24 fevereiro 2021

Lost in the blue.

Constantemente eu me perdia no azul. Na cor azul. De alguma maneira inexplicável ela me preenchia e me transbordava com calor e também frieza, com tranquilidade e também tristeza. O azul manchava minhas pupilas, enchia meus pulmões e diluía em meu sangue. Acho que o azul era um cobertor de ignorância, mas muitas vezes também era a adaga que cortou minhas amarras. O azul do céu, do mar, dos olhos entediados de alguém atravessando a rua, no esmalte das unhas, no cabelo pintado, no drinque que me deixava aéreo, no maço do meu cigarro e em cada trago, nas notas de dois reais que gastei ao acaso e no chiclete pra refrescar meu hálito. O azul conversava comigo, estava em tudo que me trazia fôlego ou me afogava, me fazia dono de muitas coisas e refém de tantas outras. O azul me atingia além da cor, na dose de realidade amarga, nas tonalidade das redes sociais, na luz da notificações, no algoritmo impessoal, na chuva e também no sol de cada dia. Eu tinha fascinação pelo azul, e mesmo assim queria distância. Vinha em cada música que me enterrava sete palmos abaixo do chão, mas também como a salvação que me dava esperança. O azul era extravagante e ainda assim discreto e comedido, e eu nunca entendi quando ele tomou protagonismo na minha vida, e mesmo eu morando enterrado até a cintura numa cidade cinza, mesmo eu cuspindo vermelho após cada flechada, era o azul que dominava tudo. Alegria, tristeza, amor e ódio desmedido. Me fazia narcoléptico, sonâmbulo, insone, viciado e maltrapilho, me fazia inteligente, honesto, gentil e interessante. Nunca entendi minha vida, e até hoje não sei perfeitamente onde me encaixo, mas o azul está sempre comigo. Para meu desespero e alívio.

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