Eu acho que estou cansado.
Quando você nasce e cresce em meio ao caos de uma cidade grande decadente, é difícil perceber quando realmente se está cansado. Se você passa tempo demais sob a chuva, não sente mais ela cair, não ouve mais o som. É como se nunca tivesse começado, e como se nunca fosse ter fim. É desesperador, mas dormente. Passo meus dias respirando, mas tenho a impressão que é impossível fazer isso de forma lógica, compassada. Nada vai embora. As vozes na minha cabeça me condenam, mas eu tenho medo de seguir o que dizem. Não consigo me adequar, não consigo respirar. Sinto como se me fosse permitido somente vagar, sem realmente existir, uma queda tão rápida que altera minha noção de movimento, que me faz ficar parado em queda livre. É a benção mais maldita que já tive, e eu não consigo sair.
Você já tentou expelir todo o ar dos pulmões? Já tentou aspirar o máximo de ar que conseguir? É quase como um colapso, como secar em morte ou explodir em vida. Fique cheio ou vazio demais e vai se ver quebrar, despedaçar. Não há salvação, não há saída. Encha seus pulmões de ar e será como uma maldita onda gigante, que vai te arrastar e quebrar seus ossos. Não há aviso. Esvazie-os e você estará acorrentado ao chão do poço mais profundo, enquanto a chuva vai te matar lentamente. Não há esperança. O fato é que existe uma forma de atravessar o lago sombrio em que fomos atirados sem consentimento, mas eu não a conheço, eu não sei nadar. Estou no fundo do lago, mas sequer o alcancei. Estou caindo, mas continuo parado. É perpétuo. Sempiterno.
Gostaria de ter forças pra gritar até sentir minha garganta sangrar, até os olhos saltarem das órbitas, até o coração parar, mas dia após dia, passo após passo, e eu continuo ofegante. O engraçado é que realmente se torna difícil notar o estado da minha consciência inconsciente. Quando você permanece tanto tempo preso dentro do caixão de suas próprias barreiras existenciais, você simplesmente se acostuma. Mas quando se dá conta, é claustrofóbico. Eu arranho a tampa desse caixão até minhas unhas caírem, até o sangue gotejar no meu rosto e o suor escorrer testa abaixo, mas é impossível transpassar. Eu não sei mais. Continuarei seguindo, mas sentindo tudo isso dentro de mim, tenho que me corrigir.
Sim, eu estou cansado.
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