Lentamente ele subia. Passo sobre passo.
Em seus ouvidos não havia nada mais que o vento, melodia antiga de tempos felizes. A cada passo ele sentia o cansaço aumentar, como uma maldição de seu mundo interminável.
Os cabelos compridos e dourados batiam-lhe ao rosto jovem e belo, máscara vazia de um corpo sem face. O penúltimo passo fora dado, tão pesado quanto o céu azul celeste, e ainda de costas ao que tinha percorrido, o desamparado pensou sobre o que certa vez o amor de sua vida lhe dissera em sussurro.
"O homem que olha para o passado jamais se perderá. Jamais ficará sem um caminho."
E com sua última centelha de esperança se esvaindo, o desamparado virou-se para encarar aquilo que um dia fora seu único passado. Mas ali do alto da colina ele viu as chamas consumindo a pequena cidade que um dia foi seu lar, e lágrimas caíram de seus olhos azuis apaixonados, pois o perfume de sua amada agora fazia parte da fumaça de madeira velha e corpos inertes ao sabor do destino crepitante.
- Marianne... Minha amada Marianne. O fogo infernal que agora deixa-me órfão de passado nada é se comparado ao fulgor que meu ser nutre por ti. E se como um dia me disseste, sou teu único anjo, onde estão minhas asas para que eu possa lhe negar este batismo de sangue? Por que não consegui entregar-te minhas forças para que teu lindo sorriso não fosse transformado em lamúrias de dor e injustiça?
E olhando a fumaça lúgubre misturar-se ao céu claro de sol, o desamparado sentiu seu coração queimar junto com sua amada, e sua alma abandonou-o, pois caminhava de mãos dadas ao amor que ela sentia. O suor da íngreme subida percorria seu corpo como uma doença indesejável, e ainda perdido em lágrimas, ele pensou em todos os momentos e alegrias que seus vinte e cinco anos lhe permitiram ter. Porém, amaldiçoado se tornara, e entoando cânticos enegrecidos pela morte, o desamparado cuspiu em seu destino.
- Jamais duvidei da bondade deste mundo, entretanto tornei-me um homem sem passado, desprovido de alma e de sorriso, pois meu peito agora carrega apenas um fardo morto e perfurado. Eu revogo inteiramente a aceitação ao meu destino, e desta colina manchada com minha sombra estagnada, percebo agora que o dom da visão não foi dada à meu ser para agraciar meus olhos azuis, mas sim para que eu visse que milagres não existem, e que mesmo as asas dos anjos que levam as preces aos ouvidos de Deus não são tão belas quanto devem parecer. Agora percebo que amor e ódio podem começar em lugares diferentes, mas alcançam o mesmo fim lamurioso. E por fim levam apenas à tolice e à loucura.
Sem ter exata certeza do que fazia, o desamparado levou a mão ao coldre preso a seu cinto, e lentamente a resposta foi trazida ao seu labirinto tão denso e cruel. Ele finalmente encontrara uma forma de vingar-se do mundo, do destino, e de Deus.
- Você dá tudo que tem para que possa colher a mais bela das rosas, e então ela morre como todas as outras importâncias de sua vida. Minha amada Marianne, posso ser teu anjo, mas me perdoe, isto me torna tão amaldiçoado quanto o fogo que corroe tuas veias. E se Deus não pode ouvir a súplica de um filho abandonado, vou até ele por meus próprios meios, e ao chegar ao paraíso lhe jorrarei meu ódio e voltarei às cinzas que aqui jazerão contigo em meus braços.
Um último sorriso perfeito perpassou suas feições tão belas e tão ensandecidas. O cano frio da arma encontrou sua têmpora e uma última vez ele sentiu a única fragrância que realmente lhe importava. O desamparado ajoelhou-se, e mesmo perdido em raiva e loucura, mantinha a ternura do homem feliz que um dia fora. Assim como a bondade de sua amada, isto ele jamais perderia, e por já estar morto em vida, não temia fechar os olhos para sempre.
- Marianne... Eu te amo. Anjo sou... Anjo serei...
Um único segundo de hesitação. Outros dois para a última certeza.
Bang...
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