08 novembro 2016

Morada.

A noite ia alta, já em seu esplendor dominante da madrugada, poderosa e fulminante. Fazia frio, mas o clima estava agradável, o que me deixava pensando se aquele frio não era apenas algo que emava de meu coração assustado. Eu costumava passar horas acordado, pensando em como tudo havia mudado, e em como eu já fazia parte de outro mundo ao fim das contas. Era um pensamento inquietante, o tipo de pensamento que me fazia querer afogar meu cérebro em um balde de uisque. Eu vagava pela casa, de cômodo em cômodo, quando ouvi a maçaneta girar e ele entrou. Parecia feliz de uma forma impiedosa. Ele era assim, eu não entendia, mas procurava não questionar em voz alta. Me viu de pé na sala, ao lado do piano.
- Bom dia, irmão - Sorriu, embora não fosse um sorriso agradável de notar. - Continua observando as horas que passam?
Não era um interesse genuíno, eu sabia, mas não me incomodei.
- Observar é melhor do que me perder - Respondi.
- Você não devia se preocupar com o que não há como mudar. É desperdício de tempo.
- Você tem um jeito interessante de se entregar.
- Você tem um jeito interessante de se culpar. - Respondeu enquanto ria e tirava os sapatos.
- Acho que você não sabe do que está falando.
- Ah, mas eu sei sim, sei do seu arrependimento. É tarde, irmão, basta que aceite.
- Aceitar?
- Sim, aceitar. Aceite que não somos diferentes.
- Isso eu não poderia dizer, eu vejo cada hora que você ocupa com antídotos momentâneos e falsos prazeres. Vejo cada uma de suas ações e não posso apagar nenhuma delas.
- Está me chamando de pecador? - Falou divertido.
- O que mais eu poderia dizer? - Acrescentei, sentindo um escárnio em minha voz que não me era característico.
- Veja só, rosnando ao próprio irmão. Somos iguais, S.
- Nunca serei igual você, M.
- É, pensando bem você pode ter razão, temos uma diferença determinante, e isso devo admitir que é inegável.
- Não sei do que está falando.
- Sabe sim, e eu também. Você luta contra seus medos, eu brinco com os meus, aceito minha condição de pecador, tal como deve ser.
- Meu pecado não consiste nisso ou naquilo, mas em ter trocado apertos de mão com o Diabo. Agora faço parte desse outro mundo, mas me dói não poder retornar.
- E então você finge sua inocência. Sinto dizer-lhe, mas sua busca por redenção é a maior das mentiras. Nada mais vai te salvar.
- Não procuro salvação, uma penitência banhada em perdão será ainda uma penitência.
- De fato, mas diga-me, se está tão preocupado em abandonar a noite, por que sai pra beber, fumar, e dizer mentiras?
Emudeci. Eu não sabia o que dizer, e mesmo que soubesse, meu reflexo ao espelho saberia que seria apenas uma resposta vazia.
Fui ao banheiro, lavei o rosto, deitei de camisa e gravata. S e M, eu era os dois. Dia e noite. Pólos distintos. Duas personalidades e um só corpo. Conheci o mal e fiz dele morada, mas ainda assim teimava em querer ser bom. Que piada.

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