Despertava e não gostava de acender a luz artificial do quarto pela manhã. Mesmo que a escuridão do quarto fosse artificialmente criada pela veneziana da janela. Na verdade não sabia se podia chamar isso de artificial, era mais como um bloqueio, uma forma de controle do próprio conforto, mas logo acendia a luz pois achava esse controle tão exacerbado algo perigoso.
Logo que caminhava pela casa no ritual matutino já não se preocupava com isso, saudava o dia com tédio ou interesse, e lembrava de qualquer música em que houvesse algum piano marcante, pois gostava do som e se lembrava mais deste do que de outros em particular, mas nada disso tinha relação lógica demais pra decifrar se gostava porque lembrava ou se lembrava porque gostava.
Tinha crises existenciais e questionava a extensão da realidade. Tinha nirvanas sensoriais e alucinações lúcidas com fones de ouvido no máximo, e constantemente fechava os olhos pra tentar ouvir o próprio corpo trabalhando na função que era sobreviver com funcionamento intacto. Sentia vontade de escrever e viver do que escrevia, mas não sabia escrever direito e não compreendia bem se de fato queria sabê-lo.
Sentia como se fosse poesia viva, como se o DNA viesse de linhas coloridas com palavras infinitas, mas também se olhava no espelho muito de perto e não via brilho nos olhos ou nada mais que tonalidades opacas, coisa que atribuía ao fenômeno que era a primeira experiência. Acreditava que nunca saberia como era se olhar no espelho pela primeira vez, pois havia feito isso muito cedo e não seria nunca capaz de se lembrar e replicar a sensação em sua totalidade.
Existia uma vida muito curta de primeiras experiências, sensações e impressões, e isso lhe entristecia mas fascinava pois repetição podia trazer gosto também, tudo era muito mutável, embora fizesse uma força descomunal todos os dias para que os pés fincassem no asfalto da rua em que morava. Lembrava que temia o oceano mas nunca conseguia deixar de apreciá-lo com espanto e reverência. Havia muito medo mas um respeito de aceitação da própria insignificância frente a cada gota daquele outro universo submerso. Hm... pensando bem universo submerso era um bom nome, talvez tentasse escrever um best-seller sobre isso mais tarde. Não conseguira até hoje, mas não custava mais que o preço usual tentar.
Não gostava de deixar as portas dentro de casa abertas, e tinha um fraco por sempre secar a pia do banheiro depois de usá-la, mas se obrigava a não fazê-lo sempre pois queria estar no controle das próprias manias. Parou de escrever naquela noite pensando no looping, na repetição quase idêntica, gêmea, na replicação de si que era o adormecer e o despertar. Nada lhe seria tão simples e inexplicável quanto isso. Vivia por isso de certa forma, e portanto, deitou-se pra adormecer outra vez. Universos submersos, afinal, existiam onde se aplicasse profundidade.
24 dezembro 2021
Universos submersos da metalinguagem.
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