14 junho 2024

Beau tem medo de ouvir jazz e está pensando em acabar com tudo.

Não sei dizer quantas vezes senti estranheza do mundo que me cerca, e também quantas e quantas mais me senti vaidoso e culpado depois dessa estranheza. Aquele pensamento de que não nasci pra estar onde estou, e logo depois o pensamento de censura, que me condena e diz que eu devia agradecer de poder varrer o chão que piso. Vivo nessa disrritmia há tempo demais pra simplesmente aceitar ou apenas mudar. Faz parte de mim, é uma das capacidades intelectualmente profundas da natureza humana, uma daquelas coisas incríveis que apenas nós conseguimos, mas que exaure e que nos leva mais a comportamentos autodestrutivos do que a momentos de nirvana ou autoconhecimento. De alguma maneira sinto que se eu soubesse nadar, nadaria em círculos longos e perfeitos, cíclicos, um trajeto de tudo que fiz até agora de maneira instintiva, e talvez por isso eu tenha tanto medo de água e não queira aprender a nadar. Ao não lidar com um cenário em que me falta um elemento crucial para a sobrevivência, acredito exercitar sabedoria, mas ao mesmo tempo evito lidar com o que pode não me dar a resposta definitiva, mas que me daria mais elementos pra desenvolver novos cenários e trazer outros resultados. Isso é inquietante como ouvir jazz pela primeira vez, mas depois conforme nos adaptamos, aprendemos a entender o que ali se passa, tiramos algo bom ou minimamente interessante da experiência. Porém antes de tudo, foi necessário deliberadamente trazer esse novo sabor ao paladar, correr o risco de descobrir um novo desprazer, ou até mesmo descobrí-lo, mas aprender vagarosamente quais são os elementos que o tornam apreciável. Desse ponto de vista me vejo como um tipo de ser antiquado, leve demais pra se sustentar na base das fracas convicções que jurava serem tão entalhadas em pedras ancestrais. Eu não pertenço aqui e ao mesmo tempo tenho sorte de ser até permitido estar aqui. Sou muito frágil, megalomaníaco e humilde, deve ser por isso que meu corpo me deu de presente a miopia. Os ajustes que precisei fazer e dos quais sou refém pra ter o que muitos outros possuem tão naturalmente que sequer valorizam como talvez devessem me fizeram mais consciente. Ao mesmo passo, me tornaram mais capaz de entender como um ajuste nem sempre precisa ser profundo e traumatizante até a fundação do osso. Meu Deus, quanta presunção de minha parte, mas estou no meu direito, estou até melhor que muita gente por aí. Fale a verdade, nós somos, no mínimo, curiosos. Só não sei se perceber e abordar isso é o bastante pra nos salvar. Eu pelo menos tenho uma sensação cada vez mais vívida de que individualmente já estou condenado, e aí volto lá pro início do texto. Nadando em círculos, mas sem nunca me atrever a entrar no mar.

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