28 setembro 2013

Das Coisas Que Encontrei Sem Perceber.

Por muito tempo pensei ser a maré viva. Essa parede colossal que passa num turbilhão único e inexplicável, que faz com que o restante pareça insignificante em seus esforços de fugir. Eu sabia o que já tinha sido feito à mim, e o que eu já tinha feito, eu conhecia esse meu lado, e assim sendo, comecei a me esquivar cada vez mais do embate, do encontro ao muro de concreto que eu sabia, iria ser despedaçado diante da enorme força destrutiva tão mal canalizada dentro do meu peito angustiado. E eu fugia, e eu dizia: Eu sou a maré viva, se entrar vai se afogar.
Por muito tempo guardei a sete chaves o máximo que pude armazenar, até te conhecer, pra enfim perceber que não dá pra vislumbrar algo novo sem me aventurar, e você chegou pra me mostrar isso da forma mais inesperada possível, personificando no erro da inocência um tipo de esquecimento que jamais me atingiu tão forte, e eu esqueci, esqueci do que eu achava ter, do que eu pensava entender, do que eu jurava esconder. Eu já nem lembrava o que dizia ser.
Mas ao adentrar com passos mudos e inexperientes a floresta densa e inesgotável dos teus pensamentos, passei a observar cada pegada, passado, presente, medo, cada cicatriz, cada ferida, e ao te conhecer tão intimamente eu me deixei levar, muito embora à essa altura já quisesse resistir, e já me lembrasse do que eu dizia ser tempos atrás. E eu tentei, mas você aconteceu, e você veio da forma mais feroz e insaciável possível, e eu, do alto de toda aquela antiga fúria adormecida só pude arregalar os olhos e perceber que à partir daqui nada mais seria como antes. Você me atropelou, e eu fui levado aos empurrões por sua avalanche disforme. Por mais que eu tentasse, não tinha ideias pra lutar, pra medir forças como antigamente eu sem dúvida faria. Eu vi o muro ao longe, o muro de concreto, que eu tanto evitara por saber o que aconteceria, e foi de longe a sensação mais destrutiva que pude vivenciar.
E nós batemos contra ele, rachando e depois pulverizando qualquer resistência que ele pudesse oferecer. Perdi a consciência e ao recobrá-la, notei estar à deriva, num tipo de cadência que você ditava seja querendo ou sem querer. Tentei enxergar teus horizontes, mas você não os tinha, a sua imensidão era incalculável e o seu fim era inexistente. Eu afundei, indo cada vez mais ao encontro do que eu sabia ser você. Tentei respirar mas não consegui, asfixia tomou conta do meu peito, tão cheio e vazio ao mesmo tempo, e a visão turvou por um instante, apenas pra que eu entendesse: eu não era nada perto de você, eu nunca fui e nunca seria. Por muito tempo pensei ser a soma mais cruel possível, mas me enganei. Não era eu, você era a maré viva. Eu entrei e me afoguei.

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