13 novembro 2016

Plume.

"Why do we give ourselves to other people? Not just for their bodies, but for everything else, too. Their dreams, their scars, their stories. I only ever fall in love with the broken, because I am broken, and I know without that other piece of me, I will never be the person I was destined to be".
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Oliver Sykes

Ageless.

Nunca tive
Em nenhum de meus dias
Uma natureza otimista
Não de fato.


Nunca acreditei
De forma alguma
Que eu seria algo além
De minha sina.


Transfigurado
Em oceano profundo
Entre criaturas
Me afogo em mim.


E eu não espero
Sobreviver ao peso
Nem mesmo ao fardo
Das pessoas.


Só queria por um dia
Não ver tédio, e tristeza
E esse desinteresse
Em tudo.

08 novembro 2016

Morada.

A noite ia alta, já em seu esplendor dominante da madrugada, poderosa e fulminante. Fazia frio, mas o clima estava agradável, o que me deixava pensando se aquele frio não era apenas algo que emava de meu coração assustado. Eu costumava passar horas acordado, pensando em como tudo havia mudado, e em como eu já fazia parte de outro mundo ao fim das contas. Era um pensamento inquietante, o tipo de pensamento que me fazia querer afogar meu cérebro em um balde de uisque. Eu vagava pela casa, de cômodo em cômodo, quando ouvi a maçaneta girar e ele entrou. Parecia feliz de uma forma impiedosa. Ele era assim, eu não entendia, mas procurava não questionar em voz alta. Me viu de pé na sala, ao lado do piano.
- Bom dia, irmão - Sorriu, embora não fosse um sorriso agradável de notar. - Continua observando as horas que passam?
Não era um interesse genuíno, eu sabia, mas não me incomodei.
- Observar é melhor do que me perder - Respondi.
- Você não devia se preocupar com o que não há como mudar. É desperdício de tempo.
- Você tem um jeito interessante de se entregar.
- Você tem um jeito interessante de se culpar. - Respondeu enquanto ria e tirava os sapatos.
- Acho que você não sabe do que está falando.
- Ah, mas eu sei sim, sei do seu arrependimento. É tarde, irmão, basta que aceite.
- Aceitar?
- Sim, aceitar. Aceite que não somos diferentes.
- Isso eu não poderia dizer, eu vejo cada hora que você ocupa com antídotos momentâneos e falsos prazeres. Vejo cada uma de suas ações e não posso apagar nenhuma delas.
- Está me chamando de pecador? - Falou divertido.
- O que mais eu poderia dizer? - Acrescentei, sentindo um escárnio em minha voz que não me era característico.
- Veja só, rosnando ao próprio irmão. Somos iguais, S.
- Nunca serei igual você, M.
- É, pensando bem você pode ter razão, temos uma diferença determinante, e isso devo admitir que é inegável.
- Não sei do que está falando.
- Sabe sim, e eu também. Você luta contra seus medos, eu brinco com os meus, aceito minha condição de pecador, tal como deve ser.
- Meu pecado não consiste nisso ou naquilo, mas em ter trocado apertos de mão com o Diabo. Agora faço parte desse outro mundo, mas me dói não poder retornar.
- E então você finge sua inocência. Sinto dizer-lhe, mas sua busca por redenção é a maior das mentiras. Nada mais vai te salvar.
- Não procuro salvação, uma penitência banhada em perdão será ainda uma penitência.
- De fato, mas diga-me, se está tão preocupado em abandonar a noite, por que sai pra beber, fumar, e dizer mentiras?
Emudeci. Eu não sabia o que dizer, e mesmo que soubesse, meu reflexo ao espelho saberia que seria apenas uma resposta vazia.
Fui ao banheiro, lavei o rosto, deitei de camisa e gravata. S e M, eu era os dois. Dia e noite. Pólos distintos. Duas personalidades e um só corpo. Conheci o mal e fiz dele morada, mas ainda assim teimava em querer ser bom. Que piada.

06 novembro 2016

Doomed.

Sometimes I wonder
Why are we all here?
Call me a nihilist
I guess I'm just unclear.

To why I bother
Why I try
Death is on my mind so much
It makes me wanna die.

I lost my wife this year
We've lost our friend
Always fighting battles
But they never seem to end.

Are we just ladders
In a world of snakes?
Cus' if lifes just one big fucking game
Well I don't wanna play.

So come and sing me
Sing me asleep
I dealt with too much fucking shit
And now I'm in too deep.

Cut off my wings
My flowers bloomed
You want salvation
Well I'm sorry...

We're all doomed.
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Oliver Sykes

05 novembro 2016

Normalidade.

Alguns anos atrás, dez anos atrás, pra ser mais exato, eu tentava me tornar um jogador de futebol profissional. Naquela época eu era mais baixo e magrelo do que sou agora, mas era também mais rápido e preciso no que se referia a esse esporte. Eu treinava em um clube amador, e de todos, era talvez o mais mirrado, o mais tímido, quieto e modesto, mas eu já estava acostumado, e lidava com normalidade. Certa manhã, estávamos treinando e o professor mandou treinarmos finalizações. Era, sem dúvida alguma, a pior parte do treino pra mim. Eu era um lateral direito muito bom, cruzava bolas longas, fazia alguns lançamentos, mas meu chute a gol de média e longa distância era deficiente. Eu não conseguia empregar a força necessária em um chute direto a gol. Começamos o treino. Um por um, tocávamos a bola ao professor, ele ajeitava a bola mais ou menos na entrada da área, e nós corríamos e chutávamos, na tentativa de marcar o gol. Meus colegas começaram bem, marcando a cada chute que davam, mas meus chutes o goleiro sempre defendia e sorria, debochado. Eu não ligava. O treino seguiu, e depois de algum tempo o cansaço começava a minar a pontaria e a potência dos chutes de todos, e o goleiro começou a defender tudo que era disparado contra ele. O garoto era bastante convencido, e começou a fazer defesas plásticas, com ângulos bonitos, exibindo seus reflexos. O professor percebeu e perguntou "será que ninguém mais vai marcar no fulano?", enquanto ajeitava a bola pra mim, que não tinha marcado nenhum gol, e estava louco de raiva. O que narro a seguir aconteceu numa fração de segundos, mas em minha percepção aconteceu devagar. Ao notar que o chute era meu, o garoto abriu um sorriso, mas tentou se conter e manter a concentração. Pensei no que devia fazer. Eu sabia que ele era ótimo em chutes rasteiros, e que tinha um reflexo ótimo pra chutes de meia altura. Nesse caso o que me restava era o que eu não conseguia fazer: um chute potente com efeito que acertasse o ângulo superior. Eu sabia que seria difícil, mas estava danado como o diabo, e decidi que marcaria aquele gol e murcharia a soberba daquele garoto. Minha postura fez o goleiro perceber que viria um balaço, e ele se adiantou para defender. Corri pra bola o mais rápido que pude, aumentando a velocidade a cada passo, me concentrei, armei o chute e... errei! Quando firmei o pé esquerdo de apoio no chão, ele estava longe demais da bola, isso me tirou alcance, e meu pé direito acabou pegando embaixo na bola, embaixo demais. Pelo que me constava, essa bola iria para fora de um estádio. Mas o alcance reduzido que tirou a precisão, também fez com que eu perdesse a força no chute. Isso combinado fez a bola subir, surpreendendo o goleiro, que havia se adiantado, preparado para algo diferente. Ao perceber a bola subindo ele travou a corrida e pulou para trás, tentando espalmar a bola. Não conseguiu. Caiu de costas e a bola o encobriu, caindo dentro do gol com suavidade. Eu tinha feito um golaço por cobertura! O professor me olhou e gritou aos outros "agora sim! Façam como ele, surpreendam!", e depois disse ao goleiro "e você tem que aprender a não deixar o sucesso te subir a cabeça". Meus colegas me cumprimentaram, pois sabiam que aquilo não era comum pra mim. E eu, envaidecido, aceitei o mérito, escondendo de todos que na verdade eu tinha errado completamente. No dia seguinte, ainda animado, fui treinar, os colegas me pediram para que surpreendesse o goleiro de novo. Eu não prometi, mas decidi tentar, tomado por uma confiança súbita. Depois de um tempo chutando, decidi que era hora. Dessa vez me preparei desde o começo da corrida até a bola para um chute por cobertura. Deu tudo errado. Minha corrida lenta me denunciou, percebendo isso, o goleiro não se adiantou, o chute foi fraco demais, a bola não subiu o suficiente, e com um pulo ele encaixou a bola entre as mãos facilmente. Ninguém riu, tudo apenas voltou a normalidade: Régis não marcava gols.
Naquele dia percebi que eu era um mentiroso clássico. O mentiroso que acaba se convencendo que sua própria mentira é verdade, e tenta viver algo que não existe, e depois acaba frustrado por suas próprias ilusões, derrotado por sua vaidade. O interessante é que dez anos depois, continuo me perdendo em minhas próprias mentiras, e saber disso não faz com que eu consiga escapar de nenhuma delas. Dez anos depois percebo que continuo a ser aquele menino que não sabia chutar em gol. Pensar nisso me faz enxergar que de fato, o tempo é impiedoso, implacável, e acima de tudo relativo. É assombroso.