02 agosto 2011

Luzes.

Onze da noite. A campainha tocou. Era ele. Usava a camisa xadrez que eu dei de presente.
- Boa noite, minha linda.
- Deveria ser?
- Olhe lá fora, está lindo!
- Ah, vá embora...
- Ei, ao menos me deixe entrar.
- Certo, entre...
Ele sentou embaixo da janela. Me olhava carinhosamente e sorria.
- O que houve?
- E por que algo precisa ter acontecido?
- Não sei, você veio no meio da noite sem avisar.
- Só queria te ver.
- Faça-me o favor... Eu quero dormir...
- Não vou demorar.
- Tudo bem, diga então.
- Como anda sua vida?
- Bem. Por que?
- Porque eu sei que não é verdade.
- Então por que está perguntando?
- Não seja mal humorada.
- É que não estou entendendo nada.
- Você tem tido problemas no trabalho...
- Bom, sim...
- Você tem se sentido solitária...
- É, um pouco...
- E por que insiste em continuar assim?
- Que quer dizer?
- Por que não olha ao seu redor?
- E o que tem para ser visto?
- Alguém que talvez possa te ajudar, te entender.
- Eu não tenho tantos problemas assim.
Ele se levantou. Chegou perto de mim. Eu não estava entendendo aquilo.
- Você sabe que pode contar comigo.
- Sei ué, melhores amigos servem para isso.
- Falo sério...
- Eu sei.
- Não, não sabe. Também sou de carne e osso. Posso te ajudar, mas seu rosto parece dizer apenas ‘me deixe em paz’. Não estou dizendo que você pode me ligar quando a próxima decepção te atingir em cheio. Estou dizendo que quando o seu mundo ficar muito pesado, você pode colocá-lo em minhas costas, porque eu serei sua alavanca.
- Por que está me dizendo isso agora?
- Porque é verdade.
- Somos melhores amigos desde a adolescência, eu sei de tudo isso.
- Então por que ficou surpresa?
- Efeito da ocasião.
- Há uma grande diferença entre saber algo e ouvir algo, não?
- Desde quando você é tão emotivo?
- Desde que percebi o quanto você é importante para mim.
- Você também é importante para mim.
Ele tocou minha bochecha. Senti meu rosto ficar vermelho. Aquilo era estranho.
- O que você está fazendo?
- Nada. Eu já estou indo.
- Já?
- Não era o que você queria?
- Bem...
- Vou te dar o seu tempo para dormir, minha linda.
Ele saiu e fechou a porta. Continuei parada. Estava absolutamente surpresa. O que fora aquilo? Alguns minutos depois a campainha tocou. Abri a porta. Ele estava com um pequeno vaso cheio de rosas aos pés. Um sorriso pairava em seu rosto.
- Coloque-as na mesinha da cozinha. Vai ficar muito bonito.
- Pra que isso?
- Só para você se lembrar de mim.
- Certo, me explique tudo isso que eu já estou ficando nervosa.
- Não, não está.
- Como pode saber?!
- Eu a vejo como você realmente é. E eu finalmente consegui entender como eu realmente sou. Você vive uma vida solitária, uma pequena vida solitária. E eu gosto de você assim. Mas eu sempre soube.
Eu não encontrava algo para dizer. Aquela conversa estava tomando rumos desconhecidos.
- Eu poderia me iludir, e pensar que estou bem. Mas eu entendo tudo agora. E eu sei que sempre foi assim, que você sempre esteve me olhando de longe. Eu apenas não conseguia entender.
- Pare com isso...
- Sempre foi você. Se apaixonando por mim. Chamando por mim.
- Não seja convencido...
- Não estou sendo. Eu demorei mais do que gostaria para conseguir organizar meus sentimentos, mas agora tenho certeza do que quero, e você pode vir comigo se quiser.
- Ir para onde?
- Para onde quisermos ir.
- Não seja sonhador.
- Não sou, mas você não entendeu o que quero dizer.
- Então me explique.
- Sempre foi você... E me desculpe pelo atraso, mas agora temos todo o tempo do mundo.
Meus olhos estavam marejados. O choro seria inevitável. Ele tocou meu rosto.
- Eu sou uma luz piscando ao final da estrada. Apenas pisque de volta para eu saber.
Fechei meus olhos. As lágrimas caíram.
- Eu te amo...
Ele me beijou ternamente. Eu o amava, sempre o amei, e ele finalmente estava ali, perto de mim. Nos abraçamos e entramos em meio ao beijo, enquanto eu fechava a porta com o pé. Ele parou de me beijar.
- Eu também te amo...
- E agora o que seremos?
- O que quisermos ser. Mas estou pensando em duas luzes ao final da estrada.
Ele sorriu. Retribui o sorriso em meio as lágrimas.
- Fica comigo esta noite?
- Fico sim, minha linda, fico sim.
Ele secou minhas lágrimas lentamente.
- Sempre foi você... Sempre...

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