02 junho 2021

De tudo que lhe era ou é azul.

Os lábios delicados encontravam o filtro do cigarro recém aceso com certa hesitação. Não que não fosse fumante, mas não tinha ânsia por sê-lo, era mais como um hábito centrado na leveza, sem a pressa dos inveterados, sem a urgência do estresse diário, era como um cumprimento, o bom dia que recebia sempre que ia ao café da outra rua, como a familiaridade tranquila no mesmo sabor do gelatto que teimava em repetir com a satisfação das primeiras vezes. Não se ouvia naquela pele as rugas ensurdecedoras do fio que a cortara como notas de um piano bem afiado, afinado? Não sabia bem, às vezes achava que os dois podiam confurdir-se muito bem, tanto em sensação quanto em alquimia, poesia? Não ligava muito para saber qual, mas sentia, era isso que importava. Sentir a dor de cada calo de decepção dos dias era o sapato apertado que lhe feria os calcanhares em carne viva, uma forma, segundo as vozes de sua cabeça, de punir os próprios pecados e também o dos outros no querer de uma relevância autocrática, autocrítica? Não conseguia lembrar direito a linha de raciocínio, as cores se confundiam mesmo e ela nada sabia de cores, mas sentia, tossia e tinha cáries. Chorava e sorria sozinha, mas não assistia tevê, fumava devagar, com esmero, com diligência, e tocava o corpo com a ponta dos dedos, conhecendo-se com aguçadura, doçura? Não havia muita diferença, e se houvesse, que diferença faria? Achava que não se entendia, mas as pessoas ao redor entendiam menos, e não queria explicar, interagir, mesmo ávida de um copo d'água cedido por um terceiro, guardava a sede para si, trancava cada gole em sua própria fonte, que construia pedra por pedra nas páginas que lia despreocupadamente, mas atenta, não somente ao que a tinta lhe dizia, mas ao sol que atingia sua nuca pela manhã, ao calor que lhe dava entre as pernas durante a noite, quando se tocava ou quando fingia que não sabia fazê-lo, quando queria companhia sem saber pedir, quando o reflexo não lhe bastava, quando qualquer acorde era uma euforia, quando o riso lhe escapava, quando fumava, morria? Não compreendia se vivia ou morria lentamente, mas no fundo não importava, e o fundo era tão profundo que nunca secaria, nunca? Sorria sem saber, mas seguia, sentia.

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