26 setembro 2010

Outra Manhã. - Parte 1

Outra manhã.

Mais uma vez me levantei da cama como se levantasse da sarjeta de um beco escuro, e caminhei lentamente até meu banheiro sujo de azulejos quebrados.

Acionei a descarga depois de me aliviar e encarei o espelho rachado em cima da pia de louça escura, enquanto lavava as mãos e depois escovava os dentes. A rachadura trouxe o efeito de uma cicatriz enorme que fazia meu rosto desigual. Engraçado, talvez eu o preferisse assim. Desfigurado. Exatamente como meus sentimentos.

Enchi as mãos de água e molhei o rosto e meus cabelos pretos, curtos e espetados sem me importar com a aparência bagunçada. Voltei ao quarto pequeno e simples e olhei a hora. Onze horas da manhã em ponto. Abri a janela. O vento frio não me surpreendeu. Nublado. Garoa. Mau humor. Igual.

Depois de me vestir fui até a saleta composta apenas por um sofá velho de tecido verde musgo do antigo morador, uma TV velha e uma pequena mesa com duas cadeiras.

Liguei a maldita televisão e passando pelos canais vi apenas tragédias alheias, receitas de tortilhas e programas infantis que tratam as crianças como deficientes mentais.

Dando um suspiro irritado, apertei o botão de desligar no controle remoto e vi a tela da formadora de imbecis sociais do futuro apagar-se. Aquilo me enoja.

Fui até a cozinha de piso engordurado e azulejos rachados, abri a geladeira azul antiqüíssima também do antigo morador, e servi leite gelado em um copo.

Abri um armário de parede e peguei a caixa de cereal. Uma barata saiu de dentro dela e caiu no chão, se contorcendo. Não me importei. Enchi a boca com cereal direto da caixa e ainda mastigando bebi o leite para ajudar a engolir. A refeição mais importante do dia, dizem todos. Hipócritas. A grande maioria sequer sabe o que é comer algo pela manhã.

Peguei meu sobretudo e meu chapéu preto pendurado na maçaneta da porta, vesti-os, e saí. Passei rapidamente pelos corredores estreitos e mal iluminados do prédio velho, pichado e depredado, desviando de um corpo ensangüentado que está de bruços ali faz três dias. A poça de sangue já escura e completamente seca.

- Bom dia, antigo morador. – Disse educadamente ao corpo inanimado e sangrento sorrindo ironicamente para o nada.

Ganhei a calçada e a garoa fina me cumprimentou sem cerimônia. As pessoas estavam apressadas.

Sabe o que é irritante? Elas sempre estão apressadas. Sempre.


26 de Setembro de 2010. Por: Régis S. Oliveira.

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