Faz frio aqui dentro. Posso sentir cada uma das rachaduras no assoalho me observando com olhos secretos, pesados e inexistentes. Faz anos que me sinto assim, devo estar ficando paranóico. Sentado de modo a parecer confortável, vejo a foto de uma mulher em um dos quadros na parede. A lembrança dela é uma farpa sangrenta no meu cérebro, deve ser essa a causa das dores de cabeça tão frequentes. Droga, eu estou velho demais pra agir desse jeito. Sou um desajustado.
Estou cansado disso. Apago as luzes, visto a roupa mais quente, pego cigarros, meu isqueiro, todos os meus arrependimentos e saio. Não sei pra onde ir, só quero caminhar. Eu sou um idiota. Acendo um cigarro na noite densa, a culpa se acumulando sobre meus ombros. Diabos, esqueci das luvas. Tudo bem, por algum motivo o corpo não parece reclamar tanto, talvez não esteja tão frio assim, talvez minha temperatura esteja mais baixa, igual minha pressão, não sei, mas o frio é suportável. A cada trago vejo a fumaça dançar de forma imprevisível no ar. Ela odiava o cheiro do cigarro, me lembro. Céus, quando foi que fiquei assim? Acho que nunca me decepcionara tanto comigo mesmo quanto agora. Eu afundava cada dia mais, sem nenhuma perspectiva de melhora, de salvação. Conforme meus passos avançam a escuridão aumenta. Mais um cigarro, só a brasa me ilumina mais do que a luz morta das estrelas agora. Percebo uma mudança no relevo do chão. O som a cada passo mudou. Estou na ponte. Que diabos vim fazer na ponte? Tanto faz, só quero caminhar. Acendo mais um cigarro e continuo atravessando vagarosamente, ouvindo o ranger agourento sob meus pés. Lá pelo meio da travessia ouço um estalo mais alto, o chão some e eu sou sugado, tateando as cegas na fração de um segundo inevitável. Um silêncio curto de queda livre e um baque no rio macabro. Abro os olhos embaixo da água gélida e sombria, mas não vejo nada. Agora o frio perfura meu corpo como facas. Tento me debater e chegar a superfície, sem sucesso. O coração bate rápido. Passaram os anos e eu não aprendi a nadar, sou um inútil mesmo. A cada movimento fico mais lento, ou o rio estaria ficando mais denso? Eu não sabia dizer, tudo que sabia é que o ar estava quase extinto nos pulmões. Talvez eu morra aqui. Droga, o maço no meu bolso já deve ter sido inutilizado. Ao menos disso ela poderia sorrir, sempre odiou que eu fumasse, pensei, isso teria de bastar pra me tornar alguém melhor.
E de repente uma calma me atingiu. Parei de me debater, parei de sentir frio. Deixei a correnteza escura me levar. Deixei a água entrar pelo nariz. Tossi, senti a visão turvar. Diabos, estava doendo. Pelo menos eu não sentia mais frio. Não havia do que reclamar agora. Nem haveria mais.
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