Ela cai rapidamente, o vento zunindo em seus ouvidos, as roupas farfalhando com ferocidade. Cada vez mais rápido, mais impetuosa, cair é realmente meteórico. Perdendo o senso de direção, por um momento já não sabe mais se está caindo para baixo ou para cima. Uma bala rasgando o espaço ao seu redor. Não há espaço para emoções prolongadas, o coração não se faz sentir, a velocidade é soberana e a gravidade aproxima o fim da queda pelo ar. Com um estrondo muito mais alto do que imaginava suas costas batem em uma parede azul de água, abrem o concreto imaginário a força, seus olhos se arregalam com surpresa e de repente tudo muda. O som nos ouvidos abafa, o coração se faz ouvir e sentir por todo o corpo. De repente o mundo está em câmera lenta, letárgico, quase estático. Há luz do céu, mas conforme ela afunda a luz se distancia. É difícil se mexer com leveza ou exatidão e um frio sobrenatural se apossa de seu corpo. Lentamente ela continua caindo, afundando enquanto tenta alcançar o ar que este ambiente lhe nega. A boca se abre, mas o som da voz não propaga. Tudo ali é silencioso e devagar. Aos poucos os olhos se fecham, ainda que os braços permaneçam erguidos, os dedos tentando alcançar a superfície. Por um momento ela pode jurar que sente dedos de outra mão segurando a sua, procurando por seu pulso, mas a consciência se esvai. Seu último pensamento é que gostaria de ser salva, ou ao menos que essa outra mão fosse daquele alguém especial. Seja por se recusar a deixá-la ir ou por aceitar ir com ela, que fosse a mão que conhecia. Se assim fosse, viveria ou morreria em paz.
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