light and your golden light
Can reach at us and touch
Just like lingering fingers
Just like friends do with hugs
Or like lovers do with passion
And I know for a fact
We can save each other
For just a moment and for eternity
We are the nights of tormenta
We are the halcyon days

26 julho 2024

Queda inevitável.

 Ela cai rapidamente, o vento zunindo em seus ouvidos, as roupas farfalhando com ferocidade. Cada vez mais rápido, mais impetuosa, cair é realmente meteórico. Perdendo o senso de direção, por um momento já não sabe mais se está caindo para baixo ou para cima. Uma bala rasgando o espaço ao seu redor. Não há espaço para emoções prolongadas, o coração não se faz sentir, a velocidade é soberana e a gravidade aproxima o fim da queda pelo ar. Com um estrondo muito mais alto do que imaginava suas costas batem em uma parede azul de água, abrem o concreto imaginário a força, seus olhos se arregalam com surpresa e de repente tudo muda. O som nos ouvidos abafa, o coração se faz ouvir e sentir por todo o corpo. De repente o mundo está em câmera lenta, letárgico, quase estático. Há luz do céu, mas conforme ela afunda a luz se distancia. É difícil se mexer com leveza ou exatidão e um frio sobrenatural se apossa de seu corpo. Lentamente ela continua caindo, afundando enquanto tenta alcançar o ar que este ambiente lhe nega. A boca se abre, mas o som da voz não propaga. Tudo ali é silencioso e devagar. Aos poucos os olhos se fecham, ainda que os braços permaneçam erguidos, os dedos tentando alcançar a superfície. Por um momento ela pode jurar que sente dedos de outra mão segurando a sua, procurando por seu pulso, mas a consciência se esvai. Seu último pensamento é que gostaria de ser salva, ou ao menos que essa outra mão fosse daquele alguém especial. Seja por se recusar a deixá-la ir ou por aceitar ir com ela, que fosse a mão que conhecia. Se assim fosse, viveria ou morreria em paz.

Paralisia.

Se vocês pudessem me ver agora
Provavelmente se assustariam
Ou talvez nem me reconheceriam
Eu mesmo não me reconheço
No reflexo vejo apenas pedaços
Trapos chamuscados
Ferido e carbonizado
Tremendo involuntariamente
E algo esburacado
Dolorido e flagelado
Num escuro traumatizado
Onde antes estava um rosto
E no peito algo doente
Ressecado e amaldiçoado
Onde deveria estar um coração

Sessão gritos inaudíveis #09

Às vezes eu me pergunto se nos meus terrores noturnos eu vejo realmente coisas que não existem. Conheço a sensação. Não conseguir se mexer, a pressão imensa no peito, como um peso enorme que me impede de respirar, o sufocar da própria voz, as dores pelo corpo, a rigidez, nos piores casos a náusea e o pânico fora de controle. Meus olhos sempre estão vidrados em algo, e é quando vejo meus pesadelos, cenários de inferno inacabável, preto e vermelho como chamas, sombras e sangue, seres antropomórficos, deformados, lacerados, demoníacos e bestiais que me assombram e sorriem de maneira desvairada. Olhos gigantes que sangram, amputações putrefadas, garras que me perseguem e bestas que querem tirar minha vida da maneira mais sanguinolenta possível. Passo por isso há mais tempo do que consigo me lembrar com exatidão, de certa forma até aprendi a lidar um pouco melhor, mas... será que meus terrores noturnos realmente não existem? Não me entenda mal, eu sei o que acontece comigo, digo, cientificamente falando. Mas e se... e se eles forem reais? De onde surgiram? Como criei cada um deles? Às vezes eu tenho esse medo. E se no fundo eu sou cada um deles por dentro? E se eles vieram de dentro de mim? Surgindo pra de alguma forma me dizer que eu os vejo e os temo e que eles me aterrorizam porque são a parte real mais íntima das entranhas do meu desespero e da minha falência existencial. Às vezes tenho medo que seja isso. É um pensamento, no mínimo, inquietante.