19 outubro 2013

Barba, Café, e Cigarros.

Era só mais uma manhã. Abriu a janela, olhou o céu. Bonito. Bonito até demais. O suspiro foi mais uma resignação do que desabafo, mas odiava dias bonitos assim. É claro que não gostava de chuva, mas o que custava amanhecer nublado? Não sabia bem quando começara a pensar assim, mas tinha convicção que aceitaria melhor a vida de merda que levava se o dia simplesmente raiasse mal humorado. Preparou café, sem açucar, gostava puro. Sentou na varanda, deu um gole, acendeu um cigarro. Imediatamente lembrou do que ela dizia. "Isso ainda vai te matar!" ou "Por que você precisa tanto dessa porcaria? Muitas pessoas param e vivem bem melhor, sabia?". Sorriu e soltou a fumaça no ar. De tudo que tinha alívio, não precisar mais escutar aquilo era o que mais aliviava. Era homem feito, adulto faz tempo, pagava as próprias contas, fumava porque queria, porra! Não custava nada tolerar um pequeno prazer como esse. Mas quem disse que ela era de tolerar? Quase nunca o fazia, e quando fazia, era pra provar que ela estava certa e ele errado. Passou a mão pelo rosto, bebeu mais uns goles, a barba estava começando a ficar grande. Todos os anos era assim nas férias, deixava a barba crescer e ficava com o que ela chamava de "ar sisudão", embora ele ainda achasse que só parecia desleixado. Terminou o café. Entrou, pegou mais, acendeu outro cigarro. Um raio de sol adentrou a sala enquanto voltava pra varanda. Que merda. Um dia tão bonito, tão agradável, tão ela. Já estava de saco cheio de vê-la em cada dia bonito e em cada canto daquela casa, não aguentava mais tanta lembrança, tanta coisa sem mudança, ainda que já tivesse mudado tanto. Olhou o movimento na rua, era um dia de semana comum, trânsito, passos apressados, metas, relatórios, prazos. Sentiu-se mais tranquilo ao constatar que ao menos as pessoas não estavam felizes e bonitas como o céu logo acima. Ele começava a pensar que tinha um problema em ver outras pessoas felizes, coisa de egoísmo mesmo, de criancice. Não queria saber de ninguém feliz perto dele, isso irritava mais que os dias de sábado em que ela costumava levantar cedo e ouvir música alta. Droga, mais uma vez ela. Toda hora era ela, ela isso, ela aquilo, ela, ela, ela. Devia vender a casa e quem sabe um pouco das lembranças. Quem dera fosse possível. Entrou, deitou no sofá, acendeu mais um cigarro. Ele sabia que não iria à lugar algum, nem mudaria mais coisa alguma, a ausência dela já era suficiente, e mesmo odiando lembrar, ele ainda amava, e mesmo aliviado, ainda sentia falta daquele jeito tão diferente que ela tinha pra enxergar as coisas. Deu uma longa tragada. Desde que ela se fora estava fumando com muito mais frequência, e agora estava se convencendo que em cada tragada tentava trazer mais de si pra dentro do próprio peito, e mais dela pra fora dele. Coçou a barba, apagou o cigarro e sorriu. Se havia algo que não estava conseguindo, era exatamente isso.

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