Era mais uma tarde em que ambos não tinham o que fazer. Uma daquelas tardes ensolaradas e preguiçosas em que decidiam se encontrar por aí pra fazer nada juntos. Não que a vida fosse fácil, e justamente por não ser é que possuíam tal privilégio tão invejado e amaldioçado por suas próprias mentes sobrecarregadas. Naquela tarde compraram cerveja e sentaram nos degraus da praça vazia sem ter muito o que dizer, mas aproveitando a companhia um do outro. Ela tirou o moletom e o fez de travesseiro, deitando no degrau de cimento sem desconforto algum e fechando os olhos devagar, ele ficou ao seu lado dando goles esporádicos na cerveja. Os dois dividiam um cigarro, cada um tinha o próprio maço, mas gostavam de fumar dividindo o mesmo cigarro, inexplicavelmente era mais gostoso. Ele reparava em como ela ficava bonita com seu ar despreocupado, os cabelos cacheados num castanho mais claro quando banhados pelos sol que vez ou outra se escondia entre algumas poucas nuvens cheias. Ele a chamou de linda e ela abriu um dos olhos que o fitou de canto por um momento, e ambos deram um sorriso de cumplicidade. Ela sentou e pegou sua cerveja, ele acendeu outro cigarro e ela disse que ele era lindo também, enquanto ajeitava o próprio cabelo. Ele sentou no degrau ao lado dela, ao passo que ela desceu um degrau, sentou de costas para ele, deitou sua cabeça entre as pernas dele e pediu um trago do cigarro. Ficaram assim um tempo, bebendo e fumando sem se importar com o silêncio. Na verdade o silêncio entre os dois era uma das melhores coisas naquela relação. Sempre se sentiam confortáveis, mas era duplamente satisfatório ficar em sillêncio e ainda assim não sentir nem mesmo um mero boato de estranheza. Ele alternava entre beber e acariciar os cabelos dela, que respondia acariciando uma de suas pernas. Seus dedos se tocavam enquanto dividiam o cigarro vagarosamente. Ele gostava muito dela, e começava a suspeitar que talvez mais do que ele mesmo acreditava ser capaz, Ela gostava dele também, e com certeza teria algo além do que tinham, mas estava feliz em ser o que eram, mesmo quando sentia vontade de beijá-lo repentinamente. A verdade é que eram mais do que amigos e menos do que namorados, que já haviam trocado beijos durante uma ou duas noites, que se adoravam e que não se importavam com o que seriam, desde que não parassem de ser. Ele pegou o moletom dela e trouxe perto do rosto, sentindo seu perfume, ela notou e sorriu olhando-o de baixo pra cima. Ele se debruçou e encostou os lábios levemente em sua testa num beijo delicado, ambos beberam mais um pouco de suas cervejas e terminarm de dividir o cigarro.
- A gente vai ficar bem, né?
- Vai... vai sim.
Realmente fazia uma belíssima tarde.
02 junho 2023
Tardes de céu azul e sol.
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