Às vezes me sinto desconectado do que possuo ao redor, e na verdade não sei nem dizer se possuo ou se estou aqui meramente por detalhe de ponto de vista. Tudo é tão diferente do que eu queria certas vezes, é como enxergar através de uma lente imaginária que distorce ou embaça sem que eu possa escolher. As paredes e arquitetura ao meu redor não parecem reais e não quero estar nelas. Imagino ruas calmas e modestas, com tijolos pequenos de pedra e concreto, árvores de folhas e flores verdes e rosas que denunciam as estações como um termômetro natural. Casas de madeira e tijolos, com cercas baixas e quintais ou varandas de sobrado, com telhados triangulares de telhas vermelhas. Uma divisão entre a paz e o moderno, nem longe nem perto de ambos, como numa linha imaginária que me garante um bom retorno do trabalho nada grandioso e bastante ordinário no qual sou feliz porque me deixa viver bem e tranquilo. Me vejo sem um celular por perto, com alguns poucos amigos que me visitam sem pressa e que tem tempo de ficar ou de ir embora, com o som de músicas calmas que toca não muito alto por toda a casa. Acordes de violão despretensiosos e o sol do fim de tarde batendo na varanda, esquentando meu coração leve e calmo. Vejo meu cigarro e minha cerveja, mas os vejo diferentes, sem a pressa que eles tem, sem o cheiro e o gosto de tardes nubladas embaixo de um toldo no meio do cinza. Imagino tudo mais leve e sem piadas ou reclamações a todo momento, banhos quentes no escuro e no silêncio antes de escolher se durmo ou ainda não. Imagino a liberdade de poder observar o bairro dormir sob luzes públicas de média intensidade, e uma sensação de segurança e pacatez que é real e muito duradoura. Poder não pensar sempre em dinheiro e não sentir angústia de urgência, poder respeitar e ser respeitado por todos, pelas pessoas, amigos, pela rotina e viagens, pelas folgas e pelo expediente, pela vida que pude escolher viver. A coexistência pacífica, o ordinário como parte do que é bonito e natural, entre cidade e natureza, entendendo que a liberdade nunca é maior do que quem a possui. Imagino uma vida onde é possível sorrir apenas quando se sente vontade, onde não preciso escolher por fazê-lo, porque não podemos conscientemente criar a mágica disso. Ter a simplicidade de entender e vivenciar que isso acontece no momento em que nos deixamos levar, quase como adormecer sem de fato tentar.
Amei o texto ♥️
ResponderExcluirA arquitetura da cidade misturada com a natureza sempre me passa uma sensação nostálgica :3