19 julho 2023

Das coisas que me atingem com atraso.

 Às vezes penso no que foi minha adolescência, quem eu era, o que dizia, como agia. Minha memória me trai muito nesse período, e de fato eu não criei muitas raízes com aqueles anos. Acho que eu vivia sem ter o real senso de entendimento do que era aquela fase da minha vida, de mim. Reti tão pouco no meu banco de dados, gravei tão pouco em minhas retinas, que é quase um borrão, uma colcha de retalhos gasta e fina como um lençol, num varal enevoado e turvo, denso e úmido. Tenho passos vacilantes e me faltam palavras de afirmação pra concluir o que foram parte desses dias. Ainda assim, vez ou outra me pego tentando rememorar, tentando de alguma maneira entender quem era aquele eu mais jovem e provavelmente mais sorridente e despreocupado. Nem sempre consigo com exatidão, e quando alcanço fragmentos trazidos por pessoas que cruzaram meu caminho, é mais comum que me atinja pontas de remorso, vergonha e incredulidade. Não quero ser um mártir, não o sou, no fundo sei que fui jovem, e como tal, fui inconsequente e descuidado, rústico, fui madeira ainda tão mal entalhada e bruta que era capaz de rasgar com minhas arestas, pontas e farpas aqueles que outrora se atreveram a me tocar. É de certa forma sufocante a compreensão da falha, o conceito do tempo não nos deixa desdizer, agir de outra maneira, afinal, verso que sai da boca sai pra não mais voltar. Perdão recebido é sempre bem-vindo, mas costumo ter dificuldade em dá-lo ao meu próprio ser. E mais uma vez eu tenho que lembrar que mesmo egocêntrico, mesmo relaxado, mesmo alegre e furioso, mesmo desprovido de tato e com a compaixão pouco exercitada, eu de alguma maneira dei o que podia dar naquele momento, e fiz o meu melhor mesmo sem saber disso. Hoje não há mais forças pra voltar, mas o que sou hoje e o que vejo no horizonte me guiam para frente e isso eu tenho que abraçar. Sei que meu hoje é melhor que meu ontem e pior que meu amanhã, sei que estou diferente e evoluí. Seja lá o que pensar disso, de uma maneira ou de outra vou ter que superar. Vou ter que me perdoar. Eu preciso disso, pois é à partir dessa centelha de humanidade e esperança que consiguirei me tornar uma pessoa melhor, e por consequência, tornar melhores todos aqueles que importam ao meu coração e aos meus cinco sentidos. Estar conectado a alguém, adentrar, mesmo que infimamente a vida de alguém é um dom, mas também uma responsabilidade, e deve ser exercitado e aparado com esmero e manualidade. Saber disso hoje me fará ser minha própria resposta. Primeiramente aos meus próprios pensamentos e questões. Com algum tempo, e com alguma sorte, quem sabe aos outros também.

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