12 abril 2017

Impressão.

Sozinho, percebo o silêncio ao redor. O mundo exterior pode ser desolador e infértil.
Dentro de mim, entretanto, há uma batalha entre opostos, e mesmo paralisado, fujo de explosões sonoras, me escondendo nos destroços das máscaras que criei. Inerte, e ainda assim sentindo o vento cortar meu rosto, a velocidade da queda aumentando a cada respiração. A queda, porém, já se concretizou. Vivo num momento atemporal, e percebo que minhas asas não voam mais. Tão negras quanto a noite, sangram lentamente, feridas negadas, e agora o horizonte é impossível de alcançar.
Ao longe vejo uma borboleta. Ela voa despreocupadamente, dançando entre as cores do poente, e tento tocá-la, mas não consigo. Ela não faz mais parte de mim, e não será minha companheira. Talvez conhecê-la tenha sido meu único presente, tenho que aceitar. O sangue goteja, suja minhas roupas, e a dormência toma conta de minhas veias, o torpor invadindo a consciência, meu placebo, minha morfina, lépida e mortal. Encaro o céu, a borboleta me rodeia, mas nunca se aproxima ao meu toque, como uma espectadora cautelosa, e sorrio ao constatar: inteligente.
Levanto com alguma dificuldade, e caminho entre tropeços. Não posso mais voar, não tenho forças pra correr, mas vou caminhando, passo após passo, em direção ao mar, o corpo dolorido, os pés cansados. A tontura é corriqueira, a névoa que espiro também. O que estou fazendo com a minha vida? Não tenho resposta pra isso, e paro de caminhar quando a chuva começa a cair. Sinto dor, sei que minhas asas, cedo ou tarde, vão se desprender de mim, me abandonar. Sei que sou destrutivo e infeliz, mas não posso conceber a ideia de morrer, embora eu já não queira mais viver.
De alguma forma a borboleta ainda me segue, mas eu continuo a cair, de novo e novamente, e eu sei que estou sozinho. Estou desaparecendo. E sempre estarei sozinho.

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