Meu corpo pesava, eu pensava em uma maneira de tornar aquilo mais fácil, menos doloroso. Impossível dizer quanto tempo levou até que eu finalmente chegasse até a sala. Ela me olhava com doçura. Uma doçura eternamente congelada...
Eu jamais quis ser diferente. Mas está em mim. Impregnado.
Esse pensamento sempre me consumiu em culpa quando criança. Não sei como nutri idéias tão densas durante a infância, mas era impossível não observar que eu era diferente. Eu não sabia como todas as outras crianças brincavam tão despreocupadamente, como elas sorriam tão animadamente e viviam seu próprio mundo feliz. Soava falso para mim. Eu não era assim.
Durante a adolescência eu observava bebedeiras, risos altos, óculos do sol gigantes e tatuagens. As crianças cresceram dentro de sua fantasia e agora eram adolescentes iludidos e deturpados. Amavam coisas inúteis, viviam sem enxergar. Eles estavam morrendo. Todos eles. Mas eles não tinham tempo para isso. Eles nunca tinham tempo para nada. Eu não era assim.
Jamais me comovi com tiros disparados em inocentes ou tragédias de âmbito nacional. Eu não podia compreender porque deveria sentir pena de alguém que não me fosse próximo, que não me fosse útil de alguma forma. Isto seria amizade, mas só a conheci em teoria. Ainda assim deixei que algumas pessoas se aproximassem durante minha vida, até certo ponto, até quando me cansei da invasão. Então eu as deixava. Sempre foi assim. E eu gostava de tudo como era.
Mas me lembro de quando as coisas começaram a mudar. Eu era um adulto sério e solitário. Alguém fora dos padrões, embora fingisse participar deles. Alguém frio e satisfeito. Eu era um espectador. Estava longe de ser enganado, e enganava todos que precisava, como precisava. Mas existe uma linha tênue entre usar e ser usado. Um ínfimo degrau entre converter e ser convertido. Eu cometi um erro. O erro. Deixei uma pessoa chegar mais perto que o normal. Uma mulher, para ser mais exato.
É, a desgraça estava feita. Seu nome era Hope. Eu detestava este nome. Fazia parte da conspiração, do embuste, do ardil. Ainda assim sua personalidade era bela em muitos aspectos. Embora algumas de suas convicções fizessem parte daquele mundo falso e fadado ao fracasso, ela sabia ignorar grande parte de toda aquela merda. Ela sabia ser diferente. Como eu.
Não sei em que ponto falhei ao permitir que ela me enxergasse, mas admito que foi um experiência interessante. Ela olhava meu jeito e não parecia se importar com o fato de eu ser apenas um grande erro do universo. Estranho era perceber que eu jamais quis ser diferente e havia me atraído por ela justamente por esse motivo. Passamos dias juntos, como pessoas normais, mas vivíamos além da fronteira habitável à maioria, conseguíamos enxergar tudo como realmente deveria ser. Como realmente era.
Era divertido perceber que nem todas as pessoas do mundo eram exatamente um desperdício de tempo. Mas com o passar do tempo eu cometi outro erro. Me apaixonei. Um homem como eu não deveria se apaixonar, eu via coisas como essa dia após dia, a mentira mais antiga da humanidade. Amor, destino, almas gêmeas e todos esses contos de fadas para crianças. Mesmo assim não consegui evitar. Estar com Hope melhorava meu dia e as vezes até conseguia afastar um pouco meu senso crítico. Era algo e tanto para mim. Algo novo. Coisas novas geralmente trazem consequencias inesperadas. E isso para mim só podia ser algo ruim. Porque eu não era assim. Não era. Não eu. Ainda assim deixei que meu coração falasse por meu cérebro, e embora soubesse no fundo de minha mente que aquilo era um terrível engano, continuei seguindo a trama. Caí na armadilha. Pior para mim.
Aos poucos começamos a escrever nossas próprias páginas, e conforme os dias passavam eu sentia como se o mundo não fosse um prelúdio para o fim inevitável. Então aconteceu. Cometi outro erro. Você pode errar duas vezes e conseguir escapar, mas o terceiro sempre será derradeiro. Final. E comigo não foi diferente. Eu deixei a idéia do amor me cegar. Deixei que as coisas fugissem ao controle. Mas eu era diferente. Consegui externar alguma racionalidade e usei como válvula de escape. Voltei a enxergar o mundo como ele realmente era. Um grande vale de vermes pensantes. Entretanto, eu ainda a amava.
Fui tomado por um desespero inesgotável. Hope não podia viver em um mundo tão nojento e fétido. Não podia continuar deixar-se corromper por todo aquele teatro maldito. Não, eu não deixaria. Mas não sabia como evitar. Não sabia como tomar uma atitude. Eu era apenas um em um milhão, não tinha forças para um ato tão grandioso. Foi então que compreendi. Eu não devia matar o mundo, ele já fora morto mas não deixara de existir pelo egoísmo de todos. Mas Hope não era assim, ela era diferente. Eu era diferente. Eu devia matar Hope. Não por dor ou por prazer, mas por amor. Amor irracional.
Era estranho pensar que a forma mais racional que encontrei de salvar minha única centelha de fé na humanidade fosse baseada em um ato tão vil e animalesco. Não sei dizer quantas noites passei contemplando o teto vazio e pensando em minhas próprias barreiras existenciais. As coisas poderiam ser diferentes, Hope poderia me salvar do ostracismo facilmente. Mas eu poderia fazer o mesmo por ela? Deixando-a neste monte de terra infrutífera e indecente, estaria meu amor poupando-a ou condenando-a? Todas as células do meu corpo gritavam que condenação era a resposta. Hope era boa demais para mim, boa demais para este mundo, e quanto mais eu convivia com seu jeito de ser mais eu me convencia de que esta era a verdadeira resposta. A única resposta plausível. Um modo de fazer-lhe bem.
Naquela noite fizemos amor. Não apenas sexo, aquela troca de fluídos tão erroneamente valorizada, mas amor, algo sincero e puro, almiscarado de querer e de sorrisos. Era incrível sentir tanta felicidade em um ato tão pequeno em comparação aos anos. Algumas horas passaram e me levantei. Tomei banho e coloquei uma roupa limpa. Olhei no espelho e repassei o plano em minha cabeça. Era o melhor a se fazer, eu repetia. Desci as escadas, fui até a cozinha, peguei uma faca de cozinha que eu havia afiado. Enquanto subia novamente me senti como um ser dotado de sabedoria e experiência. Sim, eu era o melhor que podia ser. Porque eu não era como os outros, embora houvesse um misto de desejo e repúdio naquilo tudo.
Entrei no quarto silenciosamente, mãos tremendo, faca em riste, minha foice e resposta. A respiração dela estava lenta e despreocupada. Céus, como ela havia me mudado. Parei ao seu lado e contemplei seu rosto por um instante. Quanta tranqüilidade, quanta paz infundada e quanta beleza, quanta graciosidade e... Enterrei a faca no seu ventre desprotegido. Seus olhos abriram e ela gritou. Quanta agonia agora! Ela transbordava dor! Assustado, desferi três facadas em seu peito, lágrimas rolavam de seu rosto e ela tentava se proteger enquanto usava seus últimos arquejos para gritar dolorosamente. Ela não entendia, não compreendia que eu precisava fazer aquilo. Que tirá-la deste mundo era meu mais belo presente. Ela não entendia que era meu amor que impulsionava minhas ações. Conforme a lâmina cumprimentava diligentemente sua carne macia, os gritos cessaram. O sangue vertia poderoso de seu corpo, manchando a cama e o chão com toda a sua dramaticidade. Estava feito.
Peguei seu corpo perfeito em meu colo e senti o sangue molhar minha roupa. Por alguma razão me senti fraco, e larguei-a novamente na cama. Segurei sua mão e a puxei para o chão, sem me preocupar com o fato de estar fazendo barulho. Eu estava fraco. Ou ela estava mais pesada? Eu não sabia, mas foi difícil levá-la até a porta. Eu não conseguia carregá-la, por que eu estava tão fraco? O sangue... Eu estava enjoado, aquele cheiro entrava pelas minhas narinas e me fazia querer desmaiar. Eu não esperava por isso.
Meu corpo pesava, eu pensava em uma maneira de tornar aquilo mais fácil, menos doloroso. Impossível dizer quanto tempo levou até que eu finalmente chegasse até a sala. Ela me olhava com doçura. Uma doçura eternamente congelada.
Arrastei-a para fora sofregamente, ansiando pelo fim daquilo o mais rápido possível. Por mais que eu considerasse a hipótese, eu já havia tirado uma vida, a única vida que realmente interessava tirar, e não poderia cessar minha própria existência como a princípio planejei. Peguei meu celular e liguei para a polícia. Confessei o crime. Sentando ao lado de seu corpo inerte, acariciei seus cabelos, outrora limpos e sedosos. O cheiro de sangue me deixava fraco. Deitei e esperei. Depois de algum tempo olhando para o céu ouvi as sirenes. Já não era sem tempo. Levantei com alguma dificuldade. Um dos policiais apontava sua arma diretamente para meu peito, o outro se adiantava para verificar o corpo de Hope. Brandi a faca e corri na direção do policial, gritando e aumentando minha coragem. Antes que eu pudesse alcançá-lo senti meu corpo ser perfurado três vezes. Grito. Queda. Então silêncio. Perfeito, eles conseguiram terminar o que eu não conseguiria. A dor chegou em seguida, apenas uma ínfima chama tremeluzente do que Hope havia sentido. Tudo havia dado certo. Eu havia conseguido tirar minha amada de toda esta imundície, e da mesma forma estava saindo dela, ainda que minha mente me dissesse que eu era o mais detestável entre todos.
Agora algumas vozes dançavam em meus ouvidos e a luz da noite ficava ligeiramente turva em meus olhos. Tentei gritar, mas não consegui, em vez disso cuspi sangue e me engasguei.
Não posso dizer que senti total arrependimento por tudo aquilo. Eu havia crescido e passado pelo mundo em outro nível de convivência, em outro estado de observação. Eu havia vivido do meu modo, e havia tido um amor. O único amor. Pensar naquilo ainda me fazia sentir raiva. Eu cometera três erros, e pagara por eles com a resposta mais obscura de todas. Bem, a culpa foi absolutamente minha, e eu havia pago por ela com minha razão e com minha emoção.
Agora era difícil respirar, muito mais do que jamais pensei que seria. Sorri fracamente. Era impossível falar, mas no último lampejo de minha mente pude dizer claramente para a Hope inerte e ensaguentada: ‘Me desculpe. Eu jamais quis ser diferente. Mas está em mim. Impregnado.’
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