Bebo sem sentir muito bem que bebi, fumo sem sentir muito bem que fumei, fica mais o gosto da ressaca e o pigarro na garganta, como poeira da estrada de terra remexida pelo arado, que entra pelo nariz e resseca a garganta, como uma árvore molhada após a chuva que pinga água no cabelo seco, a gota que corre o couro cabeludo, aquela sensação fora do lugar. Ainda assim eu sinto o lado bom de cada coisa, mesmo quando amargam meu corpo e distorcem minha mente nas madrugadas quentes de fim de ano. Ainda assim seduzo e sou seduzido, sorrio e recebo aplausos, dou aos ouvidos a melodia de um saxofone, de um trompete, da euforia e da melancolia, mas não sei medir meus momentos de prazer ou de exaustão. Sou regido por submissão e revolta, contrição e devassidão, mas acho que é assim que deve ser de certa forma.
Os campos cultivados nesse mundo limitado sentem meu pés calçados de tênis ou sapatos, e minha visão só capta os detalhes da existência quando estou de óculos. Acho que já deixei de perceber a essência tão cruamente, e essa percepção é tão gelada quanto a água de um chuveiro que começa a esquentar, pois não sei mais o que é a gota de uma cachoeira virgem, embora possa ouvir o som, e não vejo muitas estrelas, mas me fascinam as irreais dos filmes de Hollywood que vejo através da tela plana, que se tornou minha janela para o mundo cibernético e exterior.
Talvez com o tempo o café fique sempre frio, mesmo se você o deixar sob o sol do meio dia, mas não esqueça de passar o protetor solar, pois a luz do carregador é mais azul que o céu nublado e poluído. Os frutos produzidos pela terra não me satisfazem mais como antes, a não ser quando estão doentes e superfaturados, pois uma maçã não vale um diamante, e eu não sei consumir pouco do artificial, mas isso é normal, eu vi na tevê.
Como é o cheiro do mar? A maresia existe em uma música que ouvi nos anos 90, mas não sei muito bem se entendi, eu sabia mas esqueci, eu acho. Ainda assim eu sou tão vivo quanto cada dor nas costas, quanto cada dor de cabeça e cabelo branco, quanto cada orgasmo, mesmo os imaginados através dos direitos que a CLT me prevê. Eu sou tão real quanto poderia ser e isso já é assustador o bastante, mas também é como a benção de cada padroeiro, e cada nuvem do céu azul mais limpo que se há de ver em partes desse país que chamo de casa. Aliás, casa que ainda não fui capaz de conhecer, pois amo o verde que transpassa o concreto e tenho muito medo de me afogar.
Tenho problemas com mudanças e não sei dormir ao ar livre, pois minha pele é fina e tem cheiro de perfume, e tenho alergia a mosquitos. Vivo num mundo soterrado por janelas que ninguém olha, com eletricidade amarela e risos de depressão. Estou sempre em guerra, esperando o que não vem, teorizando sobre mim e escalando uma teia de arame farpado, que colocaram no condomínio pra afastar animais mais brutais que eu, mas que são essencialmente iguais a mim.
01 setembro 2021
Mugen significa infinito.
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