13 outubro 2014

*Ainda sem título*



Outra vez vou caminhando lentamente com as mãos nos bolsos, enquanto o vento frio cumprimenta meu rosto desprotegido. Estamos no inverno, mas o sol aparece entre algumas nuvens e prédios, esquentando ligeiramente meu corpo bem agasalhado. Atravessei um cruzamento e depois de mais algumas ruas cheguei ao Fran's Café, um café 24 horas em que costumo passar grandes partes das minhas horas matutinas. Sentei em uma das mesinhas redondas e aconchegantes na parte de fora do café, e logo uma moça de aparência simpática, com uma touca de proteção nos cabelos, e um avental azul escuro com o nome bordado veio em minha direção.
- Bom dia, senhor Christopher. O que vai querer hoje?
- Jess, eu venho aqui quase todos os dias a mais de um ano. Pode me chamar pelo meu primeiro nome... na verdade até prefiro assim.
- Eu sei, Lucas, só estava tentando te irritar. - Ela sorriu.
- Cada dia que passa você fica mais boba. - Sorri de volta.
- Eu faço o que posso. E aí, o mesmo de sempre?
- Sim, por favor.
- Você manda.
Depois que ela entrou novamente, me estiquei na cadeira e relaxei os músculos do pescoço. Olhei meu relógio, quase nove da manhã. Ela estava atrasada. Bem, ela sempre foi uma mulher de muitos compromissos e pouca pontualidade. O vento parou de soprar forte, então tirei meu blusão e o pendurei na cadeira. Ajeitei a gola alta da camiseta no pescoço, isto deveria bastar.
Em alguns minutos, Jess voltou, carregando uma bandeja com uma caneca fumegante de café preto, e um prato com dois croissants de chocolate. Colocou tudo na mesa e se afastou um passo enquanto abraçava a bandeja. Esperei que ela voltasse para dentro, mas ela não se moveu um centímetro sequer.
- Algum problema? - Apoiei meu queixo em uma das mãos e franzi a testa.
- Só um...
- Então, vamos a ele.
- Acha mesmo que eu trouxe tudo apenas por causa dos seus belos olhos castanhos?
- E o que você quer?
- Fora o dinheiro do pedido, acho que um 'obrigado' é suficiente. - Ela sorriu. Parecia estar se divertindo com a minha cara.
- Obrigado por este desjejum tão bem feito e tão saboroso, que você teve o sacrifício de me trazer. Serei eternamente grato! - Disse exageradamente enquanto fazia uma pequena mesura, mas sorri de canto. Ela riu.
- Agora está melhor. Posso voltar ao trabalho com o alívio de saber que alguém tããão importante assim é grato por meus serviços! - Ela realmente estava se divertindo com a minha cara. Mas ela fazia isso com alguma frequência, não me incomodava, na verdade me divertia.
- Você é um doce, Jess. - Acentuei com sarcasmo, semicerrando os olhos.
- Eu faço o que posso. - Disse fingindo jogar o cabelo com a mão enquanto voltava para dentro.
Peguei meu celular e abri o bloco de notas, bebi um gole do café, e comecei a tentar me inspirar. Depois de alguns goles e nada digitado, desisti e guardei o celular no bolso. De uns tempos pra cá era difícil escrever, mas isso era parte da coisa toda. Horas. Nove e vinte e cinco. Bem, eu não estava com pressa. Mas exatamente quando pensei nisso, uma mulher de botas marrons e casaco bege veio caminhando apressada de forma barulhenta. Já não era sem tempo. Ela me cumprimentou com um beijo rápido nos lábios e sentou em minha frente.
- Me desculpe pelo atraso, precisei dar uma passada no atelier pra ver algumas coisas.
- Tudo bem. - Eu não estava surpreso, Giovanna tinha o próprio ritmo.
- E então, você pediu algo para mim?
- Na verdade não, mas fique à vontade. - Apontei para o pequeno botão em relevo ao canto da mesa. Ela apertou e um minuto depois, Jess veio à nossa mesa com uma expressão moderada de tédio.
- Posso anotar seu pedido? - Ela perguntou com alguma indisposição.
- Hã... um capuccino e uma porção mini de pães de queijo.
- Só isso?
- Só isso, pode ir. - Ela acenou com a mão, mandando-a embora. Jess abriu a boca pra responder algo que com certeza seria de mau tom, então resolvi intervir.
- Por favor. - Eu disse olhando pra Giovanna.
- O que foi? Eu não disse nada demais.
- Às vezes você esquece de algumas coisinhas, tipo por favor e obrigado.
- Acho que isso valeu mais que um obrigado. Valeu, Lucas. - Disse com um sorriso triunfante enquanto ia preparar o pedido. Me ajeitei na cadeira para o que com certeza viria.
- Vai me humilhar em público agora?
- Você é quem está fazendo isso.
- Vai ficar do lado da garçonete em vez da sua namorada?!
- Era só um por favor...
- Isso não vem ao caso, você é meu namorado!
- Tá bom, desculpe, eu errei nisso, mas você também errou, não se trata os outros assim.
- Você não vai me irritar logo de manhã.
- Vamos tentar não nos irritarmos, então. Pronto, por favor.
Ela me olhou com um certo mau humor, respirou fundo e pegou um dos meus croissants de chocolate.
- Certo. - Disse enquanto mordia o croissant. - Na verdade, eu marquei esse encontro com você porque queria conversar sobre algo importante.
- Defina "importante".
- Nós.
- E lá vamos nós de novo...
- Sem piadas, Lucas, estou falando sério.
- Tá bem. Estou ouvindo.
- Bem, ultimamente eu tenho me sentido diferente em relação ao nosso namoro. Mais do que já estava. Estamos a quatro anos juntos, mas nos últimos tempos venho querendo te dizer umas coisas.
- Hum...
- Essa é sua resposta?
- Me diga o que precisa dizer, não gosto muito desses rodeios, principalmente porque, nesse caso, já sei o que está por vir.
Ela não pareceu ouvir minha resposta, mas prosseguiu.
- Está bem. Então escute, eu sei que nós amamos um ao outro, mas isso não está dando certo. Eu sou uma mulher de princípios. Sei de minhas responsabilidades. Vou ao atelier, faço meu trabalho, traço planos, busco voos mais altos na vida. Eu sou uma mulher feliz com meus objetivos. Mas você... você é acomodado.
- Eu sou, é?
- Pare com esse sarcasmo! Você é um escritor de muito talento que está passando por uma fase medíocre a quase dois anos! Não importa quantos trabalhos na redação daquele escritório empoeirado você faça pra poder pagar as contas, essa não é a sua profissão, e não vai te levar a legar nenhum! Você é um escritor que não escreve! Acha mesmo que as coisas vão mudar sem você fazer nada?!
- Geralmente não gosto de forçar inspiração. Como alguém que se envolve com arte, você deveria compreender. E ganho o suficiente com meu trabalho na redação, posso me sustentar muito bem, obrigado.
- Com licença. - Jess interrompeu enquanto colocava o pedido de Giovanna na mesa. - Capuccino, pães de queijo, algo mais?
Percebi que Giovanna ficou irritada com a interrupção pra receber o pedido. Resolvi dizer algo pra situação não sair do controle.
- Obrigado Jess, mas nos dê licença um momento, sim?
- Tá bem. Boa sorte. - Ela se afastou pra atender outra mesa.
- Essa garçonete é muito irritante!
- Ela exagerou mais cedo, mas não fez por mal.
- Pare de defende-la!
- Só estou dizendo que ela não tem culpa por estarmos com problemas. Mas enfim, você dizia?
Giovanna respirou, retomando o raciocínio.
- Bem, eu te amo, mas você é o oposto de mim. Não posso continuar uma relação com uma pessoa assim. Você não é disciplinado, não tem ambição, você é um homem de 30 anos que está estagnado, e isso me consome! Eu sempre gostei muito do seu jeito de lidar com os problemas, mas faz tempo que eu olho pra você e não vejo meu namorado, vejo uma grande massa ranzinza sem cor.
- Entendo. Pode não parecer, mas realmente sinto muito por isso. Suponho que isso aqui seja o fim então?
- Sim, é. Eu pensei muito durante muito tempo, e não queria que as coisas terminassem dessa maneira, mas você e eu somos incompatíveis.
Mesmo sabendo que era isso que tinha vindo dizer, fiquei um pouco em silêncio, reparando ao meu redor.
- O dia está bonito, não acha?
- O quê?
- O dia. Olhe ao seu redor um instante. Está realmente um belo dia. O frio diminuiu um pouco, o sol está mais agradável agora. Sem trânsito, sem correria. É o tipo de coisa que faz você pensar que o mundo é realmente um lugar incrível, não acha?
- O que você está dizendo?
- Você tem sua maneira de lidar com as coisas, e eu tenho a minha. Só me responda, por favor.
- Do mundo não sei, mas está um dia bonito. Muito bonito.
- Absolutamente. Mas sabe qual é a ironia disso tudo? Enquanto estamos aqui, bebendo café e conversando, e alguém nesse momento está saindo de casa e se perguntando aonde foi parar o carro. Alguém está olhando muito cansado para o notebook, tentando organizar os estudos em vez de dormir. Alguém está engolindo os próprios pensamentos pra não enlouquecer. Você sabe o que está entre nós e todos eles?
- Não, como eu saberia algo assim?
- Você costumava ser um pouco mais perceptiva. Enfim, entre nós e eles há o mesmo dia lindo. Consegue ver a ironia disso?
- Sim, consigo. Mas dentro do que estamos conversando, pra quem não gosta de rodeios, você está se superando.
- Desculpe. Eu quis dizer que apesar de ter sido doloroso escutar o que você disse, e de saber que está doendo em você também, eu compreendo e não a culpo, porque mesmo no dia mais bonito, enquanto coisas lindas nos distraem, coisas ruins acontecem. É uma pena que desta vez tenha acontecido conosco.
Ela parecia ligeiramente espantada com minha reação. Depois de muito tempo a vi completamente calada. Talvez esperasse mais irritação ou mais frases sarcásticas, mas com certeza não esperava o que eu disse, ou talvez a maneira que eu disse. Essa constatação, de certa forma, doeu mais do que imaginei. Mas eu não poderia culpa-la, realmente éramos diferentes.
- É isso, é esse Lucas que sumiu faz tempo.
Giovanna bebeu alguns goles do seu café, e depois de alguns segundos pareceu mais desperta. Se levantou e passou a mão pela lateral do meu rosto.
- Você sempre foi um ótimo escritor. Só queria conseguir esperar você voltar.
- Você sempre foi feliz e obstinada. Eu entendo - Devolvi com gentileza no olhar.
- Ainda temos o que resolver, mas é isso.
- Foi bom falarmos disso. Era preciso. Se cuida.
- Você também. Ah, faço questão de pagar minha parte.
Ela bebeu mais um gole rapidamente, abriu a bolsa e tirou uma nota de 50, deixou em cima da mesa e foi embora. Fiquei olhando ela partir daquele jeito dela, meio barulhento. Se a conheço, ela estava prestes a trabalhar compulsivamente hoje. Então Jess se aproximou e sentou rapidamente, me assustando.
- Como foi?
Não respondi.
- Tão difícil assim?
- Sim, mas o que na vida não há de ser, não é mesmo?
- Olha, eu sei que não me perguntou, mas se quer saber a minha opinião, vocês não combinam.
- É tão visível assim?
- Bastante.
- Bem, Giovanna sempre foi uma mulher de muitos compromissos, focada. É uma pena que não tenha encontrado um espaço para o meu jeito em sua vida. Mas pensando bem, também não me esforcei muito pra encontrar o mesmo pra ela.
Respirei fundo, meio contemplativo, olhei pra Jess e o olhar dela parecia insondável.
- Tá certo, sei que é difícil, mas olha, meu horário encerra em uma hora. Que tal irmos tomar um sorvete pra você afogar as mágoas?
- Acha mesmo que sou uma pessoa que afoga as mágoas com sorvete?
- O que você sugere?
- Cerveja? Aliás, estamos no inverno, um bom drinque, talvez?
- Não tá tão frio assim, e sorvete é mais divertido. Vejo você em uma hora. - Ela se levantou com ar decidido.
- Certo, sorvete então.
Comi os pães de queijo que Giovanna havia pedido, terminei meu próprio pedido e depois de algum tempo, Jess saiu sem a touca de proteção e sem o avental, em direção à minha mesa, ajeitando os cabelos que antes estavam presos num coque.
- E então, senhor depressão, vamos?
Olhei o relógio. Ela estava atrasada. Qual era o problema das pessoas com horários?
- Demorou 15 minutos a mais.
- E quem está contando? Vamos, vai. - Ela me pegou pelo braço e andou apressada para a calçada.
Andamos algumas poucas ruas e logo chegamos a uma sorveteria. Não gostei muito da decoração colorida demais do lugar, e muito menos do cheiro de perfume doce, mas Jess estava contente, então não comentei nada. Sentamos lado a lado, eu pedi um sorvete de baunilha bem simples, e ela pediu um sorvete enorme, cheio de confeitos e todas essas coisas com gosto de chiclete.
Depois do sorvete e de cupcakes recheados, tínhamos conversado melhor do que jamais cheguei a conversar com Giovanna no último ano. E apesar de ainda doer termos terminado, Jess estava conseguindo implantar algum ânimo em mim.
- Certo. Então, vamos recapitular. Você é uma mulher de 27 anos, que cursou dois anos e meio de enfermagem, largou tudo e começou a trabalhar em um café pra pagar por um aluguel barato, e juntar dinheiro pra um curso de fotografia?
Ela estava exibindo um sorriso orgulhoso. - Isso!
- Você é realmente muito... desprendida, eu diria.
- Ah, falou o escritor que não escreve. Quer algo mais desprendido que se especializar em uma área tão linda, e não procurar exercer?
- Não é bem assim, mas touché.
- É, eu sei. - Ela sorriu.
- Na verdade, eu apenas não tenho a inspiração necessária pra isso. Às vezes isso acontece. Quando tento forçar a escrita, me sinto pior ainda, como se fosse um impostor.
- Acho que isso acontece com muita gente, Lucas. - Agora ela estava séria.
- Sei disso, mas comigo é desse jeito, não consigo fazer como se ligasse ou desligasse um interruptor. Mas eu também sou bom escrevendo na redação, isso me sustenta bem, e ainda é escrever. Não sei porque tenho que ser o maior escritor da cidade, do país, do mundo! Não sei porque parece tão ruim conseguir se sustentar e apenas viver! Quero dizer, qual o problema nisso?
- Eu entendo, e não tem problema. Desculpe, não quis te criticar assim.
- Não criticou, só estou finalmente me abrindo com alguém sobre isso.
Por alguma razão que naquele instante não captei, ela sorriu.
- Tá tranquilo, a gente consegue.
Não pude deixar de me admirar com aquele otimismo. Não sei de onde vinha, mas era encorajador.
- Sabe, você é uma garota realmente diferente do que estou acostumado.
- Diferente como?
- Você é mais cheia de vida e de cores.
- É, é o que dizem por aí. - Ela brincou, rindo.
- Não fique muito convencida.
- Quem falou que sou cheia de vida e cores? Fui eu?
- Tá, um a zero para você.
- Ah, como eu adoro vencer!
Mudamos de assunto e demos mais risadas conforme a tarde foi passando, e quando olhei o relógio, percebi que tinha passado quase 5 horas naquela sorveteria.
- Ei, percebeu que estamos aqui a mais ou menos umas 5 horas?!
- Na verdade sim, mas eu não me importo.
- Bom, não posso dizer que eu me importei, seria mentira.
- É por isso que gosto de você, sabia?
Aquela me pegou de surpresa. Não respondi. Ela falou no meu lugar.
- Não parece, mas você não se preocupa com detalhes que não precisam de real preocupação. No fundo, eu sinto que você tem uma alma criativa. E apesar de ser meio triste, e de ter uma mania chata com horários, você é muito parecido comigo.
- Não vejo tudo isso em mim.
- Eu me espantaria se visse. Ninguém nunca vê nada excepcional em si mesmo.
- Verdade...
- Só achei que depois de ouvir que sou cheia de vida, você devia ouvir que também é.
- Quer dizer que no fundo não é verdade?
- Quer dizer que você foi elogiado, só isso. – Ela sorriu calmamente.
- Bom, se também sou cheio de vida, quem eu mantenho vivo? Minha namorada, aliás, agora ex, que supostamente deveria ser esta pessoa já não via isso e...
- Ah, para com isso, vai. Chega disso.
- Tá bem, acho que você está certa. Chega disso.
- Vai passar quando passar, é só não deixar de viver.
Olhei ela nos olhos. De repente não sabia se me aproximava dela ou não, mas pra minha surpresa, ela me puxou gentilmente pra perto e me beijou. Não sei exatamente por que, mas retribui o beijo. E foi algo que me fez sentir diferente. Foi algo que eu tinha esquecido como era sentir, algo eufórico e assustador, com uma certa culpa.
Não sei dizer quanto tempo ficamos ali, mas não me importei. Finalmente paramos de nos beijar e nos sentamos formalmente. Um silêncio sobrenatural cresceu, e depois de alguns segundos de indecisão, foi quebrado por mim.
- O que... o que foi isso? – Eu estava realmente atordoado.
- Um beijo. - Ela disse com simplicidade. Parecia envergonhada, mas tinha coragem no olhar.
- Não sei bem o que dizer. Não que eu não tenha gostado, mas enfim, depois de tudo hoje...
- Desculpa, Lucas.
- Tudo bem. Tudo bem.
Ainda sem saber exatamente como agir, mas curioso sobre o que aconteceu, decidi perguntar.
- Você sentiu isso também?
- Isso o quê?
- Não sei dizer... eu deveria saber, mas no momento não sei dizer.
- Vem cá, vai, chega de gaguejar. Vamos pagar a conta.
Ela me pegou pelo braço e me arrastou para o caixa, e depois de pagarmos a conta saímos num ar um pouco mais gelado. Ajeitei minha gola e começamos a andar. Caminhamos algum tempo sem dizer nada, ela estava agarrada ao meu braço, mas olhava pra frente, como se evitasse olhar pra mim. Eu não conseguia prestar real atenção em pra onde estava indo, ainda pensava no que tinha acontecido na sorveteria. Eu não conseguia responder o motivo, mas comum aquele momento não tinha sido. Depois de mais alguns minutos chegamos a um cruzamento, onde ela parou e me fez parar também.
- O moço melancólico continua reto?
- Sim.
- Eu viro aqui.
- Ah, sim. Bem, então acho é até mais, né?
- Que tal um até amanhã?
- Tá certo, até amanhã.
- Soa bem melhor, não?
- É, até que soa.
- Então até amanhã.
Outro beijo. Dessa vez eu que a puxei num abraço e a beijei. Eu não havia sentido algo peculiar assim antes. Depois que nos beijamos, ela falou.
- Sei que é estranho, pra mim também é, mas espero te ver sempre que puder, vê se não some. Até amanhã. - E dizendo isso, seguiu o caminho de sua casa. Entendi o que aquelas palavras podiam significar. Atravessei o cruzamento e coloquei as mãos nos bolsos. Pensei em como meu dia tinha sido diferente. Eu passei por um término de relacionamento, e provavelmente estava começando dar chance pra outro no espaço de um dia. Definitivamente não era o ideal. Ainda tinha muito que se resolver.
O estranho era me sentir desse jeito. Tão sem palavras. Entrei em casa e servi uma dose de café em uma caneca. Queria algo alcoólico, mas não pareceu boa ideia naquele momento. Bebi um gole e sentei no sofá, apreciando o gosto amargo. Eu devia ser louco de aceitar algo como aquilo. Podia dar muito errado. Eu não estava nem de longe curado, ela poderia se decepcionar, e muito. Pensei durante alguns instantes, bebi outro gole, e olhei pro resto do café. Saí de casa e 10 minutos depois entrei de novo com um sorvete na mão. Sorvete no frio, que ideia. Dei uma mordida, e mesmo sentindo uma leve culpa, sorri. Me espreguicei, e ainda sem conseguir evitar o sorriso, peguei um caderno e uma caneta.
- Não sei porque, mas deu vontade de escrever.

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