28 dezembro 2022

Lapsos de um ser amargurado.

Durante a noite eu notei que chovia lá fora
Como um espelho refletindo meus sentimentos egoístas
E os olhares amorosos que um dia recebi sem merecer

Tive vontade de respirar novamente o ar fresco
De experimentar a luz prateada e melancólica do luar
E me esquecendo das raízes silenciosas eu saí

Caminhei para fora e senti o vento irreconhecível
O som de meus passos abafados pela chuva fria e abundante
Que se misturava às lágrimas em meus olhos cansados

E a cada respiração uma nuvem de fumaça me mostrava
Que em algum lugar eu ainda estava vivo
Que mesmo na escuridão eu podia sentir, me flagelar

E sem prestar atenção eu caminhei com os pés dormentes
Um corpo inanimado, um fantoche, uma colcha de retalhos
Gelado como a chuva e o asfalto inexpressivo

Para longe dos meus próprios julgamentos infantis
Cada vez mais longe de mim mesmo
Numa busca eterna por me encontrar naquela chuva 

A noite mais escura que a sombra do meu rosto já adulto
A chuva confundindo meus sentidos castigados
Mais longe e mais perto de mim, totalmente sem noção de tempo

Um alguém sem identidade, incapaz de sorrir novamente
Sozinho de todos, alheio de tudo que tentasse tocar
Um elemento do vazio e da chuva, sempiterno e condenado

Sempiterno e condenado
Para todo o sempre.

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