03 setembro 2021

Querencia.

Durante a manhã fria eu dei passos hesitantes em sua direção. Estendi minha mão e senti as primeiras gotas de chuva, deste sentimento que é estar distante de você. Tudo ao meu redor parecia compreender minha condição, mas as pessoas estavam fora de foco. O calor do meu coração ansioso não era capaz de esquentar o sangue em minhas veias, mas eu dei um passo a frente sem me inportar.
O som do seu riso ecoava em meus ouvidos como a melodia precisa de um piano, e mesmo de olhos fechados eu te enxergava através da solidão. Quando seus dedos tocaram os meus e eu senti suas cores, todas as cores que deram vida ao meu corpo inanimado, percebi como as cordas do destino sempre me levariam até você, verdes e azuis, vermelhas e douradas, gentilmente me puxando, me alinhando ao seu perfume delicado, ao centro de sua existência imaculada.
Meus sentidos misturados me causavam lucidez e emoção, as poças de água aumentavam, mas eu não podia deixar de sorrir, e meus pés gelados me impulsionavam, quase como asas invisíveis, como se através de mundos diferentes, estrelas e galáxias, e mesmo que você não estivesse ao meu lado eu encontraria seus lábios através do que me fazia inteiro, que se separou de mim e se manteve com você.
Durante a manhã fria eu dei passos hesitantes em sua direção, o som da chuva era forte, eu estendi a mão e as gotas de chuva me mostraram que eu sempre estaria com você, e quando estivermos frente a frente outra vez, daremos as mãos e assim vamos ficar.

01 setembro 2021

Mugen significa infinito.

Bebo sem sentir muito bem que bebi, fumo sem sentir muito bem que fumei, fica mais o gosto da ressaca e o pigarro na garganta, como poeira da estrada de terra remexida pelo arado, que entra pelo nariz e resseca a garganta, como uma árvore molhada após a chuva que pinga água no cabelo seco, a gota que corre o couro cabeludo, aquela sensação fora do lugar. Ainda assim eu sinto o lado bom de cada coisa, mesmo quando amargam meu corpo e distorcem minha mente nas madrugadas quentes de fim de ano. Ainda assim seduzo e sou seduzido, sorrio e recebo aplausos, dou aos ouvidos a melodia de um saxofone, de um trompete, da euforia e da melancolia, mas não sei medir meus momentos de prazer ou de exaustão. Sou regido por submissão e revolta, contrição e devassidão, mas acho que é assim que deve ser de certa forma.
Os campos cultivados nesse mundo limitado sentem meu pés calçados de tênis ou sapatos, e minha visão só capta os detalhes da existência quando estou de óculos. Acho que já deixei de perceber a essência tão cruamente, e essa percepção é tão gelada quanto a água de um chuveiro que começa a esquentar, pois não sei mais o que é a gota de uma cachoeira virgem, embora possa ouvir o som, e não vejo muitas estrelas, mas me fascinam as irreais dos filmes de Hollywood que vejo através da tela plana, que se tornou minha janela para o mundo cibernético e exterior.
Talvez com o tempo o café fique sempre frio, mesmo se você o deixar sob o sol do meio dia, mas não esqueça de passar o protetor solar, pois a luz do carregador é mais azul que o céu nublado e poluído. Os frutos produzidos pela terra não me satisfazem mais como antes, a não ser quando estão doentes e superfaturados, pois uma maçã não vale um diamante, e eu não sei consumir pouco do artificial, mas isso é normal, eu vi na tevê.
Como é o cheiro do mar? A maresia existe em uma música que ouvi nos anos 90, mas não sei muito bem se entendi, eu sabia mas esqueci, eu acho. Ainda assim eu sou tão vivo quanto cada dor nas costas, quanto cada dor de cabeça e cabelo branco, quanto cada orgasmo, mesmo os imaginados através dos direitos que a CLT me prevê. Eu sou tão real quanto poderia ser e isso já é assustador o bastante, mas também é como a benção de cada padroeiro, e cada nuvem do céu azul mais limpo que se há de ver em partes desse país que chamo de casa. Aliás, casa que ainda não fui capaz de conhecer, pois amo o verde que transpassa o concreto e tenho muito medo de me afogar.
Tenho problemas com mudanças e não sei dormir ao ar livre, pois minha pele é fina e tem cheiro de perfume, e tenho alergia a mosquitos. Vivo num mundo soterrado por janelas que ninguém olha, com eletricidade amarela e risos de depressão. Estou sempre em guerra, esperando o que não vem, teorizando sobre mim e escalando uma teia de arame farpado, que colocaram no condomínio pra afastar animais mais brutais que eu, mas que são essencialmente iguais a mim.

02 junho 2021

De tudo que lhe era ou é azul.

Os lábios delicados encontravam o filtro do cigarro recém aceso com certa hesitação. Não que não fosse fumante, mas não tinha ânsia por sê-lo, era mais como um hábito centrado na leveza, sem a pressa dos inveterados, sem a urgência do estresse diário, era como um cumprimento, o bom dia que recebia sempre que ia ao café da outra rua, como a familiaridade tranquila no mesmo sabor do gelatto que teimava em repetir com a satisfação das primeiras vezes. Não se ouvia naquela pele as rugas ensurdecedoras do fio que a cortara como notas de um piano bem afiado, afinado? Não sabia bem, às vezes achava que os dois podiam confurdir-se muito bem, tanto em sensação quanto em alquimia, poesia? Não ligava muito para saber qual, mas sentia, era isso que importava. Sentir a dor de cada calo de decepção dos dias era o sapato apertado que lhe feria os calcanhares em carne viva, uma forma, segundo as vozes de sua cabeça, de punir os próprios pecados e também o dos outros no querer de uma relevância autocrática, autocrítica? Não conseguia lembrar direito a linha de raciocínio, as cores se confundiam mesmo e ela nada sabia de cores, mas sentia, tossia e tinha cáries. Chorava e sorria sozinha, mas não assistia tevê, fumava devagar, com esmero, com diligência, e tocava o corpo com a ponta dos dedos, conhecendo-se com aguçadura, doçura? Não havia muita diferença, e se houvesse, que diferença faria? Achava que não se entendia, mas as pessoas ao redor entendiam menos, e não queria explicar, interagir, mesmo ávida de um copo d'água cedido por um terceiro, guardava a sede para si, trancava cada gole em sua própria fonte, que construia pedra por pedra nas páginas que lia despreocupadamente, mas atenta, não somente ao que a tinta lhe dizia, mas ao sol que atingia sua nuca pela manhã, ao calor que lhe dava entre as pernas durante a noite, quando se tocava ou quando fingia que não sabia fazê-lo, quando queria companhia sem saber pedir, quando o reflexo não lhe bastava, quando qualquer acorde era uma euforia, quando o riso lhe escapava, quando fumava, morria? Não compreendia se vivia ou morria lentamente, mas no fundo não importava, e o fundo era tão profundo que nunca secaria, nunca? Sorria sem saber, mas seguia, sentia.