05 novembro 2016

Normalidade.

Alguns anos atrás, dez anos atrás, pra ser mais exato, eu tentava me tornar um jogador de futebol profissional. Naquela época eu era mais baixo e magrelo do que sou agora, mas era também mais rápido e preciso no que se referia a esse esporte. Eu treinava em um clube amador, e de todos, era talvez o mais mirrado, o mais tímido, quieto e modesto, mas eu já estava acostumado, e lidava com normalidade. Certa manhã, estávamos treinando e o professor mandou treinarmos finalizações. Era, sem dúvida alguma, a pior parte do treino pra mim. Eu era um lateral direito muito bom, cruzava bolas longas, fazia alguns lançamentos, mas meu chute a gol de média e longa distância era deficiente. Eu não conseguia empregar a força necessária em um chute direto a gol. Começamos o treino. Um por um, tocávamos a bola ao professor, ele ajeitava a bola mais ou menos na entrada da área, e nós corríamos e chutávamos, na tentativa de marcar o gol. Meus colegas começaram bem, marcando a cada chute que davam, mas meus chutes o goleiro sempre defendia e sorria, debochado. Eu não ligava. O treino seguiu, e depois de algum tempo o cansaço começava a minar a pontaria e a potência dos chutes de todos, e o goleiro começou a defender tudo que era disparado contra ele. O garoto era bastante convencido, e começou a fazer defesas plásticas, com ângulos bonitos, exibindo seus reflexos. O professor percebeu e perguntou "será que ninguém mais vai marcar no fulano?", enquanto ajeitava a bola pra mim, que não tinha marcado nenhum gol, e estava louco de raiva. O que narro a seguir aconteceu numa fração de segundos, mas em minha percepção aconteceu devagar. Ao notar que o chute era meu, o garoto abriu um sorriso, mas tentou se conter e manter a concentração. Pensei no que devia fazer. Eu sabia que ele era ótimo em chutes rasteiros, e que tinha um reflexo ótimo pra chutes de meia altura. Nesse caso o que me restava era o que eu não conseguia fazer: um chute potente com efeito que acertasse o ângulo superior. Eu sabia que seria difícil, mas estava danado como o diabo, e decidi que marcaria aquele gol e murcharia a soberba daquele garoto. Minha postura fez o goleiro perceber que viria um balaço, e ele se adiantou para defender. Corri pra bola o mais rápido que pude, aumentando a velocidade a cada passo, me concentrei, armei o chute e... errei! Quando firmei o pé esquerdo de apoio no chão, ele estava longe demais da bola, isso me tirou alcance, e meu pé direito acabou pegando embaixo na bola, embaixo demais. Pelo que me constava, essa bola iria para fora de um estádio. Mas o alcance reduzido que tirou a precisão, também fez com que eu perdesse a força no chute. Isso combinado fez a bola subir, surpreendendo o goleiro, que havia se adiantado, preparado para algo diferente. Ao perceber a bola subindo ele travou a corrida e pulou para trás, tentando espalmar a bola. Não conseguiu. Caiu de costas e a bola o encobriu, caindo dentro do gol com suavidade. Eu tinha feito um golaço por cobertura! O professor me olhou e gritou aos outros "agora sim! Façam como ele, surpreendam!", e depois disse ao goleiro "e você tem que aprender a não deixar o sucesso te subir a cabeça". Meus colegas me cumprimentaram, pois sabiam que aquilo não era comum pra mim. E eu, envaidecido, aceitei o mérito, escondendo de todos que na verdade eu tinha errado completamente. No dia seguinte, ainda animado, fui treinar, os colegas me pediram para que surpreendesse o goleiro de novo. Eu não prometi, mas decidi tentar, tomado por uma confiança súbita. Depois de um tempo chutando, decidi que era hora. Dessa vez me preparei desde o começo da corrida até a bola para um chute por cobertura. Deu tudo errado. Minha corrida lenta me denunciou, percebendo isso, o goleiro não se adiantou, o chute foi fraco demais, a bola não subiu o suficiente, e com um pulo ele encaixou a bola entre as mãos facilmente. Ninguém riu, tudo apenas voltou a normalidade: Régis não marcava gols.
Naquele dia percebi que eu era um mentiroso clássico. O mentiroso que acaba se convencendo que sua própria mentira é verdade, e tenta viver algo que não existe, e depois acaba frustrado por suas próprias ilusões, derrotado por sua vaidade. O interessante é que dez anos depois, continuo me perdendo em minhas próprias mentiras, e saber disso não faz com que eu consiga escapar de nenhuma delas. Dez anos depois percebo que continuo a ser aquele menino que não sabia chutar em gol. Pensar nisso me faz enxergar que de fato, o tempo é impiedoso, implacável, e acima de tudo relativo. É assombroso.

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