06 julho 2020

Nem Mais Nem Menos.

Existe um momento da vida em que as coisas param de fazer ou não fazer sentido. Você olha pra trás ou pra frente e se dá conta de que as coisas são como são. As pessoas são como as pessoas são, a vida é o que é, e às vezes isso significa não ter controle sobre direção ou intensidade. Às vezes isso significa aceitação, outras vezes resistência, mas isso já parou de fazer ou não fazer sentido, porque as coisas são como são.
Chega um momento em que a gente para de sofrer ou de se felicitar com a sensibilidade de uma cicatriz recém fechada, que dói ao toque, que coça no tecido da roupa. A gente ama, chora, se revolta e se entristece com intensidade, mas não é bem o fim do mundo como era cinco ou dez anos atrás. A gente não sabe bem, mas sente que de repente pensar que não temos um plano de saúde faz mais sentido, que a gente quer aquele emprego, aquele diploma, aquela consulta no psicólogo.
As coisas não são mais tão preto no branco, e quando a gente nota isso e sente dúvida, às vezes vem uma voz interior pra lembrar que tudo bem não saber se vamos ver o arco-íris no horizonte, porque no fim das contas importante mesmo é fazer as contas da compra do mês. Será que sobra dinheiro pra ter o premium do Spotify outra vez? Como será que eu estarei amanhã se dormir somente quatro horas? Investir em procurar um estágio ou ir naquela entrevista para vaga de carteira assinada?
Nessa fase a gente perde muito da inocência, da sensibilidade desmedida, ou só muda o foco dela pra outros caminhos recém explorados. Não sei, de repente passar a semana com torcicolo te entristece mais do que não saber tocar violão direito, e lembrar de tomar seus remédios na hora certa é mais valioso do que ser incluído naquela rodinha legal de gente descolada no ensino médio.
É claro que isso faz parte do amadurecimento de qualquer pessoa, e é normal constatar que a gente perdeu um pouco ou muito da nossa inocência, que a vida adulta é meio dormente e que as prioridades são outras. Você fica triste e fica feliz, as coisas são como são, e procurar estar em paz com essa percepção não te faz mais ou menos especial, só te faz humano.

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